quarta-feira, 21 de julho de 2010

POETA DO MÊS: AL BERTO

foto: apm
ANTES QUE O RIO ESQUEÇA...


«Olhar atentamente a civilização que nos deixaram.
Dantes podíamos virar costas à terra com a certeza de que as eiras estavam cheias de grão. Hoje apenas podemos sonhar com as eiras que não veremos nunca.
Mas as máquinas vieram para talhar a cidade que vem e o falso ouro contaminou a terra.

Tentaremos esquecer a morte que se insinua em permanência e que de tão presente já não sentimos o cheiro. Refina a morte das aves, esquece-se a vida dos peixes, morrem as árvores, degrada-se a vida dos homens.

Na memória doem os sinais dos bosques ceifados, as dunas arrasadas e algumas casas abandonadas. A memória é hoje uma ferida que lateja ao fundo da insónia.

Escavemos o chão, procuraremos essas raízes em pedra cinzelada, objectos da vida simples de outros povos. Preciosas navegações, procuraremos a velha dança à roda do mastro. Olhamos as nossas minúsculas embarcações, semelhantes a beijos que nos percorrem de felicidade.

Olhamos o mar, o espaço desses navios negros que nos escondem a linha do horizonte. No coração nada secou, nem possuímos o desastre dentro dos sonhos. A vida preciosa de vivíssimas memórias.

Com este corpo frágil e magoado, procuramos preservar a nossa memória colectiva da voragem do tempo e do abandono dos homens.»





Prosa poética de um dos grandes poetas portugueses,Alberto Pidwel (Al Berto) para um video sobre Arqueologia Naval da Margem Sul, escrito em 1985, transcrito e sob responsabilidade de arlindo pato mota, companheiro e admirador do poeta.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NEGRO EM CONTRASTE AO AZUL AVERMELHADO


entrou como uma nuvem,

pássaro negro,

fazia contraste no azul avermelhado do céu,

o cheiro de campo inundou o dia,

vinha na frente, como se fosse um suspiro do céu.

sua alegria entrou pela cozinha,

trouxe apenas o próprio ar

e o som do mundo começando...

numa caligrafia refinada,

o pensamento liberta-se da mente

e faz o papel implorar...

por maior que fosse a distância

entre o desejo e a alma,

vem suave e desce na cabeça,

faz contraste na mente branca.

...até agora a pouco não tinha nem luar.

volta num vôo,

apaga as luzes do mundo

e onde não havia nada

crescem estrelas no solo da noite...


Vania Lopez

(ainda um poema sobre "pássaros" de uma inspirada poetisa brasileira que já tem colaboração neste sítio)

foto: apm

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Devo confessar que sou o contrário, meus passos seguem em contrário.
Sou uma pessoa inquieta, vou onde meu vento me leva. Artista Plástica e escritora, as vezes sem saber se pintoraqueescreve ou escritoraquepinta...

terça-feira, 6 de julho de 2010

POEMA AVE




Vens querida ave mapear o céu!

Com a brisa estonteia teu canto

Em brancas nuvens deposita o encanto

E vive assim pelo mundo ao léu!...


No solstício abraças a bela madrugada

Ave poema que no sonho já pousa

E no alvo ventre no céu repousa

Sentindo-se por todos tão amada!


E quando sente a fome de amar

Voa altiva pelas ondas do mar

Buscando o cinza dos olhos sinceros


Avezinha que a todos acalma

Tens nas penas o manto da alma

Como um poema ave, tens da poesia o eterno!


LEDALGE

"Com inspiração no ... poema "Teu Corpo Ave Cinzenta" de Arlindo Mota (Ledalge)"

foto: arlindo pato mota

Sou uma mulher que respira poesia; que a mantém viva dentro de si dia após dia. Sou uma sonhadora, que busca nas vielas do sonho, os contornos da vida. Essa sou eu: NÚRIA CARLA, A LEDALGE.