J. Sebastián Bach. Saludo
Moderno como las olas
antiguo como la mar
siempre nunca diferente
pero nunca siempre igual
Eduardo Chillida, in Preguntas
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
NATAL É COMO SE...
domingo, 12 de dezembro de 2010
ATÉ QUANDO? (O Difícil Mundo dos Idosos)
Os filhos da urbe, apartam-nos; os lares que constroem para eles são verdadeiras estalagens para a derradeira vagem, sem açúcar, sem afecto; a sua reforma é inferior, na maior parte dos casos, ao valor das roupas de marca que os seus netos usam; o preço dos medicamentos que lhes prolongam a vida está pela hora da morte…
Resta-lhes, como na alegoria de Elio Vitorini, seguir o trilho dos elefantes, que se apartam da manada, quando sentem que a sua utilidade chegou ao fim, dirigindo-se para norte, gigantesco cemitério de elefantes: “Consideram-se mortos e morrem”, desistem de viver. Para quando a devolução da dignidade perdida dos mais velhos; até quando estes atravessarão o presente, desculpando-se de não ter ido mais longe”, nas palavras de Brel, e se sujeitam à tirania dos que esperam o seu sono tranquilo e infinito?
arlindo mota
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
PÃO POR DEUS
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
POETA DO MÊS: ALEXANDRE O'NEILL

PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testastarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal, o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
(Feira Cabisbaixa, p.211,1965)
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Alexandre O`Neill nasceu em 19 de Dezembro de 1924 e morreu 21 de Agosto de 1986, em Lisboa. Foi um dos poetas marcantes da sua geração, conciliando o surrealismo que o marcou indelevelmente com a mais brilhante tradição satírica da literatura portuguesa. Foto retirada, com a devida vénia, do site Tormentas.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
DOMINGOS DA MOTA: Bolsa de Valores

Pormenor de um quadro de Paulo Themudo
BOLSA DE VALORES
Há quem faça passar gato por lebre
e por anho ou cabrito muito cão
e se afirme credor mesmo se deve
e perjure que sim perante o não
Há quem fale em fartura quando a fome
e a sede sufocam as gargantas
e convoque o verniz do sobrenome
pra atestar o que diz até às tantas
Há quem venda ilusões como certezas
e corrompa e aguce a cupidez
e no meio de tais subtilezas
presuma branquear mais uma vez
que a bolsa de valores, em substância,
retrata o poder e a ganância
(Domingos da Mota publicou recentemente, na editora Temas Originais, de Coimbra, o livro que toma por título o nome deste poema. A sua obra ergue-se ancorada na tradição da melhor poesia portuguesa, que reescreve de uma forma própria, original, mostrando-se atenta à realidade nas suas diversas perspectivas. É, por isso, um livro que a Seda das Palavras recomenda vivamente.)
sábado, 27 de novembro de 2010
QUANDO TINHA A IDADE...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
MARIAM: PRENDA SUA
Mariam é blogger de sucesso, fotógrafa e poeta de gosto apurado que tem acompanhado e incentivado a "Seda das Palavras" desde sempre...Esta foto é sua. Pô-la generosamente à minha disposição. Resta-me partilhá-la no blogue pois todo o seu sentido tem muito a ver com o seu conteúdo: a luz, os barcos, os sapais...
sábado, 6 de novembro de 2010
POETA DO MÊS: SIDÓNIO MURALHA

DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA
1
Na praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.
Búzios da praia da Areia Branca:
- um dia,
haveis de falar
unicamente do mar.
2
No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.
Ali, não são morenos nem são loiros:
- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.
Serenos, serenos, repousam os mortos,
- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os portos.
(Sidónio Muralha, nasce em Lisboa em 1920 e morre em Curitiba em 1982. Foi um dos precursores do neo-realismo português com BECO (1941). Viveu um pouco por todo o mundo. Exilou-se na Bélgica e acaba reconhecido no Brasil, onde viveu as últimas décadas da sua vida, especialmenmte pelos seus livros para um público infanto-juvenil)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
ENTRE PORTOS PALAFITAS

ENTRE PORTOS PALAFITAS
os corpos passadiços sugados pelo tempo
sobre as águas rumorejando quando em vez
anunciavam algazarras as chegadas e partiam
no silêncio das marés
ali cevei em mim uma roseira
as pétalas pegadas que deixei
meia-lua à espera à tua beira
quando o tempo nos consome
e nada mais se divisa por diante
é pura eugenia a minha fome
arlindo mota
foto: arlindo pato mota
sábado, 9 de outubro de 2010
7 PECADOS

Eis uma antologia que vale a pena integrar: porque tem corpo e alma e amizade dentro. Porque não se abriga à sombra do egoísmo ou do lucro travestido de caridade. Estabelece um círculo que vai dos seus promotores e organizadores, aos parceiros. Dois nomes traçaram o círculo virtuoso: Ibernise e José Lourenço. Para eles, pela abrangência e generosidade, o bem-haja dobrado.
arlindo mota
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
DE SÚBITO
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
KAREN THIELE CAMPOS: LUZ E SOMBRA


