segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PARÁBOLA



Angustiado e humilde, procurou um proclamado sábio cuja fama irradiava por todas as terras e lugares.

Ao chegar junto dele indagou sobre o que lhe poderia ensinar sobre a vida. “Nada” respondeu o sábio”. Nada? “Nada, meu amigo” enquanto esboçava um sorriso inequivocamente bondoso.

O peregrino não satisfeito com a resposta voltou à carga: “Mas tens fama de ajudar os que te procuram e de sempre lhe valeres”.

“Não fui eu que a criei”, ripostou. “Mas diz-me: verdadeiramente ao que vens?”

“Busco encontrar um sentido para a minha vida, e não vislumbro, e mais de meia vida é já tornada”

“Se procuras tão persistentemente algo de tão raro e difícil então não precisas decididamente de conselhos. Apenas tens de seguir o teu caminho, que já o encontraste”.


arlindo mota

foto: apm

sábado, 27 de agosto de 2011

ROSTO















ROSTO


Provei em mim o vinho e o mosto

Das épocas festivas que passei

E o travo leve, exíguo, que senti

Era o desenho nítido de um rosto



arlindo mota



Foto: apm(De uma pintura do hall da loja HM em Madrid - antiga sala de espectáculos)

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS



CASTELO DE VIDE

Foto: apm

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

POETA DO MÊS: JOSÉ GOMES FERREIRA


VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

Poema escolhido para ser dito pelo Grupo Cultural com base na Pró-Asociação dos Liceus dos anos 60 (Teresa Taborda, José Vasconcelos; Vitor Oliveira Jorge; Tito Cardoso e Cunha; José Arnaud; Teresa Bento; Arlindo Pato; Teresa Oliveira, entre outros) e que Eugénio de Andrade na sua Antologia considerou um dos mais belos poemas do século XX. Nascido em 1900, morreu em 1985 em Lisboa. O seu espólio encontra-se na Biblioteca Nacional.

Foto: Arquivo do Diário de Noticias

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

OBRA DIVINA































Miguel Ângelo, arqueado,

desenhava a obra divina

por suas mãos escorriam

saibro e mel

como se fosse um favo

ou liquido caminho

ali permaneceu longo tempo

para eterna glória do homem

sua criação.



arlindo mota


imagem: da internet

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O SEGREDO DAS PALAVRAS
































O sonho, Cibele, é uma taça, uma flor ignota, um desejo imenso que persiste,

mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore. Cativo, neste lugar, perco a exacta noção do ser e do não ser,

do tudo ou do nada,

(se é que o todo pode estar circunscrito à palavra…)

Procurarás as estrelas, que iluminarão o caminho. Se solitário, a luz é mais intensa.

Despojada de tudo, encontrarás o segredo das palavras: ternura, amor, ou apenas sede

e um sereno gesto a partilhar

na colheita de uma rosa brava.


Arlindo Mota Foto: apm

BILHETE POSTAL: SIENA (ITÁLIA)




Foto: apm

quinta-feira, 14 de julho de 2011

DAQUELE PRIMEIRO DIA…























Disseste que os teus olhos já não conseguiam debruar a luz como faziam antigamente; que agora tacteiam a memória e as mãos ainda não perderam o seu sentido táctil, mas enganam-se frequentemente na paisagem.

Não esqueceste a volúpia, a fragrância do desejo, entre fráguas e a verdura das encostas, por entre a limpidez do murmúrio das águas. Por isso manténs as portas entreabertas e subsiste no teu colo uma infância por crescer. Abrigar-me-ás decerto em noites de lua cheia. Habituado ao ritmo dos sapais esperarei a próxima maré para te acolher, tufos de verde acariciarão os teus cabelos em reflexos desfocados pelo movimento lânguido das águas do estuário.

