quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ZECA AFONSO: NUM DIA ASSIM...



Que fazer nos dias de Inverno, cogitava Alice, quando o frio nos tolhe a alma e não se vislumbra sinal de temperança.... A ternura dos quarenta leva-a à música e a música a um amigo do pai que jamais esquece: o Zeca Afonso.

Mas porque se lembrara ela, naquele momento, naquele preciso momento, daquela música, daquele autor, que afinal em pessoa mal conhecera, quando ainda andava de bibe e sacola? Também ela estivera no ginásio cheio, cheio a abarrotar da Escola Técnica (agora Sebastião da Gama) onde o corpo de Zeca Afonso repousava entre amigos que há muito sabiam – como ele sabia – que no dia em que a sua voz não se pudesse fazer ouvir, morreria.

A morte saiu à rua, num dia assim : 23 de Fevereiro de 1987. Afinal havia outras razões, para além da razão, para estar triste. Onde estão agora os bardos – reflecte - que cantem generosamente até que a voz lhes doa, a denúncia de um tempo triste, que o Zeca jamais imaginara que os homens do seu tempo pudessem esconder o sol por não saberem o que fazer com a luz.

Extraído do livro de Arlindo Mota “Alice no País do Faz-de-Conta”

2 comentários:

Eulalia G. disse...

Muito bom. adorei.

arlindo mota disse...

Do Zeca evoco o aparente paradoxo: cantor militante, músico e poeta, foi a Camões escolher um poema tão singelo quanto este: "Verdes são os campos/da cor do limão/Assim são os olhos/ do meu coração". Ele era assim, muitos não o perceberão jamais...Grato pela companhia