« A artista plástica Adriane Hernandez, professora de Artes Visuais da UFPel, preparou uma exposição de seus alunos, em parceria com o Instituto João Simões Lopes Neto. Os estudantes deviam elaborar criações não tradicionais em torno ao livro - como conceito e como objeto - e à casa do escritor.
Em visita ao Instituto, as ideias apareceram e foram feitos os projetos de acordo aos lugares da casa. Assim, a exposição "A casa, as estantes e os livros", com pouco mais de uma dúzia de surpreendentes trabalhos, foi aberta na quinta 22 de julho, e se prolongou até 30 de julho(...)
"Luz e sombra", o impressionante livro-janela de Karen Campos, foi construído com papel paraná, craft, celofane e lâminas de retroprojetor. O tamanho da obra, adaptado à realidade física da casa, também dizia que ser escritor (ou encadernador) envolve bastante trabalho, na concepção e na confecção. Pequenos nos sentimos ante certos livros.
O livro com forma e funções de janela, além de ser parte da casa de um escritor, permite olhar o mundo lá fora, iluminar o interior, trocar de ar e escrever nos vidros.
As várias folhas podiam ser folheadas e lidas sem dificuldade, e em cada uma havia mensagens epigramáticas como esta (do poeta português Arlindo Mota):
Quem controla o desejo: a emoção ou a ternura?
- A paleta, responde o pintor.
- A palavra, atalha o poeta. Juntos, distribuem a luz que inunda de cor o planeta.»
F.A. Vidal, in blog "Pelotas, Capital da Cultura"
Parabéns à Karen Campos, promissora artista plástica brasileira e à sua orientadora pelo conceito brilhante que deu origem a este (e outros) magníficos trabalhos e ao convite para colaborar que me dirigiu e a que acedi com o maior gosto.
apm
sábado, 11 de setembro de 2010
REFLEXÃO
foto: arlindo pato mota
REFLEXÃO
Subitamente
O rumo se fez tempo e ao longe
O amanhecer se recortara.
A quem cabe o fortuito,
O desgarrado,
O repensar o acaso, o absoluto,
O misterioso esgar e
A impoluta coragem,
A razão dia a dia perscrutada,
E a fuga ciclicamente repetida?
Arqueados, no cais, retomamos
O alento da manhã. Caminhamos.
arlindo mota
domingo, 29 de agosto de 2010
RETRATO MERIDIONAL
RETRATO MERIDIONAL
Foi a Sul, onde as cores se misturam a quente
embutindo gente e sofrimento
E a paisagem pintada por dedos hábeis, cálidos
é ouro rendilhado a sol e vento
na amplitude das margens que cavaram
Aí crescera: criança, querubim, esposa, amante
Vivera até ao fim, talvez um pouco mais adiante,
no limite, o azul que lhe traçaram
arlindo mota
foto: arlindo pato mota
sábado, 21 de agosto de 2010
FÁTIMA RIBEIRO MEDEIROS: "A Seda das Palavras"