Noutro tempo, a tua voz tinha sempre um timbre inconfundível, prenhe de iodo e limos. Eu aguardava apenas a ténue luz dos vaga-lumes para assistir ansioso à tua chegada, roupas coladas ao corpo naquele teu jeito insinuante de faz-de-conta. Fora, assim, a nossa iniciação…ainda hoje, sinto o movimento das tranças presas no exacto momento em que um inesperado eclipse do luar deixara a tua pele, deliciosamente branca, nas minhas mãos acabadas de acordar. Surripiei-te então, Cibele, tudo o que tinhas e comigo guardei – precioso bem! – uma vermelha flor liquefeita daquele primeiro dia em que fiz amor contigo…


Arlindo Mota

Foto: apm

quarta-feira, 13 de julho de 2011

POETA DO MÊS: ANTÓNIO OSÓRIO



Retrato do Autor
Aguarela de Mário Botas
26/12/1982
























Quando sinto de noite

o teu calor dormente

e devagar

para que não despertes

digo: cedro azul,

terra vegetal,

ou só

amor, amor;

quando te acaricio

e devagar

para que não despertes

tomo na mão direita

as duas fontes, iguais, da vida,

procuro a nescente

e adormeço

nela essa mão depositando.


António Osório


(Nascido em Setúbal em 1933, António Osório é um dos mais notáveis poetas portugueses vivos. Advogado foi um prestigiado bastonário. Poeta tem uma obra cada vez mais reconhecida pela crítica, apesar do perfil discreto de que faz gala. Com a devida vénia seleccionámos um poema que aqui reproduzimos do seu livro O LUGAR DO AMOR, editado pelo Círculo de Poesia, da Moraes Editores, em 1985.)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

FUGAZ
























FUGAZ


Exíguo, lhe disse alguém, reflectindo sobre o tempo

e algum desdém…

Mas lá foi crescendo, crescendo, consoante a terra, o húmus e as circunstâncias,

aquele tronco, agora forte, robusto como a mãe…

“Sou como o espaço, o horizonte, o mundo…” rejubilou.

E foi rodando, rodando, rodando sempre, na esperança que antevia, até que,

subitamente, se deteve junto a um amontoado de ramos frágeis, inertes, prostrados.

Aí, caindo de vez em si, decepcionado, humildemente balbuciou:

“Afinal...não passo de um segundo”




arlindo mota

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LUZ QUE ALUMIA























um silêncio sedoso mergulhara na noite

eterno compasso que prenuncia

delicado origami de cores cintilantes

e o novo dia


nada podia impedi-lo

levitando sobranceiro quando raiava

fenecendo docemente

nos teus braços

(luz que alumia)



arlindo mota

foto: mariam

sábado, 2 de julho de 2011

PAULO ASSIM: Retrato a Sépia



















O meu avô tinha a tez dos mouros e o ar sereno
de quem descasca laranjas pela madrugada.
Falava-me do mar como quem olha
para os sulcos sibilinos das mãos.

Os peixes bebem toda a água do mar e não sabem.
Se soubessem, dizia o meu avô, quereriam ser homens.
Mas os homens têm já todo o mar nos olhos, sobretudo quando choram,
e se os peixes soubessem disso talvez preferissem ser pássaros,
que é o que os homens desejam ser quando desafiam o mar.
(...)

Na sala do meu avô havia um búzio
que me cabia na concha das duas mãos.
Se o aproximasse do ouvido,
aproximava o mar inteiro.

Paulo Assim

(in Retrato a Sépia, livro do autor recentemente distiguido com o prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, de cujo júri fiz parte, com João Reis Ribeiro e José António Chocolate Contradanças. Poesia enxuta e depurada, não escondendo as leituras de alguns dos melhores poetas contemporâneos, é uma revelação para todos aqueles que gostam que as palavras sejam bem tratadas, sem precisarem de se torturar na praça pública ou de caminhar por caminhos exotéricos)

Foto: JRR (O poeta com D. Joana, viúva de Sebastião da Gama, em casa desta)

sábado, 25 de junho de 2011

FORA O SILÊNCIO






















A sucessão dos dias e das noites

não obedece às leis da astronomia,

fora o silêncio, foi tudo o que aprendi

e não sabia…



arlindo mota


foto: apm

domingo, 20 de março de 2011

INVEROSÍMEL, DIRÃO…

















Quase que se esqueceram-se de mim, já estou habituado. Tu foste a notícia e eu sei que não querias. Eles martelaram insistentemente dizendo que morreste só, sem ninguém, vertendo palavras sobre palavras por sobre uma situação que jamais entenderão. Preocuparam-se pela delonga – e chamaram-lhe incúria – por demorarem tanto tempo a encontrar-nos. Bom, verdadeiramente, a encontrar-te, pois a mim quase se não referiram, e sem grande alarido, nem surpresa.

