domingo, 20 de março de 2011

INVEROSÍMEL, DIRÃO…

















Quase que se esqueceram-se de mim, já estou habituado. Tu foste a notícia e eu sei que não querias. Eles martelaram insistentemente dizendo que morreste só, sem ninguém, vertendo palavras sobre palavras por sobre uma situação que jamais entenderão. Preocuparam-se pela delonga – e chamaram-lhe incúria – por demorarem tanto tempo a encontrar-nos. Bom, verdadeiramente, a encontrar-te, pois a mim quase se não referiram, e sem grande alarido, nem surpresa.

Eles querem lá saber dos anos que vivemos juntos, dos carinhos que trocámos, da atenção que prodigalizávamos constantemente nos mais pequenos gestos. Nunca tive grandes sonhos, nem tu podias tê-los. Tínhamo-nos um ao outro; passeávamos nas ruas naquelas horas em que ainda estavam acordadas. Até ao dia em que com mais vivacidade do que era habitual, me chamaste para o sofá e me afagaste ternamente a cabeça, e perguntaste se me recordava de quando e em que circunstâncias nos havíamos conhecido…e sem me dares ocasião de responder, prosseguiste ininterruptamente, como se quisesses fazer um ajuste de contas contigo própria, mas sempre naquele tom meigo que sempre usavas comigo.

Depois calaste-te, eu pensei que era o cochilar do costume de um corpo fatigado em frente da televisão…afaguei-te à minha maneira, de mansinho, demoradamente. Tu mantinhas-te no teu sono tranquilo. Sim... depois percebi que desta vez era diferente, o teu ronronar diminuíra até cessar, por completo. A quentura do teu corpo já não era a mesma. Eu sabia o que estava a acontecer, nada que não estivéssemos os dois à espera, algum dia haveria de ser. Apesar de saber inevitável, por momentos não soube o que fazer, senão lamber-te quase em desespero, pois, na verdade, nunca estamos inteiramente preparados. Depois, mais calmo, despedi-me com um latido quase inaudível para não perturbar os vizinhos, enrosquei-me bem juntinho a ti, e chamei o sono que veio surpreender-me em pleno devaneio de quando foras buscar-me ao canil municipal livrando-me assim de uma despedida antecipada, injusta, sem ternura…Sim, tu, salvaras-me a vida!

(Assinatura ilegível)

(P.S. esta carta chegou-me recentemente quando os media difundiram à saciedade o achamento de uma velha senhora e do seu cão vários anos depois da seu desfecho, enfatizando a situação da solidão nas sociedades contemporâneas. Não cheguei a apurar se a epístola teria tido algo a ver com este acontecimento…)

@Texto e foto: arlindo mota

8 comentários:

sofia b. disse...

Ode à ternura, sem lamechice, em palavras que respiram partilha. SB

Gisa disse...

Solidão, talvez, mas a cumplicidade entre ambos era capaz de suprir qualquer falta.
Um grande bj querido amigo

Eulalia Goncalves disse...

Que nó no estômago...e as lágrimas a dançar-me nos olhos...
eu também vivo só.Alias , não vivo só. partilho a minha casa com uma amiga de quatro patas.
Um abraço

mariam disse...

Arlindo,

_o tormento da solidão_. Conheci uma querida e amável Senhora, que falava com os armários lá de sua casa, não era louca nem estúpida, era apenas SÓ.

Fechei a caixa de comentários do http://mariasentidos.blogspot.com/(um dia destes reabro), mas continuo a visitar o 'blogobairro' e embora ande parca no comentar, não me esqueci de Si nem dos outros(as)amigos(as).

um abraço e o meu sorriso de sempre :)
mariam

Nina Pilar disse...

Escreves e emocionas, encantas.
gostei
abraços

ps. voltarei

Paulinha Barreto disse...

Que lindo, gostei muito.

Otimo final de semana.
beijos

arlindo mota disse...

...amigos, que fizeram o favor de ler, grato pela vossa atenção e comentários sinceros

(o blogue tem estado suspenso por razões de força maior que em parte persistem. tentarei voltar...)

obrigado a todos!

OutrosEncantos disse...

não há outro amigo que se lhe compare, que melhor nos entenda, nos proteja, nos suprima a solidão. esse não nos abandona nem por nada.
tive um igual.
acredito que se ele soubesse escrever, te-lo-ia feito exactamente assim.
emocionei-me.
abraço.