"De seda se vestem as palavras deste último título, depois de ensaiado o «canto viageiro» e ultrapassados «incertos dias» de um quotidiano a que o eu poético soube apor a sua «marca de água», sob o olhar atento, «húmido» e «brilhante» de Cibele. Palavras atravessadas por um toque de delicadeza, sensibilidade, sentido lírico. Palavras de amor, desejo, partilha, ternura, inquietação, busca, num navegar poético por rotas ora originais ora revisitadas, entre um presente calmo, de aceitação de um destino inevitável, e um passado pontuado por afectos vários, delineando o «percurso percorrido» de uma viagem incessante.(...)
Fátima Ribeiro Medeiros
IELT, FCSH - UNL
(Com os agradecimentos à distinta investigadora que revisitou, para o jornal "O SUL", a obra poética do autor, com particular incidência no livro "A Seda das Palavras". Em breve o texto completo estará à disposição noutro local da WEB)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O CUME
O CUME
subiu a encosta e a cada curva saudavam-na
jasmins e sardoeiras até ao cume, ponto mais alto
onde o rosto se abre, manhã clara, em pleno
espanto
fora assim, de encosta em encosta, de cume em cume,
que acabara o dia,
no aconchego do teu corpo, abóbada celeste, e o lume
paradoxo da geometria
e seu encanto
arlindo mota
foto:arlindo pato mota
quarta-feira, 21 de julho de 2010
POETA DO MÊS: AL BERTO
ANTES QUE O RIO ESQUEÇA...
«Olhar atentamente a civilização que nos deixaram.
Dantes podíamos virar costas à terra com a certeza de que as eiras estavam cheias de grão. Hoje apenas podemos sonhar com as eiras que não veremos nunca.
Mas as máquinas vieram para talhar a cidade que vem e o falso ouro contaminou a terra.
Tentaremos esquecer a morte que se insinua em permanência e que de tão presente já não sentimos o cheiro. Refina a morte das aves, esquece-se a vida dos peixes, morrem as árvores, degrada-se a vida dos homens.
Na memória doem os sinais dos bosques ceifados, as dunas arrasadas e algumas casas abandonadas. A memória é hoje uma ferida que lateja ao fundo da insónia.
Escavemos o chão, procuraremos essas raízes em pedra cinzelada, objectos da vida simples de outros povos. Preciosas navegações, procuraremos a velha dança à roda do mastro. Olhamos as nossas minúsculas embarcações, semelhantes a beijos que nos percorrem de felicidade.
Olhamos o mar, o espaço desses navios negros que nos escondem a linha do horizonte. No coração nada secou, nem possuímos o desastre dentro dos sonhos. A vida preciosa de vivíssimas memórias.
Com este corpo frágil e magoado, procuramos preservar a nossa memória colectiva da voragem do tempo e do abandono dos homens.»
Prosa poética de um dos grandes poetas portugueses,Alberto Pidwel (Al Berto) para um video sobre Arqueologia Naval da Margem Sul, escrito em 1985, transcrito e sob responsabilidade de arlindo pato mota, companheiro e admirador do poeta.
sábado, 17 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
NEGRO EM CONTRASTE AO AZUL AVERMELHADO
entrou como uma nuvem,
pássaro negro,
fazia contraste no azul avermelhado do céu,
o cheiro de campo inundou o dia,
vinha na frente, como se fosse um suspiro do céu.
sua alegria entrou pela cozinha,
trouxe apenas o próprio ar
e o som do mundo começando...
numa caligrafia refinada,
o pensamento liberta-se da mente
e faz o papel implorar...
por maior que fosse a distância
entre o desejo e a alma,
vem suave e desce na cabeça,
faz contraste na mente branca.
...até agora a pouco não tinha nem luar.
volta num vôo,
apaga as luzes do mundo
e onde não havia nada
crescem estrelas no solo da noite...
Vania Lopez
(ainda um poema sobre "pássaros" de uma inspirada poetisa brasileira que já tem colaboração neste sítio)
foto: apm
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Devo confessar que sou o contrário, meus passos seguem em contrário.
Sou uma pessoa inquieta, vou onde meu vento me leva. Artista Plástica e escritora, as vezes sem saber se pintoraqueescreve ou escritoraquepinta...
terça-feira, 6 de julho de 2010
POEMA AVE
Vens querida ave mapear o céu!
Com a brisa estonteia teu canto
Em brancas nuvens deposita o encanto
E vive assim pelo mundo ao léu!...
No solstício abraças a bela madrugada
Ave poema que no sonho já pousa
E no alvo ventre no céu repousa
Sentindo-se por todos tão amada!
E quando sente a fome de amar
Voa altiva pelas ondas do mar
Buscando o cinza dos olhos sinceros
Avezinha que a todos acalma
Tens nas penas o manto da alma
Como um poema ave, tens da poesia o eterno!
LEDALGE
"Com inspiração no ... poema "Teu Corpo Ave Cinzenta" de Arlindo Mota (Ledalge)"
foto: arlindo pato mota
Sou uma mulher que respira poesia; que a mantém viva dentro de si dia após dia. Sou uma sonhadora, que busca nas vielas do sonho, os contornos da vida. Essa sou eu: NÚRIA CARLA, A LEDALGE.
domingo, 20 de junho de 2010
TEU CORPO AVE CINZENTA

teu corpo ave cinzenta simulou um voo
ao encontro dos deuses, mundo dos ses,
em movimento pendular: ser e não ser,
cintilando ao retornar pela última vez
o corpo brotou manancial de água fresca
sobre delicado tapete de plátanos em flor
sem cuidar de saber se ao partir voltaria:
eclipse ou expressão circular da geometria
o corpo ave cinzenta aninhou uma última vez
no meu colo,e ali ficou, delicada,serena forma,
depois despertou tão naturalmente naquele dia,
que deixou a ilusão de ser eterno – e não seria…?
arlindo mota
sábado, 19 de junho de 2010
FOTOPOEMA: TEMPO DE PARTIDA
domingo, 30 de maio de 2010
CABO DA ESPERANÇA
Quanto custou dobrar o Cabo,
Assegurar os mantimentos
E o ânimo dos Homens?
País de marinheiros, de aventuras,
Ninguém pergunta quanto custa
Dobrar o cabo da ternura.
Dobrar o Cabo, sem perder a esperança
E ao sabor do vento navegar,
Indiferente à tempestade ou à bonança,
Ser uma ilha entre o azul e o mar.
arlindo mota
foto e poema
domingo, 23 de maio de 2010
FORA ASSIM QUE TUDO COMEÇARA...
Rios irrompiam bem por dentro
criando uma alameda junto ao mar
entre palmeiras e urzes inclinadas
que o vento modelava sem cessar.
Aí teu perfume de cedro e aloendro
anunciava um tempo mais bravio
enquanto as faces breves se tocavam
por entre camarinhas e o desejo.
Fora assim que tudo começara,
despojada candura e verdes campos:
Feliz, recorda Cibele, no seu semblante
a chegada de mais uma Primavera.
arlindo mota
foto e poema
domingo, 16 de maio de 2010
OS LOUCOS DA MINHA RUA

O ar que se respira, carbono negro, denso,
quase impuro, nada tem a ver com a cor,
nem com as guelras (do odor não me lembro),
vem da memória, dizes, talvez do coração,
pois nem o pulmão que o inspira, sente.
Assim se vão passando os dias, indolentes,
aqui no asilo, onde às árvores chamam gente,
e elas murmuram entre dentes, qualquer coisa,
que bem podia tratar-se de sementes.
Mas não, é coisa de doentes…
arlindo mota
foto de um quadro de Toni Puig
sábado, 8 de maio de 2010
A ESPADA DE DÂMOCLES
BILHETE POSTAL: CROMELEQUE DOS ALMENDRES

