1.
À medida que o tempo humedecia,
crescia entre a areia do pecado,
cálida na substância e na idade.
Fez-se mulher: sumo de romã
em taça fria.
2.
Sacudiu graciosamente os ombros,
abotuou, lasciva, o último botão,
pegou na sacola, cingiu o corpete,
e partiu naquele dia, como nos demais,
mas jamais apareceria,
Sofia.
Poema: apm
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
MARIA BETHÂNIA EM LISBOA
Uma vez de quando em quando Maria Bethânia, dádiva de Yemanjá, derrama na sua voz aveludada e única, ao vivo, a seda das palavras dos poetas da língua portuguesa. Com inteligência faz, com os compositores e músicos que a acompanham, momentos únicos, inesquecíveis, como estou certo que uma vez mais vai acontecer nos próximos dias 27 e 28 no Coliseu de Recreios.(Recordo a extraordinária homenagem a Fernando Pessoa no seu disco e concerto IMITAÇÃO DA VIDA trancrevendo o poema "Aniversário" de Álvaro de Campos, que diz de forma sublime.)
ANIVERSÁRIO
"No dia em que festejavam o dia dos meus anos.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos.
E a alegria de todos, e a minha,
estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma.
De ser inteligente para entre a família.
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. "
ANIVERSÁRIO
"No dia em que festejavam o dia dos meus anos.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos.
E a alegria de todos, e a minha,
estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma.
De ser inteligente para entre a família.
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. "
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
AS OSTRAS LIMITARAM-SE A PARTIR
(Ciclo medido, desnudado,
Como as águas de um rio
Desovado)
Cravadas nas margens circulam
palavras de ordem. De resto
foi assim que tudo começou:
As ostras limitaram-se a partir;
As carreiras fluviais intensificaram-se.
Quando a minha filha nasceu,
os golfinhos secundaram o baptismo.
Entretanto, os petroleiros acostaram;
a rosa albardeira empalideceu
um pouco. O ritmo das marés
não parecia alterado.
Na outra margem, dunas de cimento
invadiram as cetárias.
Hoje – diz-se - nas águas sobreaquecidas
do rio, reapareceram sereias.
Foto e poema: apm
Como as águas de um rio
Desovado)
Cravadas nas margens circulam
palavras de ordem. De resto
foi assim que tudo começou:
As ostras limitaram-se a partir;
As carreiras fluviais intensificaram-se.
Quando a minha filha nasceu,
os golfinhos secundaram o baptismo.
Entretanto, os petroleiros acostaram;
a rosa albardeira empalideceu
um pouco. O ritmo das marés
não parecia alterado.
Na outra margem, dunas de cimento
invadiram as cetárias.
Hoje – diz-se - nas águas sobreaquecidas
do rio, reapareceram sereias.
Foto e poema: apm
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
SABEDORIA
Então, graciosamente, Cibele trouxe-lhe um pouco de água cristalina no regaço,
jovem e esbelto, ao que o velho sábio retorquiu, na sua voz débil, porém
firme: "Ainda é tempo de colheita?"
Poema: apm
jovem e esbelto, ao que o velho sábio retorquiu, na sua voz débil, porém
firme: "Ainda é tempo de colheita?"
Poema: apm
A SEDA DA SOLIDARIEDADE E DO TALENTO
em trânsito por Setúbal conheci-te ao vivo, simples na tua imensa complexidade,
calcorreámos os caminhos solidários do café central, do círculo cultural, das
colectividades, franqueaste-me a casa, partilhaste os amigos, apoiaste as pequenas
lutas daqueles dias cinzentos, com a tua música e presença...por isso fiquei. tu
partiste antes do tempo...mas ficaste para sempre como um símbolo de generosidade e
talento que agregava, que continua a agregar velhas,novas e contínuas gerações. a
morte saiu à rua num dia cinzento de fevereiro, do velhinho ginásio da escola
comercial...
calcorreámos os caminhos solidários do café central, do círculo cultural, das
colectividades, franqueaste-me a casa, partilhaste os amigos, apoiaste as pequenas
lutas daqueles dias cinzentos, com a tua música e presença...por isso fiquei. tu
partiste antes do tempo...mas ficaste para sempre como um símbolo de generosidade e
talento que agregava, que continua a agregar velhas,novas e contínuas gerações. a
morte saiu à rua num dia cinzento de fevereiro, do velhinho ginásio da escola
comercial...
sábado, 14 de fevereiro de 2009
PRESENÇA
Escalámos obscuros portos,
Assinaladas rotas, pesqueiros revisitados
Nas noites de viagens interditas.
No começo foi assim. Com o tempo
retomamos circunspectos a tonalidade.
O arco-íris - dirás? Ainda não.
Serpenteamos desejos, reconhecemos
amantes,
- e tu, em todo o caso, lá estarás -
Por antecipação.
Poema: apm
Assinaladas rotas, pesqueiros revisitados
Nas noites de viagens interditas.
No começo foi assim. Com o tempo
retomamos circunspectos a tonalidade.
O arco-íris - dirás? Ainda não.
Serpenteamos desejos, reconhecemos
amantes,
- e tu, em todo o caso, lá estarás -
Por antecipação.
Poema: apm
CIDADELA
O tempo era a monótona cidadela
de um Outono. Lentamente, as
asas emudeceram e se colaram,
secamente, uma a uma.
Poema: apm
de um Outono. Lentamente, as
asas emudeceram e se colaram,
secamente, uma a uma.
Poema: apm
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
POEMA DO HOMEM SÓ
Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
arrefecem.
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços,
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos,
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém.
