domingo, 25 de janeiro de 2009

1. ÁLVARO FEIJÓ

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE

1

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro.




como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem

fecha-me os olhos com um beijo.




Eu , Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.


2

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a algúem que se espera a cada instante.




Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.




E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.




Álvaro Feijó (1917-1941) publicou um único livro de poesia "Corsário", mas a sua voz apesar da sua curta vida deixou uma marca na poesia portuguesa.

2 comentários:

mariam disse...

Arlindo,

não conhecia este autor. gostei muito! obrigada p'la partilha.

boa semana
um sorriso :)
mariam

arlindo mota disse...

mariam,

morreu com 24 anos, escreveu no contexto do neorealismo, mas denota uma sensibilidade e um intimismo tão raros (a par de outros de clara matriz neorealista e bons...) que me apeteceu partilhá-lo, nesta breve antologia que gota a gota(pos a pubicando post) e intermitentemente, irei
publicando.
Tudo de bom no degelo...
arlindo