Situado a cerca de 12 km a poente da cidade de Évora, o Cromeleque dos Almendres integrava, no seu apogeu, mais de uma centena de monólitos, constituindo um recinto de estrutura complexa, fora dos cânones dos monumentos similares da Península, com paralelo apenas num pequeno universo no termo de Évora.
Apesar de se encontrar em região de forte presença de testemunhos funerários do complexo cultural megalítico, somente em 1964, no decurso dos trabalhos da Carta Geológica de Portugal, o arqueólogo Henrique Leonor Pina, identificou este recinto que constitui o maior conjunto de menires estruturados da Península Ibérica e um dos maiores da Europa. (Com a devida vénia do Turismo de Évora)
Foto: arlindo pato mota
sexta-feira, 7 de maio de 2010
EUFRÁZIO FILIPE: OCULTA NO GRASNAR DAS AVES

Os barcos ainda não tinham
abandonado o chão das águas
já vergavas o corpo
na corda tensa
enterravas os pés
e deixavas os peixes saltarem
nos teus olhos prateados
Exilada no próprio corpo
emerges deusa quase perfeita
ao pôr do sol
num desencontro de preces
mas só quando a desoras
te abres em flor e desnudas
entregas o resto das forças
a um beijo
adormeces oculta
no grasnar das aves
Eufrázio Filipe
Foto: Pedro Soares
"Em todo o livro (o recém-editado Para Lá do Azul), o autor estabelece um subtil diálogo, mais pressentido que nomeado, entre um eu e um tu onde se respira uma delicada sensualidade que percorre quase todos os poemas e onde as palavras vão serenamente, desenhando uma trignometria imperiosa dos sentidos." in Prefácio de Arlindo Pato Mota
domingo, 25 de abril de 2010
25 DE ABRIL: POEMA INCOMPLETO...
UM LIVRO É...

UM LIVRO…
é como uma pequena ilha
num imenso oceano
de páginas brancas,
e uma ilha, de perdida,
grávida,
tem de ter dores,
paridas,
para ser vida e
alma.
arlindo mota
Dia 24 de Abril, Dia Mundial do Livro, a Livraria Culsete organizou uma Tertúlia de Leitura, que contou com a presença de autores e leitores que leram excertos de obras, em ambiente de confraternização e amor pelo livro, durante mais de três horas. À Fátima e ao Manuel Medeiros, seus organizadores e anfitriões, a palavra justa de apreço.
domingo, 18 de abril de 2010
MITO PRIMORDIAL
BILHETE POSTAL - O CONVENTO DA ARRÁBIDA
Em plena e deslumbrante Serra da Arrábida, junto a Setúbal, debruçado sobre o Oceano Atlântico, o Conventinho, outrora (até há cerca de dúzia e meia de anos) pertencente à Casa dos Duques de Palmela, é hoje propriedade da Fundação Oriente, que aí organiza cursos e conferências, alguns em sistema residencial. Uma preciosidade no património nacional e mundial. Aí viveu o poeta e monge Frei Agostinho da Cruz.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
DOLORES MARQUES: SUJEITO-ME...

SER SUJEITO
Que o Sujeito seja um nome,
Articulado e atento,
Ao desenrolar da vida
(Caprichosa, não cumprida,
Acidulada, vencida)
Predicativo é que não.
arlindo mota
SUJEITO-ME…
gosto de saber que me sujeito
deliberadamente,
sujeitando-me a ser um nome
no meio de tantos outros
em nome de algo que seja
a liberdade...
(Sou eu…sou assim na vontade)
Matilde D'Ônix
(Dolores Marques, que usa o pseudónimo de Matilde D'ônix, é uma poetisa de reconhecido talento e dotada de uma profunda cosmovisão que espelha bastas vezes, de forma apropriada, na sua poesia. "SUJEITO-ME", que assumidamente se inspirou no meu poema "SER SUJEITO", é uma forma muito pessoal da autora interagir com outros poetas. A sua presença no A Seda das Palavras - que dignifica, é também testemunho de amizade e de partilha.)

sábado, 10 de abril de 2010
PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?

PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?
Tag: quase pueril
Quando no duro empedrado de basalto inventávamos campos da bola onde disputávamos campeonatos intensos e eu aparecia todo esfolado mas não doía, tu ralhavas mas eu era feliz,
Quando a menina Júlia, que regressava de táxi todas as manhãs, ao sair do carro deixava entrever um pouco mais da branca pele por sob o rodado da saia, eu também não te dizia que estava lá à sua espera,
Da nossa vizinha, do andar de baixo, essa sabias, que me oferecia livros de que fiquei amigo para toda a vida: O "Sandokan" do Salgari, mas também o Júlio Dinis e Os meus Amores do Trindade Coelho, e tantos outros, de que jamais me desfiz,
Também te não falei da minha primeira namorada, que acompanhava à saída da escola todas as tardes, subindo as centenas de degraus, quase até sua casa, de mão dada, e de uma flor que, por timidez, nunca lhe dei,
Quando decidiste – eu crescera – mudar para um bairro novo de prédios grandes (mesmo que para isso labutasses noite e dia), onde se não podia jogar na rua e eu não conhecia ninguém, também não te disse como tanto gostava do bairro que acabara de deixar…
Pai, para que querias que eu fosse ainda mais feliz?
foto e texto:
arlindo pato mota
sábado, 3 de abril de 2010
ÁGUA-FORTE
sábado, 27 de março de 2010
JOSÉ LUIS LOPES: OS AFECTOS