Eles querem lá saber dos anos que vivemos juntos, dos carinhos que trocámos, da atenção que prodigalizávamos constantemente nos mais pequenos gestos. Nunca tive grandes sonhos, nem tu podias tê-los. Tínhamo-nos um ao outro; passeávamos nas ruas naquelas horas em que ainda estavam acordadas. Até ao dia em que com mais vivacidade do que era habitual, me chamaste para o sofá e me afagaste ternamente a cabeça, e perguntaste se me recordava de quando e em que circunstâncias nos havíamos conhecido…e sem me dares ocasião de responder, prosseguiste ininterruptamente, como se quisesses fazer um ajuste de contas contigo própria, mas sempre naquele tom meigo que sempre usavas comigo.

Depois calaste-te, eu pensei que era o cochilar do costume de um corpo fatigado em frente da televisão…afaguei-te à minha maneira, de mansinho, demoradamente. Tu mantinhas-te no teu sono tranquilo. Sim... depois percebi que desta vez era diferente, o teu ronronar diminuíra até cessar, por completo. A quentura do teu corpo já não era a mesma. Eu sabia o que estava a acontecer, nada que não estivéssemos os dois à espera, algum dia haveria de ser. Apesar de saber inevitável, por momentos não soube o que fazer, senão lamber-te quase em desespero, pois, na verdade, nunca estamos inteiramente preparados. Depois, mais calmo, despedi-me com um latido quase inaudível para não perturbar os vizinhos, enrosquei-me bem juntinho a ti, e chamei o sono que veio surpreender-me em pleno devaneio de quando foras buscar-me ao canil municipal livrando-me assim de uma despedida antecipada, injusta, sem ternura…Sim, tu, salvaras-me a vida!

(Assinatura ilegível)

(P.S. esta carta chegou-me recentemente quando os media difundiram à saciedade o achamento de uma velha senhora e do seu cão vários anos depois da seu desfecho, enfatizando a situação da solidão nas sociedades contemporâneas. Não cheguei a apurar se a epístola teria tido algo a ver com este acontecimento…)

@Texto e foto: arlindo mota

domingo, 27 de fevereiro de 2011

MONDANDO A LUZ





Pode a luz, sem ser coada,

Iluminar-nos de cor?

Arco- iris recriado:

Que paleta? Que pintor?



arlindo mota

@poema e foto

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ZECA AFONSO: NUM DIA ASSIM...



Que fazer nos dias de Inverno, cogitava Alice, quando o frio nos tolhe a alma e não se vislumbra sinal de temperança.... A ternura dos quarenta leva-a à música e a música a um amigo do pai que jamais esquece: o Zeca Afonso.

Mas porque se lembrara ela, naquele momento, naquele preciso momento, daquela música, daquele autor, que afinal em pessoa mal conhecera, quando ainda andava de bibe e sacola? Também ela estivera no ginásio cheio, cheio a abarrotar da Escola Técnica (agora Sebastião da Gama) onde o corpo de Zeca Afonso repousava entre amigos que há muito sabiam – como ele sabia – que no dia em que a sua voz não se pudesse fazer ouvir, morreria.

A morte saiu à rua, num dia assim : 23 de Fevereiro de 1987. Afinal havia outras razões, para além da razão, para estar triste. Onde estão agora os bardos – reflecte - que cantem generosamente até que a voz lhes doa, a denúncia de um tempo triste, que o Zeca jamais imaginara que os homens do seu tempo pudessem esconder o sol por não saberem o que fazer com a luz.