António Gedeão
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
arrefecem.
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços,
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos,
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém.
António Gedeão
domingo, 8 de fevereiro de 2009
UMA QUALQUER PESSOA
Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pesoa, como um luar, nascesse,
e, sem sorrir, sorrisse,
e, sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
(...)
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pesoa, como um luar, nascesse,
e, sem sorrir, sorrisse,
e, sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
(...)
ANTOLOGIA POÉTICA VERDES ANOS(II)

ANTÓNIO GEDEÃO
O pedagogo excepcional, o poeta da musicalidade e do rigor, o homem austero e generoso que "doou" a sua primeira grande entrevista ao Jornal de Letras e Artes a um miúdo, ex-aluno, cuja poesia os cantores não tardaram a descobrir imortalizando-o, e dando-o a conhecer, em vida, a uma grande fatia do povo português. Dele seleccionei um poema, de que publico um excerto da mais pura seda das palavras.
CABO DA ESPERANÇA
Quanto custou dobrar o Cabo,
Assegurar os mantimentos
E o ânimo dos Homens?
País de marinheiros, de aventuras,
Ninguém pergunta quanto custa
Dobrar o cabo da ternura.
Dobrar o Cabo, sem perder a esperança,
E ao sabor do vento navegar,
Indiferente à tempestade ou à bonança,
Ser uma ilha entre o azul e o mar.
Foto e poema: apm
Assegurar os mantimentos
E o ânimo dos Homens?
País de marinheiros, de aventuras,
Ninguém pergunta quanto custa
Dobrar o cabo da ternura.
Dobrar o Cabo, sem perder a esperança,
E ao sabor do vento navegar,
Indiferente à tempestade ou à bonança,
Ser uma ilha entre o azul e o mar.
Foto e poema: apm
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
DIA DE ANIVERSÁRIO
Um dia de aniversário
Não surge assim de repente.
Teorema ou corolário?
Substância ou acidente?
Nem uma coisa, nem outra,
Apenas fruto do tempo,
Das folhas do calendário.
Poema: apm
Não surge assim de repente.
Teorema ou corolário?
Substância ou acidente?
Nem uma coisa, nem outra,
Apenas fruto do tempo,
Das folhas do calendário.
Poema: apm
ADIVINHA
Se os anos são primaveras
Em início de estação,
Adivinha em forma ave:
Ainda faz ninho o Verão?
Pelos dias, pelas noites
Em que a razão se desfia,
Se transforma, se recria:
Ternura, coita de amor?
Ou apenas mais um dia?
Solução: Inverta a cronologia.
Em início de estação,
Adivinha em forma ave:
Ainda faz ninho o Verão?
Pelos dias, pelas noites
Em que a razão se desfia,
Se transforma, se recria:
Ternura, coita de amor?
Ou apenas mais um dia?
Solução: Inverta a cronologia.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
JOÃO VILLARET
João Villaret deixou-nos, subitamente,num mês de Janeiro ainda eu não era gente. Recordo-me do meu avô falar-me com entusiasmo do público que enchia os teatros para ouvir aquele homem grande, grande, cuja voz ecoava, ora declamando, ora sussurrando poemas de grandes autores, pois que fora dotado de uma voz e um talento que captava multidões.
Recordo também das sessões que, anos mais tarde,se realizaram no cinema São Jorge, à hora do almoço(custavam vinte e cinco tostões, se não me falha a memória)de evocação de João Villaret, impensáveis nestes tempos de hoje: um palco enorme, uma cadeira vazia, um holofote sobre essa mesma cadeira e um magnífico, para a época, som, gentilmente cedido pela Philips. Só...e a sua voz gravada em vinil, na maior parte dos seus espectáculos no São Luiz. Quarenta minutos mágicos, fruidos em profundo silêncio naquela plateia imensa do São Jorge. "Menino e moço" aprendi a amar a poesia. Sempre, para sempre...
Recordo também das sessões que, anos mais tarde,se realizaram no cinema São Jorge, à hora do almoço(custavam vinte e cinco tostões, se não me falha a memória)de evocação de João Villaret, impensáveis nestes tempos de hoje: um palco enorme, uma cadeira vazia, um holofote sobre essa mesma cadeira e um magnífico, para a época, som, gentilmente cedido pela Philips. Só...e a sua voz gravada em vinil, na maior parte dos seus espectáculos no São Luiz. Quarenta minutos mágicos, fruidos em profundo silêncio naquela plateia imensa do São Jorge. "Menino e moço" aprendi a amar a poesia. Sempre, para sempre...
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
MEDITAÇÕES I
Desenhei um polígono, rigorosamente
geométrico.
Depois, serenamente, intentei descrevê-lo
por palavras.
Em vão. Quantas faces, quantos
sonhos, fruto da imaginação?
Poema: apm
geométrico.
Depois, serenamente, intentei descrevê-lo
por palavras.
Em vão. Quantas faces, quantos
sonhos, fruto da imaginação?
Poema: apm
PAÍS DE DESCOBERTAS
Sorvemos da raíz o paladar,
Dispensámos o sal e a pimenta,
Descobrimos a terra à beira-mar,
Nascemos num país de descobertas.
Poema: apm
Dispensámos o sal e a pimenta,
Descobrimos a terra à beira-mar,
Nascemos num país de descobertas.
Poema: apm
TEMPO DE PARTIDA
A terra é fresca, entumecida,
O fruto escasseia ou está ausente,
Aproxima-se o tempo de partida.
Foto e poema: apm
O fruto escasseia ou está ausente,
Aproxima-se o tempo de partida.
Foto e poema: apm
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