Os afectos são para mim sempre muito difíceis de escrever ou comentar, sendo assim, Caro Amigo, não sei se irei conseguir abranger com a minha escrita a totalidade dos meus afectos. Habituei-me a fragmentar este coração de afectos de forma a tentar ser o mais justo com os que me merecem afeição. Selecciono a família para os primeiros carinhos neste escrever, que, penso eu, deveriam nascer juntamente com o primeiro choro. Apesar de não escolhermos a família, ela é a raiz que me segura a esta terra, existe um nó que se aperta e com a idade, e mesmo quando me desilude, o aperto do laço não folga, aperta sempre mais.
De seguida, os afectos pelos amigos: aqui sofro sempre de morte. Aprendi a escolher os amigos pelo seu valor moral, quando eles me desiludem não perco um amigo, perco a minha escolha, perco a minha solidez psíquica, perco as raízes, eles são o fruto da minha árvore de rua, não os escolhi pelo sucesso, ou pelo os aparatos que possam usufruir, escolhi-os porque penso que são os melhores amigos do mundo, os mais nobres, os mais inteligentes, SÃO OS MEUS AMIGOS, apesar de ter percebido que a idade trouxe diferenças, tomei eu outro rumo, continuo a ler diariamente os seus sucessos, são meus também, são da minha colheita, tenho a certeza que compreende este prazer! Sempre que um amigo é especial eu também sou, e quando erra, encontro sempre uma desculpa, muitas vezes a culpa é até minha, deveria ter pensado mais rápido e avisado ainda mais depressa para que ele evitasse o erro.
Hoje, com o avançar da idade, encaro os afectos como um bem precioso, gostar é um bem necessário, devemos começar primeiro por gostar de nós (muito), depois Amigo, podemos conversar afectuosamente, assim como o vamos por aqui fazendo.
Fazer afectos com quem nos lê é gratificante, mas melhor é dizer-lhes que adoro que gostem do que por aqui vou gatafunhando.
Recebo de mãos abertas todos os afectos enviados por palavras, livres de compromissos, livres de se tornarem algemas, são os afectos de hoje.
Se um dia terminarem as palavras, ficarão os afectos para lembrar que valeu a pena passar por aqui.
O LUSO POEMAS, ao contrário do que muita gente diz é um mundo de bons afectos, mesmo que muitas vezes sejam superficiais, no entanto, no ar caminha esta alegria de fazer bem uns aos outros: ESCREVENDO…

É este mundo que procuro, o dos afectos simples, o do gostar de A ou B apenas porque o sinto mais perto de mim nas palavras, se um dia o real for diferente do virtual, não virá mal ao mundo. Daí, ficarão os afectos das palavras, ficará também o que de melhor há no mundo, as diferenças entre pessoas. Dos bons e maus escribas ficará para mim apenas as palavras que me ajudaram diariamente a escrever para os meus amigos mais afectuosos.
Caro Amigo isto que ia ser um comentário ao seu poema acaba por ser um texto, postado aqui no local onde todos os “Poetas” são iguais, não será por isso que deixará de ser endereçado ao seu Poema “Os Afectos”, apenas entendi que neste momento do Luso era mais importante escrever este meu sentir, não por si Caro Amigo, felizmente sinto que os afectos já tomaram conta das nossas palavras, mas por todos os meus amigos e amigas do Luso, que através dos seus escritos acabam por me incentivar a escrever sempre melhor, um qualquer punhado de palavras.
Se um dia não gostarem do que escrevo, perdoem-me, mas não me digam no escrito, creiam mesmo que irei ficar triste, mandem-me antes uma MP, a darem conta das vossas razões. Podem estar certos que ficarão mais afectuosos deste pobre sonhador.
Caro Arlindo, um abraço afectuoso de quem gosta de o saudar apenas porque gosta das suas palavras, hoje, neste dia especial esta saudação é extensiva a todos aqueles que ajudam o Luso poemas a ser todos os dias a nossa Casa das Letras.
José Luís Lopes
OS AFECTOS (Republicação)
Os afectos, disseste, são como as flores,
rosas, gladíolos ou simples urzes:
Brotam, desabrocham ou apenas definham,
como uma acidental conversa ao fim de tarde,
inspirando a brisa que sopra de mansinho.
Na monda dos afectos, é fugaz, Cibele,
a botânica gentil dos sentimentos.
arlindo pato mota
fotos: Pedro Soares
(José Luis Lopes é um poeta e um homem de reflexão, que procura ver nele e nos outros o que têm de melhor. As suas palavras que, a pretexto da publicação do meu poema "Afectos", ele comentou diz muito sobre quem diz e o que pensa dos outros e da sua visão da vida. A sua genuidade e grandeza de carácter aproximou-nos. As suas reflexões, que partem sempre pedagogicamente da sua experiência pessoal, constituem um guia certo "para a boa direcção do espírito". A sua presença no Seda das Palavras constitui, por tudo que foi dito, um acto de amizade e gratidão.)
quinta-feira, 25 de março de 2010
CANTO VIAJEIRO
VIAGEM: PREPARAÇÃO
Foi no tojo das palavras,
no rigor da intenção,
que rebentei as amarras,
penetrando no que são.
Cortei as asas do tempo,
perfumei o meu olhar,
e adormeci ao relento,
sem ter pressa de acordar.