Extraído do livro de Arlindo Mota “Alice no País do Faz-de-Conta”

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ENTRE ESCOMBROS, TALVEZ…

























procuro nos escombros que inventei

sem conhecer um rosto na voragem

das mágoas e silêncios que guardei

em teus olhos insensíveis à paisagem


um pouco mais além outras paragens

de apetecidos afagos de mãos puras

recriam-se seguros diques de ternura

porto de abrigo apetecido da viagem


tu subindo o mar numa piroga

eu sem saber porque naufrago



arlindo mota

EVOCAÇÃO DO REJOEIRO DA RUA






























Local: MADRID

Foto: arlindo pato mota

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

POETA DO MÊS: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

















ÍTACA

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis
(nas águas verdes de Brindisi

Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras
(passos remos e guindastes

A alegria estará em ti acesa como um fruto

Irás à proa entre os negrumes da noite

Sem nenhum vento sem nenhuma brisa
(só um sussurrar de búzio no silêncio

Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos

Quando o barco rolar na escuridão fechada

Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar

Porque esta é a vigília de um segundo nascimento


O sol rente ao mar te acordará no intenso azul

Subirás devagar como os ressuscitados

Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial

Emergirás confirmada e reunida

Espantada e jovem como as estátuas arcaicas

Como os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto


Sophia de Mello Breyner Andresen

(Estive meia dúzia de vezes sentado à conversa com Sophia de Mello Breyner Andresen - obrigado Maria pela amizade que me permitiu conviver informalmente com sua mãe à mesa do café! – e dela colhi, para além da excepcional obra que já lera, a sua imensa paixão pela cultura greco-romana e uma sensibilidade rara que transparecia em cada palavra que dizia. Agora que Maria Anderson organiza um colóquio sobre a sua obra a propósito da doação do seu espólio à Biblioteca Nacional, dou o meu modesto contributo escolhendo-a como a poeta do mês do blogue)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ENCONTRO FUGAZ






















ENCONTRO FUGAZ


a praça lá estava perdida mouraria de

improváveis gentes e locandas vazias

esforçaste o olhar para veres quem te

via da varanda vadia do hotel mundial



...................................................

lânguido rio correndo docemente pelo

seu corpo exangue que assim renascia

fugaz amor de instante ou por um dia



arlindo mota

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CANÇÃO DOS VELHOS AMANTES























CANÇÃO DOS VELHOS AMANTES
... ao som de Brel


quando tinhas a idade que um dia

hei-de ter sorvias as manhãs

de inesperados aromas

( flores de romã…)


mas tudo tem o seu tempo

(mesmo se o tempo mudou)

como a ladeira de um monte

se desgasta a cada instante

nessa incessante escalada

em que a vida se nos escapa

sempre mais perto do cume

(ou o princípio do nada …)


agora o passado é passado de vez

-flores do deserto em pedra talhada

que o tempo desfez -

(mesmo a mais desejada…)




arlindo mota

foto: arlindo pato mota

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ACTA FINAL




Soubesses manusear o ábaco como sabes

Exarar a acta da paixão. Daqui te enviaria

Meu nome o domicílio a folha de cobrança

Para o resgate a selo branco da herança


Cumpriria assim o meu dever e até nisso

Sairias a ganhar eu pagaria o preço

Tu recorrerias como sempre



arlindo mota

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

POETA DO MÊS: EUGÉNIO DE ANDRADE



GREEN GOD

Trazia consigo a graça

das fontes quando anoitece.

Era o corpo como um rio

em sereno desafio

com as margens quando desce.

Andava como quem passa

sem ter tempo de parar.

Ervas nasciam dos passos

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ele sabia

que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo o que via,

enleado na melodia

duma flauta que tocava


(Eugénio de Andrade nasceu em 19 de Janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, Fundão. Dos maiores poetas portugueses de sempre deixou-nos uma obra extensa, original, onde sobressai uma sublime musicalidade.O poema Green God transcrito integra o seu primeiro livro "As Mãos e os Frutos" am)

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PRAÇA DE SÃO MARCOS
Veneza


foto: arlindo pato mota

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ANO NOVO

J. Sebastián Bach. Saludo


Moderno como las olas

antiguo como la mar

siempre nunca diferente

pero nunca siempre igual



Eduardo Chillida, in Preguntas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

NATAL É COMO SE...






























