quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CANTO VIAJEIRO

I

Foi no tojo das palavras,

no rigor da intenção,

que rebentei as amarras,

penetrando no que são.


Cortei as asas do tempo,

perfumei o meu olhar,

e adormeci ao relento,

sem ter pressa de acordar.



II

Como um vulgar marinheiro,

inventei-me num porão,

percorrendo o mundo inteiro.


Os portos foram surgindo,

mas nem por isso mais perto

me encontrei do destino,

como se fosse sumindo.



III

Percorri tudo, se é tudo

o que posso imaginar,

descobri novas paragens,

por cada nesga do mar,

viajei por latitudes,

ainda por localizar.



IV

Dobrei o cabo da esperança,

fundei o meu universo,

temi o vento e a bonança.


Não fui quixote, nem pança,

para tal, faltou-me o jeito.



V

Por fim, sentei-me num canto

- entre rio e outro rio,

entre mar e outro mar -

cansado de correr tanto,

indeciso no lugar,

aí fiquei até hoje.




Foto e poema: apm

7 comentários:

sofia b. disse...

Lindooo... Quase fez esquecer a Cibele, que espero que volte ao nosso convívio. É um belo momento de poesia!

Sofia

Joana disse...

Estive ausente "em parte incerta"... Achei uma ideia interessante a antologia e a selecção até agora magnífica. Mas este poema é também de antologia. Parabéns e que a inspiração não lhe falte.

Até breve (Já agora, para quando próximo livro?)
Joana

Madalena S. disse...

Caro Arlindo,
antes de mais uma primeira nota para lhe dizer que gostei deste Canto Viajeiro mas o toque de ouro, para mim e até agora,foi mesmo o anterior: Desejo.
É curioso mas, talvez porque o sei ligado ao distrito de Setúbal, acontece-me muita vez, quando leio as suas palavras,"viajar" para lugares mágicos desta península extraordinária. Aconteceu-me com Pescadores e agora com este Desejo cuja leitura me leva rapidamente para os cumes da Arrábida. Talvez por causa dos 2 últimos versos...
Enfim, interpretações à parte, é um belissímo "pequeno" poema.
A segunda nota para lhe agradecer ter feito de mensageiro junto da Ivone Ralha que já me deixou uma mensagem no meu blog. Se voltar a ter oportunidade, diga-lhe por favor que já lhe deixei lá a forma de me contactar.
E muito obrigada, mais uma vez.
Um abraço.

mariam disse...

Arlindo,

tenho por aqui andado a "passear", desde o "musgo", neste jardim-mar de palavras ... estou encantada! e, Poeta, é grande!nunca será um vulgar marinheiro!

boa semana
um sorriso :)
mariam

Elma Carneiro disse...

Olá poeta
Já fui entrando e me encantando:
amor à primeira vista.
Amo poesias, mas o que posso é só ler e sentir.
"Como um vulgar marinheiro,
inventei-me num porão,
percorrendo o mundo inteiro.
"
Grata pela presença em meu espaço.
Sempre estou aberta a diálogos com muito prazer dentro
de meus limites é claro, mas posso me ajeitar para estar a sua altura.
Volte mais vezes.
Beijos

arlindo mota disse...

Quem escreve expõe-se sempre, quem escreve poesia expõe-se mais ainda.A travessia é mais simples em companhia, parca que seja.Troca de opiniões, de olhares,que circunscrevem a partilha. A vossa visita traz sempre um pouco mais de luz.

Um abraço amigo,
arlindo mota

Mariz disse...

Este último comentário é para todas...ou só para a última, ou...penúltima...ou 1ª?

Venho aqui dizer coisas serias mas a brincatambém...gosto da criança que salta na seda das palavras..ou no linho - acho que gosto mais de linho.

em dia de chuva...até...
Cuidado com as cheias! Não vá o barco sofrer algum dano...

Sempre...
Mariz