NAVEGANDO
Como um vulgar marinheiro,
inventei-me num porão,
percorrendo o mundo inteiro.
Os portos foram surgindo,
mas nem por isso mais perto
me encontrei do destino,
como se fosse sumindo.
Percorri tudo, se é tudo
o que posso imaginar,
descobri novas paragens,
por cada nesga do mar,
viajei por latitudes,
ainda por localizar.

NO FIO DO HORIZONTE
Dobrei o cabo da esperança,
fundei o meu universo,
temi o vento e a bonança.
Não fui quixote, nem pança,
para tal, faltou-me o jeito.
Por fim, sentei-me num canto
- entre rio e outro rio,
entre mar e outro mar -
cansado de correr tanto,
indeciso no lugar,
aí fiquei até hoje.
FOTOS E POEMAS: arlindo pato mota
sábado, 20 de março de 2010
SOFIA (VISTA POR IBERNISE)
1.
À medida que o tempo humedecia,
crescia entre a areia do pecado,
cálida na substância e na idade.
Fez-se mulher: sumo de romã
em taça fria.
2.
Sacudiu graciosamente os ombros,
abotoou, lasciva, o último botão,
pegou na sacola, cingiu o corpete,
e partiu naquele dia, como nos demais,
mas jamais apareceria,
Sofia.
Foto e poema: arlindo pato mota

COMENTÁRIO DE IBERNISE*
Poema cadenciado num ritmo sugerido pelas rimas internas, produzindo um efeito sonoro especial, durante a declamação. Uma construção que envolve o simples numa complexidade que se expande exponencialmente.
São várias as vertentes para serem exploradas num poema riquíssimo como este, mas vou avaliar a questão da dádiva…
Sofia parece ser muito dadivosa… Mesmo se considerarmos as questões filosóficas.
Faço este destaque considerando que este excerto é cerne, que promove o entendimento das atitudes de Sofia, intencionais e manifestas:
'… cálida na substância e na idade.
Fez-se mulher: sumo de romã
em taça fria.'
A beleza lasciva chamando atenção ao último botão é de uma singeleza sem par. Uma imagem que fica… Uma mulher a abotoar o ultimo botão… Tem muito de tudo e de nada.
No entanto aqui realçando apenas a dádiva…
Os botões lembram um final, podendo lembrar uma desistência em pleno interlúdio amoroso.
O que se dá a alguém que muito quer mas às vezes não sabe receber. E assim, a graça da dádiva se torna a mácula da entrega… Mas isto n-ao nos deve impedir de sermos generosos… Como saber antes de entregar algo, se alguém vai ou não saber receber?
Sofia desaparece… Um desaparecimento que pode não ser… Sugere que poderia ser uma mudança de atitude, e como tal, crescimento implica num renascer onde o antigo ser 'deixa de ser'… Para aparecer renascido em novas atitudes, é …
Mesmo entendendo que mais vale acreditar na riqueza da dádiva do que se recusar a acreditar no amor de quem irá recebe-la… E isso todas as sofias, em algum momento da vida, precisam avaliar, nas suas escolhas.
Ainda que precisem se tornar uma nova pessoa, desaparecendo, enquanto renascem de cada experiência… Momento duro de incorporar, mas necessário para escrever uma nova história, começando pela sua própria…
(*IBERNISE, credenciada poeta brasileira, companheira do site Luso-Poemas, tem prodigalizado alguns poemas aí publicados, com comentários que são verdadeiras análises literárias, caso singular de atitude pedagógica e de amizade, que por raro e notável, não gostaria de deixar sem um registo aqui, no Seda das Palavras, com um profundo gesto de agradecimento e de carinho. arlindo pato mota
À medida que o tempo humedecia,
crescia entre a areia do pecado,
cálida na substância e na idade.
Fez-se mulher: sumo de romã
em taça fria.
2.
Sacudiu graciosamente os ombros,
abotoou, lasciva, o último botão,
pegou na sacola, cingiu o corpete,
e partiu naquele dia, como nos demais,
mas jamais apareceria,
Sofia.
Foto e poema: arlindo pato mota