NATAL É COMO SE…

Fosse a festa construída

em tempo e espaço, muito embora

a memória persistisse revestida.


Natal é como se…

Em cada um de nós surgisse

a mão estendida,

no sentido de dar e receber:

não a esmola secreta e compungida,

ou o presente inscrito no dever,

antes a ternura prosseguida.



arlindo mota

domingo, 12 de dezembro de 2010

ATÉ QUANDO? (O Difícil Mundo dos Idosos)



Os filhos da urbe, apartam-nos; os lares que constroem para eles são verdadeiras estalagens para a derradeira vagem, sem açúcar, sem afecto; a sua reforma é inferior, na maior parte dos casos, ao valor das roupas de marca que os seus netos usam; o preço dos medicamentos que lhes prolongam a vida está pela hora da morte…

Resta-lhes, como na alegoria de Elio Vitorini, seguir o trilho dos elefantes, que se apartam da manada, quando sentem que a sua utilidade chegou ao fim, dirigindo-se para norte, gigantesco cemitério de elefantes: “Consideram-se mortos e morrem”, desistem de viver. Para quando a devolução da dignidade perdida dos mais velhos; até quando estes atravessarão o presente, desculpando-se de não ter ido mais longe”, nas palavras de Brel, e se sujeitam à tirania dos que esperam o seu sono tranquilo e infinito?

arlindo mota

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

PÃO POR DEUS






























PÃO POR DEUS


Os grãos que se não colhem não existem

Ou existem entre os fios de uma mão

Que se tecem nas palavras que lavradas

Se fecundam na farinha que é o pão




arlindo mota

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

POETA DO MÊS: ALEXANDRE O'NEILL





PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testastarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal, o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!



(Feira Cabisbaixa, p.211,1965)
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Alexandre O`Neill nasceu em 19 de Dezembro de 1924 e morreu 21 de Agosto de 1986, em Lisboa. Foi um dos poetas marcantes da sua geração, conciliando o surrealismo que o marcou indelevelmente com a mais brilhante tradição satírica da literatura portuguesa. Foto retirada, com a devida vénia, do site Tormentas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

DOMINGOS DA MOTA: Bolsa de Valores


Pormenor de um quadro de Paulo Themudo

BOLSA DE VALORES

Há quem faça passar gato por lebre

e por anho ou cabrito muito cão

e se afirme credor mesmo se deve

e perjure que sim perante o não


Há quem fale em fartura quando a fome

e a sede sufocam as gargantas

e convoque o verniz do sobrenome

pra atestar o que diz até às tantas


Há quem venda ilusões como certezas

e corrompa e aguce a cupidez

e no meio de tais subtilezas

presuma branquear mais uma vez


que a bolsa de valores, em substância,

retrata o poder e a ganância


(Domingos da Mota publicou recentemente, na editora Temas Originais, de Coimbra, o livro que toma por título o nome deste poema. A sua obra ergue-se ancorada na tradição da melhor poesia portuguesa, que reescreve de uma forma própria, original, mostrando-se atenta à realidade nas suas diversas perspectivas. É, por isso, um livro que a Seda das Palavras recomenda vivamente.)

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foto: arlindo pato mota

MADRID

sábado, 27 de novembro de 2010

QUANDO TINHA A IDADE...






























quando tinha a idade que um dia

hás-de ter eu tinha um sorriso e a certeza

sem saber bem porquê…



arlindo mota

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MARIAM: PRENDA SUA


Mariam é blogger de sucesso, fotógrafa e poeta de gosto apurado que tem acompanhado e incentivado a "Seda das Palavras" desde sempre...Esta foto é sua. Pô-la generosamente à minha disposição. Resta-me partilhá-la no blogue pois todo o seu sentido tem muito a ver com o seu conteúdo: a luz, os barcos, os sapais...

sábado, 6 de novembro de 2010

POETA DO MÊS: SIDÓNIO MURALHA


DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA



1

Na praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.

