segunda-feira, 20 de abril de 2009

ROMANCE

Não era noite nem dia

Não era noite nem dia.

Eram campos campos campos

abertos num sonho quieto.

Eram cabeços redondos

de estevas adormecidas.

E barrancos entre encostas

cheias de azul e silêncio.

Silêncio que se derrama

pela terra escalavrada

e chega no horizonte

suando nuvens de sangue.

Era hora do poente.

Quase noite e quase dia.


E nos campos campos campos

abertos num sonho quieto

sequer os passos de Nena

na branca estrada se ouviam.

Passavam árvores serenas,

nem as ramagens mexiam,

e Nena, pra lá do morro,

na curva desaparecia.


Já de noite que avançava

os longes escureciam.

Já estranhos rumores folhas

entre as esteveiras andavam,

quando, saindo um atalho,

Veio

debruçou-se da encosta

com os cabelos caídos!

Não eram ladrão de estradas

Nem caminheiro pedinte,

nem nenhum maltês errante.

Era António Valmorim

que estava na sua frente.

Não era ladrão de estradas,

- Ó nena de Montes Velhos,

se te quisessem matar

quem te haverá de acudir?

Sob este corpo justinho

Uniram-se os seios de Nena.

- Vai-te António Valmorim

Não tenho medo da morte,

Só tenho medo de ti.


Mas já noite fechava

a saída dos caminhos.

Já do corpete bordado

os seios de Nena saíam

- como duas flores abertas

por escuras mãos amparadas!

Ai que perfume se eleva

do campo de rosmaninho!

Ai como a boca de Nena

se entreabre fria fria!

Caiu-lhe da mão o saco

junto ao atalho das silvas

e sobre a a sua cabeça

o céu de estrelas se abriu

Ao longe subiu a lua

Como um sol inda menino

passeando na charneca...

Caminhos iluminados

eram fios correndo cerros.


Era um grito agudo e alto

que uma estrela cintilou.

Eram cabeços redondos

de estevas surpreendidas.

Eram campos campos campos

abertos de espanto e sonho...



MANUEL DA FONSECA

1 comentário:

mariam disse...

Arlindo,

gostei muito da fotos. Tenho estado a ler, as suas palavras (seda) e as excelentes escolhas também. Muito bom!

boa semana
um abraço :)
mariam