COMENTÁRIO DE IBERNISE*
Poema cadenciado num ritmo sugerido pelas rimas internas, produzindo um efeito sonoro especial, durante a declamação. Uma construção que envolve o simples numa complexidade que se expande exponencialmente.
São várias as vertentes para serem exploradas num poema riquíssimo como este, mas vou avaliar a questão da dádiva…
Sofia parece ser muito dadivosa… Mesmo se considerarmos as questões filosóficas.
Faço este destaque considerando que este excerto é cerne, que promove o entendimento das atitudes de Sofia, intencionais e manifestas:
'… cálida na substância e na idade.
Fez-se mulher: sumo de romã
em taça fria.'
A beleza lasciva chamando atenção ao último botão é de uma singeleza sem par. Uma imagem que fica… Uma mulher a abotoar o ultimo botão… Tem muito de tudo e de nada.
No entanto aqui realçando apenas a dádiva…
Os botões lembram um final, podendo lembrar uma desistência em pleno interlúdio amoroso.
O que se dá a alguém que muito quer mas às vezes não sabe receber. E assim, a graça da dádiva se torna a mácula da entrega… Mas isto n-ao nos deve impedir de sermos generosos… Como saber antes de entregar algo, se alguém vai ou não saber receber?
Sofia desaparece… Um desaparecimento que pode não ser… Sugere que poderia ser uma mudança de atitude, e como tal, crescimento implica num renascer onde o antigo ser 'deixa de ser'… Para aparecer renascido em novas atitudes, é …
Mesmo entendendo que mais vale acreditar na riqueza da dádiva do que se recusar a acreditar no amor de quem irá recebe-la… E isso todas as sofias, em algum momento da vida, precisam avaliar, nas suas escolhas.
Ainda que precisem se tornar uma nova pessoa, desaparecendo, enquanto renascem de cada experiência… Momento duro de incorporar, mas necessário para escrever uma nova história, começando pela sua própria…
(*IBERNISE, credenciada poeta brasileira, companheira do site Luso-Poemas, tem prodigalizado alguns poemas aí publicados, com comentários que são verdadeiras análises literárias, caso singular de atitude pedagógica e de amizade, que por raro e notável, não gostaria de deixar sem um registo aqui, no Seda das Palavras, com um profundo gesto de agradecimento e de carinho. arlindo pato mota
FOTOPOEMA: SONHADO LUGAR DE EXÍLIO
sexta-feira, 19 de março de 2010
JÚLIO SARAIVA: BALADA DA TERRA
"Mas nunca provei dos frutos das minhas mãos..."
De uma canção de Luís Gonzaga Jr. ou Gonzaguinha
"Malditas sejam
todas as cercas!
Malditas todas as
propriedades privadas
que nos privam
de viver e amar!"
Do poema Terra Nossa, Liberdade,
de Dom Pedro Casaldáliga,
bispo emérito de são félix do araguaia,
que trocou o palácio episcopal por uma choupana.
catalão, veio ao brasil, como missionário claretiano e foi sagrado bispo contra a sua vontade. enviou para a mãe o anel episcopal e o substituiu por uma aliança de casca de coco - símbolo da opção preferencial pelos pobres. foi várias vezes advertido pela santa sé, por seus escritos e posição política. foi várias vezes também ameaçado de expulsão do brasil na época da ditadura. vive entre posseiros e índios até hoje, numa região de conflitos.

a terra irmão
pertence aos que nela trabalham
de sol a sol semeando o pão
que na mesa lhes falta muitas vezes
e é atirado ao lixo pelos burgueses
porco e gordo o burguês canalha
sempre dono e senhor de tudo
a terra por justiça deveria ser
de joão e de maria
de josé e de rosário
e de dolores
(tantas dores)
e dos filhos que fizeram
que andam descalços pelos campos sem escola
sem futuro sem nada
a terra não deveria ser
do mocinho bonito filho do senhor
o mocinho bonito que usa e abusa
da triste mocinha do campo
e depois a põe fora
como se fosse o final de um cigarro
a terra pertence ao lavrador
mas a ele só lhe vão dar os sete palmos medidos
como escreveu joão cabral
como escreveu dom pedro casaldáliga
como escreveu miguel torga
como escreveram outros tantos
mas nunca lhes deram ouvidos
senão a prisão
e o rótulo de agitadores
e subversivos
a terra é muita
e pertence ao povo que a fecunda
que faz crescer a semente
em troca de dinheiros minguados
a terra é de quem pega na enxada
e vive em habitações precárias
mas não é bem assim como deveria de ser
: a terra pertence ao coronel miserável
que se vale do dinheiro e do poder
enfim camarada
que somos nós senão nada?
nada nos vale escrever
a terra só enterra o pobre
ao pobre só resta morrer
e morrer...e morrer...
_____________
júlio, 15-03-10
Este poema foi-me dedicado pelo ilustre poeta brasileiro Júlio Saraiva, que facilmente percebeu que a Seda das Palavras também comporta a dimensão social de profunda solidariedade para com os mais desfavorecidos. O meu maior agradecimento e amizade.
Foto: de uma pintura elaborada por alunos que concorreram ao projecto internacional "Kids Guernica", organizado pela AMRS.
De uma canção de Luís Gonzaga Jr. ou Gonzaguinha
"Malditas sejam
todas as cercas!
Malditas todas as
propriedades privadas
que nos privam
de viver e amar!"
Do poema Terra Nossa, Liberdade,
de Dom Pedro Casaldáliga,
bispo emérito de são félix do araguaia,
que trocou o palácio episcopal por uma choupana.
catalão, veio ao brasil, como missionário claretiano e foi sagrado bispo contra a sua vontade. enviou para a mãe o anel episcopal e o substituiu por uma aliança de casca de coco - símbolo da opção preferencial pelos pobres. foi várias vezes advertido pela santa sé, por seus escritos e posição política. foi várias vezes também ameaçado de expulsão do brasil na época da ditadura. vive entre posseiros e índios até hoje, numa região de conflitos.