Búzios da praia da Areia Branca:
- um dia,
haveis de falar
unicamente do mar.


2

No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.

Ali, não são morenos nem são loiros:
- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.

Serenos, serenos, repousam os mortos,
- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os portos.

(Sidónio Muralha, nasce em Lisboa em 1920 e morre em Curitiba em 1982. Foi um dos precursores do neo-realismo português com BECO (1941). Viveu um pouco por todo o mundo. Exilou-se na Bélgica e acaba reconhecido no Brasil, onde viveu as últimas décadas da sua vida, especialmenmte pelos seus livros para um público infanto-juvenil)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ENTRE PORTOS PALAFITAS


























ENTRE PORTOS PALAFITAS

os corpos passadiços sugados pelo tempo

sobre as águas rumorejando quando em vez

anunciavam algazarras as chegadas e partiam

no silêncio das marés


ali cevei em mim uma roseira

as pétalas pegadas que deixei

meia-lua à espera à tua beira


quando o tempo nos consome

e nada mais se divisa por diante

é pura eugenia a minha fome



arlindo mota

foto: arlindo pato mota

sábado, 9 de outubro de 2010

7 PECADOS



Eis uma antologia que vale a pena integrar: porque tem corpo e alma e amizade dentro. Porque não se abriga à sombra do egoísmo ou do lucro travestido de caridade. Estabelece um círculo que vai dos seus promotores e organizadores, aos parceiros. Dois nomes traçaram o círculo virtuoso: Ibernise e José Lourenço. Para eles, pela abrangência e generosidade, o bem-haja dobrado.
arlindo mota

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DE SÚBITO


foto apm



























DE SÚBITO



De súbito recolho as velas

ao abrigo do porto, da memória,

enquanto as águas cintilam prateadas,

reflectindo as faces desejadas


Fora assim que as imaginara

- lúcidas, evanescentes, joviais –

falando como quem canta

uma canção de embalar



arlindo mota

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

KAREN THIELE CAMPOS: LUZ E SOMBRA



« A artista plástica Adriane Hernandez, professora de Artes Visuais da UFPel, preparou uma exposição de seus alunos, em parceria com o Instituto João Simões Lopes Neto. Os estudantes deviam elaborar criações não tradicionais em torno ao livro - como conceito e como objeto - e à casa do escritor.

Em visita ao Instituto, as ideias apareceram e foram feitos os projetos de acordo aos lugares da casa. Assim, a exposição "A casa, as estantes e os livros", com pouco mais de uma dúzia de surpreendentes trabalhos, foi aberta na quinta 22 de julho, e se prolongou até 30 de julho(...)

"Luz e sombra", o impressionante livro-janela de Karen Campos, foi construído com papel paraná, craft, celofane e lâminas de retroprojetor. O tamanho da obra, adaptado à realidade física da casa, também dizia que ser escritor (ou encadernador) envolve bastante trabalho, na concepção e na confecção. Pequenos nos sentimos ante certos livros.
O livro com forma e funções de janela, além de ser parte da casa de um escritor, permite olhar o mundo lá fora, iluminar o interior, trocar de ar e escrever nos vidros.
As várias folhas podiam ser folheadas e lidas sem dificuldade, e em cada uma havia mensagens epigramáticas como esta (do poeta português Arlindo Mota):
Quem controla o desejo: a emoção ou a ternura?
- A paleta, responde o pintor.
- A palavra, atalha o poeta. Juntos, distribuem a luz que inunda de cor o planeta.»
F.A. Vidal, in blog "Pelotas, Capital da Cultura"

Parabéns à Karen Campos, promissora artista plástica brasileira e à sua orientadora pelo conceito brilhante que deu origem a este (e outros) magníficos trabalhos e ao convite para colaborar que me dirigiu e a que acedi com o maior gosto.

apm

sábado, 11 de setembro de 2010

REFLEXÃO


foto: arlindo pato mota

REFLEXÃO



Subitamente

O rumo se fez tempo e ao longe

O amanhecer se recortara.


A quem cabe o fortuito,

O desgarrado,

O repensar o acaso, o absoluto,

O misterioso esgar e

A impoluta coragem,

A razão dia a dia perscrutada,

E a fuga ciclicamente repetida?


Arqueados, no cais, retomamos

O alento da manhã. Caminhamos.



arlindo mota

domingo, 29 de agosto de 2010

RETRATO MERIDIONAL



















RETRATO MERIDIONAL


Foi a Sul, onde as cores se misturam a quente

embutindo gente e sofrimento

E a paisagem pintada por dedos hábeis, cálidos

é ouro rendilhado a sol e vento

na amplitude das margens que cavaram


Aí crescera: criança, querubim, esposa, amante

Vivera até ao fim, talvez um pouco mais adiante,

no limite, o azul que lhe traçaram



arlindo mota

foto: arlindo pato mota

sábado, 21 de agosto de 2010

FÁTIMA RIBEIRO MEDEIROS: "A Seda das Palavras"


"De seda se vestem as palavras deste último título, depois de ensaiado o «canto viageiro» e ultrapassados «incertos dias» de um quotidiano a que o eu poético soube apor a sua «marca de água», sob o olhar atento, «húmido» e «brilhante» de Cibele. Palavras atravessadas por um toque de delicadeza, sensibilidade, sentido lírico. Palavras de amor, desejo, partilha, ternura, inquietação, busca, num navegar poético por rotas ora originais ora revisitadas, entre um presente calmo, de aceitação de um destino inevitável, e um passado pontuado por afectos vários, delineando o «percurso percorrido» de uma viagem incessante.(...)

Fátima Ribeiro Medeiros
IELT, FCSH - UNL

(Com os agradecimentos à distinta investigadora que revisitou, para o jornal "O SUL", a obra poética do autor, com particular incidência no livro "A Seda das Palavras". Em breve o texto completo estará à disposição noutro local da WEB)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O CUME




O CUME


subiu a encosta e a cada curva saudavam-na

jasmins e sardoeiras até ao cume, ponto mais alto

onde o rosto se abre, manhã clara, em pleno

espanto


fora assim, de encosta em encosta, de cume em cume,

que acabara o dia,

no aconchego do teu corpo, abóbada celeste, e o lume

paradoxo da geometria

e seu encanto



arlindo mota

foto:arlindo pato mota

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POETA DO MÊS: AL BERTO

foto: apm
ANTES QUE O RIO ESQUEÇA...


«Olhar atentamente a civilização que nos deixaram.
Dantes podíamos virar costas à terra com a certeza de que as eiras estavam cheias de grão. Hoje apenas podemos sonhar com as eiras que não veremos nunca.
Mas as máquinas vieram para talhar a cidade que vem e o falso ouro contaminou a terra.

Tentaremos esquecer a morte que se insinua em permanência e que de tão presente já não sentimos o cheiro. Refina a morte das aves, esquece-se a vida dos peixes, morrem as árvores, degrada-se a vida dos homens.

Na memória doem os sinais dos bosques ceifados, as dunas arrasadas e algumas casas abandonadas. A memória é hoje uma ferida que lateja ao fundo da insónia.

Escavemos o chão, procuraremos essas raízes em pedra cinzelada, objectos da vida simples de outros povos. Preciosas navegações, procuraremos a velha dança à roda do mastro. Olhamos as nossas minúsculas embarcações, semelhantes a beijos que nos percorrem de felicidade.

Olhamos o mar, o espaço desses navios negros que nos escondem a linha do horizonte. No coração nada secou, nem possuímos o desastre dentro dos sonhos. A vida preciosa de vivíssimas memórias.

Com este corpo frágil e magoado, procuramos preservar a nossa memória colectiva da voragem do tempo e do abandono dos homens.»