a terra irmão
pertence aos que nela trabalham
de sol a sol semeando o pão
que na mesa lhes falta muitas vezes
e é atirado ao lixo pelos burgueses
porco e gordo o burguês canalha
sempre dono e senhor de tudo
a terra por justiça deveria ser
de joão e de maria
de josé e de rosário
e de dolores
(tantas dores)
e dos filhos que fizeram
que andam descalços pelos campos sem escola
sem futuro sem nada
a terra não deveria ser
do mocinho bonito filho do senhor
o mocinho bonito que usa e abusa
da triste mocinha do campo
e depois a põe fora
como se fosse o final de um cigarro
a terra pertence ao lavrador
mas a ele só lhe vão dar os sete palmos medidos
como escreveu joão cabral
como escreveu dom pedro casaldáliga
como escreveu miguel torga
como escreveram outros tantos
mas nunca lhes deram ouvidos
senão a prisão
e o rótulo de agitadores
e subversivos
a terra é muita
e pertence ao povo que a fecunda
que faz crescer a semente
em troca de dinheiros minguados
a terra é de quem pega na enxada
e vive em habitações precárias
mas não é bem assim como deveria de ser
: a terra pertence ao coronel miserável
que se vale do dinheiro e do poder
enfim camarada
que somos nós senão nada?
nada nos vale escrever
a terra só enterra o pobre
ao pobre só resta morrer
e morrer...e morrer...
_____________
júlio, 15-03-10
Este poema foi-me dedicado pelo ilustre poeta brasileiro Júlio Saraiva, que facilmente percebeu que a Seda das Palavras também comporta a dimensão social de profunda solidariedade para com os mais desfavorecidos. O meu maior agradecimento e amizade.
Foto: de uma pintura elaborada por alunos que concorreram ao projecto internacional "Kids Guernica", organizado pela AMRS.
quarta-feira, 17 de março de 2010
RUPESTRE...

Não vês, que já pouco é
aquilo em que me detenho?
Pouco lume, pouca lenha,
para atear os sentidos
debotados, deprimidos?
Por enquanto, apenas feridas,
Pelas silvas, na apanha…
arlindo pato mota
Foto: Pedro Soares do monumento "Mil Olhos", do escultor José Aurélio, que evoca o centenário do nascimento do poeta Pablo Neruda
BILHETE POSTAL: MOINHO DE MARÉ DAS MOURISCAS
domingo, 14 de março de 2010
ANA COELHO: SIMPLESMENTE PALAVRAS
Presença sublime arte de saber com os
verdes anos em olhar filosófico revestidos de
convivência.
Metamorfose de natural simplicidade de ver e
ajudar a engrandecer, com danças de cores no céu pintado de aromas
e graça para além das palavras em ramos de estrelas douradas.
Nesse lugar que teço todos os sentidos que são o
albergue dos olhares que se tocam e cruzam nas marés agitadas
num pontão de quietude
que as domina.
Memórias sitiadas na morada de um inverno na busca
das fragrâncias de primavera que o coração confina.
Renascer de novo, a busca incontida no hexagonal
destino que nos abraça e dá a mão na solidão que voa no longínquo universo.
As pétalas da vida são os dedos do homem que as
acaricia e nos delícia na forma e conteúdo de toda a sua filosofia.
Oferto estas singelas palavras num dialogo de pai e
filho/a a reflectir no respeito e admiração que teço por si.
Quando eu me for embora por certo guardarei todas
as palavras que sempre por si senti.
Para o poeta Arlindo Mota as suas próprias palavras num singelo acto de carinho.
verdes anos em olhar filosófico revestidos de
convivência.
Metamorfose de natural simplicidade de ver e
ajudar a engrandecer, com danças de cores no céu pintado de aromas
e graça para além das palavras em ramos de estrelas douradas.
Nesse lugar que teço todos os sentidos que são o
albergue dos olhares que se tocam e cruzam nas marés agitadas
num pontão de quietude
que as domina.
Memórias sitiadas na morada de um inverno na busca
das fragrâncias de primavera que o coração confina.
Renascer de novo, a busca incontida no hexagonal
destino que nos abraça e dá a mão na solidão que voa no longínquo universo.
As pétalas da vida são os dedos do homem que as
acaricia e nos delícia na forma e conteúdo de toda a sua filosofia.
Oferto estas singelas palavras num dialogo de pai e
filho/a a reflectir no respeito e admiração que teço por si.
Quando eu me for embora por certo guardarei todas
as palavras que sempre por si senti.
Para o poeta Arlindo Mota as suas próprias palavras num singelo acto de carinho.
FIXAVA OS OLHOS NUM SÓ PONTO
Fixava os olhos num só ponto,
E esse ponto quase não se via,
Como que coberto por um manto
De espesso nevoeiro ou fantasia.
Nem a rudeza do vento,
Ou o saber da razão,
Lhe suspende o pensamento.
Pelo menos, por enquanto.
Arindo Pato Mota
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