Prosa poética de um dos grandes poetas portugueses,Alberto Pidwel (Al Berto) para um video sobre Arqueologia Naval da Margem Sul, escrito em 1985, transcrito e sob responsabilidade de arlindo pato mota, companheiro e admirador do poeta.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NEGRO EM CONTRASTE AO AZUL AVERMELHADO


entrou como uma nuvem,

pássaro negro,

fazia contraste no azul avermelhado do céu,

o cheiro de campo inundou o dia,

vinha na frente, como se fosse um suspiro do céu.

sua alegria entrou pela cozinha,

trouxe apenas o próprio ar

e o som do mundo começando...

numa caligrafia refinada,

o pensamento liberta-se da mente

e faz o papel implorar...

por maior que fosse a distância

entre o desejo e a alma,

vem suave e desce na cabeça,

faz contraste na mente branca.

...até agora a pouco não tinha nem luar.

volta num vôo,

apaga as luzes do mundo

e onde não havia nada

crescem estrelas no solo da noite...


Vania Lopez

(ainda um poema sobre "pássaros" de uma inspirada poetisa brasileira que já tem colaboração neste sítio)

foto: apm

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Devo confessar que sou o contrário, meus passos seguem em contrário.
Sou uma pessoa inquieta, vou onde meu vento me leva. Artista Plástica e escritora, as vezes sem saber se pintoraqueescreve ou escritoraquepinta...

terça-feira, 6 de julho de 2010

POEMA AVE




Vens querida ave mapear o céu!

Com a brisa estonteia teu canto

Em brancas nuvens deposita o encanto

E vive assim pelo mundo ao léu!...


No solstício abraças a bela madrugada

Ave poema que no sonho já pousa

E no alvo ventre no céu repousa

Sentindo-se por todos tão amada!


E quando sente a fome de amar

Voa altiva pelas ondas do mar

Buscando o cinza dos olhos sinceros


Avezinha que a todos acalma

Tens nas penas o manto da alma

Como um poema ave, tens da poesia o eterno!


LEDALGE

"Com inspiração no ... poema "Teu Corpo Ave Cinzenta" de Arlindo Mota (Ledalge)"

foto: arlindo pato mota

Sou uma mulher que respira poesia; que a mantém viva dentro de si dia após dia. Sou uma sonhadora, que busca nas vielas do sonho, os contornos da vida. Essa sou eu: NÚRIA CARLA, A LEDALGE.

domingo, 20 de junho de 2010

TEU CORPO AVE CINZENTA



teu corpo ave cinzenta simulou um voo

ao encontro dos deuses, mundo dos ses,

em movimento pendular: ser e não ser,

cintilando ao retornar pela última vez


o corpo brotou manancial de água fresca

sobre delicado tapete de plátanos em flor

sem cuidar de saber se ao partir voltaria:

eclipse ou expressão circular da geometria


o corpo ave cinzenta aninhou uma última vez

no meu colo,e ali ficou, delicada,serena forma,


depois despertou tão naturalmente naquele dia,

que deixou a ilusão de ser eterno – e não seria…?



arlindo mota

sábado, 19 de junho de 2010

FOTOPOEMA: TEMPO DE PARTIDA



A terra é fresca, entumecida

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.



Foto e poema: arlindo pato mota

domingo, 30 de maio de 2010

CABO DA ESPERANÇA



Quanto custou dobrar o Cabo,

Assegurar os mantimentos

E o ânimo dos Homens?

País de marinheiros, de aventuras,

Ninguém pergunta quanto custa

Dobrar o cabo da ternura.


Dobrar o Cabo, sem perder a esperança

E ao sabor do vento navegar,

Indiferente à tempestade ou à bonança,

Ser uma ilha entre o azul e o mar.



arlindo mota

foto e poema

domingo, 23 de maio de 2010

FORA ASSIM QUE TUDO COMEÇARA...



Rios irrompiam bem por dentro

criando uma alameda junto ao mar

entre palmeiras e urzes inclinadas

que o vento modelava sem cessar.


Aí teu perfume de cedro e aloendro

anunciava um tempo mais bravio

enquanto as faces breves se tocavam

por entre camarinhas e o desejo.


Fora assim que tudo começara,

despojada candura e verdes campos:


Feliz, recorda Cibele, no seu semblante

a chegada de mais uma Primavera.



arlindo mota

foto e poema