sábado, 18 de agosto de 2012

AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*



AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*


Órfão milenar, a profissão a herdara dos pais,

Nela se mantinha, sem orgulho, nem credo,

Apregoando, baixinho, a exígua mercadoria.

E, assim, lá ia vendendo o seu ódio,

Quase a medo…



Arlindo Mota

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*Título de um filme escrito e realizado por Bahman Ghobad sobre os conflitos e os sentimentos gerados nas crianças “filhas da guerra” no Médio Oriente e não só.

terça-feira, 31 de julho de 2012

NESSES LUGARES EU TEÇO

 Os sentimentos, Cibele, são paisagens,

húmus, campos de semeadura, se contêm

a natureza honesta do granito.

 

Nesses lugares eu teço, sem rebuço de

olhares. As mãos ganham, então, um

sentido mágico: entrelaçam-se, procuram

o âmago do tempo nas profundezas

da terra, cruzam-se e descruzam-se

desordenadamente.

  

Nesses lugares, os olhos apelam

ao sonho, à viagem, à maresia

dos sentidos, assim o luar liberte

o iodo, agreste perfume das marés.



arlindo mota

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS



Catedral de Oviedo
Foto: apm

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MISTRAL



MISTRAL

quando aparecia o mistral

as aves acolhiam-se aos beirais

da minha fantasia, faziam ninhos

e, desveladas, cuidavam das crias

que nasciam, sonhadas e bravias


amainava o vento e o alado corpo

regressava sibilino, atento e delicado,

próprio da brisa ou da leveza do linho,

ao pôr de sol em que se anuncia

nos seus olhos húmidos

a luz do dia.




arlindo mota

foto: apm

BOTERO EM OVIEDO



Foto de: apm

segunda-feira, 9 de julho de 2012

SAUDADES




SAUDADES
(Homenagem com endereço)



Eram poucas as palavras
que usava para falar,
umas vezes, por preguiça,
outras vezes, por ousar.

Mas no dia em que partiu,
o Sol parou por instantes
- milagres como só dantes -
que, de espanto, pouco vi.

Foi, numa vaga de espuma,
para o outro lado da vida,
da vida que ele trocou
por coisa alguma.



arlindo mota

foto e poema

terça-feira, 19 de junho de 2012

1º ENCONTRO LUSO-POEMAS - Versão Brasileira





Está a decorrer o 1º Encontro Luso-Poemas, versão brasileira, no Rio de Janeiro desde 15 de Junho. A todos os companheiros e companheiras, na impossibilidade de estar presente, dedico este meu poeminha a todos eles que tiveram a ousadia de o promover "com açucar, com afeto", centrando por simplicidade nessa figura congregadora e amiga de José Silveira.





Quem controla o desejo, a emoção

ou a ternura?

A paleta, responde o pintor.

A palavra, atalha o poeta.

Juntos, distribuem a luz

Que inunda de cor o planeta.


arlindo mota
  

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS



Relógio da Igreja de Santiago no Castelo de Palmela construído no século XVIII

Foto: apm

sábado, 31 de março de 2012

PURO SILÊNCIO








O silêncio era a dois, quase perfeito,


o que se ouvia era quase nada,


um fio de água, de nascente,


e o sobressalto de um bater de asas.

arlindo mota

POETA DO MÊS: EUGÉNIO DE ANDRADE













AS PALAVRAS


São como um cristal,


as palavras.


Algumas, um punhal,


um incêndio.


Outras,


orvalho apenas.



Secretas vêm, cheias de memória.


inseguras navegam,


barcos ou beijos,


as águas estremecem.



Desamparadas, inocentes,


leves.


Tecidas são de luz


e são a noite.


E mesmo pálidas


verdes paraísos lembram ainda.



Quem as escuta? Quem


as recolhe, assim,


cruéis, desfeitas,


nas suas conchas puras.



Eugénio de Andrade

quarta-feira, 7 de março de 2012

FORMAS SENTIDAS





Acaricio os teus dedos longos suspensos

sobre mármore Carrara. A emoção do simples

contacto, o fascínio das cores refractados no

cristal líquido dos teus olhos húmidos,

perduram ainda, cobrindo de matizes

a face oculta das pétalas da vida.


Os palácios, Cibele, são uma invenção

dos bárbaros, pois neles as pessoas

estão irremediavelmente longe umas das

outras, os candelabros apenas tingindo

de opacidade e ilusão.


De futuro, sempre aparecerás vestida

de orquídea, os olhos marejados

de verde, o corpo entreaberto, a

tensão serena das mãos e do rosto.





arlindo mota

sábado, 18 de fevereiro de 2012

CASA DE PARTIDA









Ancorei, meio submerso, à outra margem,

Entre ânforas, limos, e sapais,

Terno afago de formas conhecidas.

Na caravela que bailava entre as marés,

Voltei, enfim, à casa de partida.



arlindo mota

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NATAL...
































NATAL...

É fogo e água em abundância,

E terra e ar que envolve a dor,

Natal é acaso e circunstância,

Natal é tudo isto...e o calor.


A vaga se fez pranto,

E o silêncio musa,

E o amor canto,

Conquanto se desusa.



arlindo mota

foto: apm


Para as companheiras e companheiros que acompanharam este blogue um FELIZ NATAL

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

OS LOUCOS DA MINHA RUA









O ar que se respira, carbono negro, denso,

quase impuro, nada tem a ver com a cor,

nem com as guelras (do odor não me lembro),

vem da memória, dizes, talvez do coração,

pois nem o pulmão que o inspira, sente.

Assim se vão passando os dias, indolentes,

aqui no asilo, onde às árvores chamam gente,

e elas murmuram entre dentes, qualquer coisa,

que bem podia tratar-se de sementes.

Mas não, é coisa de doentes…



arlindo mota


domingo, 20 de novembro de 2011

ATÉ QUANDO?


Os filhos da urbe, apartam-nos; os lares que constroem para eles são verdadeiras estalagens para a derradeira vagem, sem açúcar, sem afecto; a sua reforma é inferior, na maior parte dos casos, ao valor das roupas de marca que os seus netos usam; o preço dos medicamentos que lhes prolongam a vida está pela hora da morte…

Resta-lhes, como na alegoria de Elio Vitorini, seguir o trilho dos elefantes, que se apartam da manada, quando sentem que a sua utilidade chegou ao fim, dirigindo-se para norte, gigantesco cemitério de elefantes: “Consideram-se mortos e morrem”, desistem de viver. Para quando a devolução da dignidade perdida dos mais velhos; até quando estes atravessarão o presente, desculpando-se de não ter ido mais longe”, nas palavras de Brel, e se sujeitam à tirania dos que esperam o seu sono tranquilo e infinito?


arlindo mota

foto: apm

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MEDE A AMPULHETA O QUE SE SENTE?






























Se o orvalho cai generosamente,

tecendo um manto fresco e sedutor

que nos aproxima irresistivelmente,

mede a ampulheta o que se sente?


Muito já se disse sobre o tempo

- Eficaz tempero de alma ou desespero –

E, afinal, somos só navegadores.



arlindo mota

foto: apm

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS




LISBOA Terminal do Rossio

foto: apm

terça-feira, 1 de novembro de 2011

MAR ADENTRO























Metódica, Cibele colhia a escassa chuva

na concha das suas mãos vazias.


Com os dedos esguios, habilmente, entrelaça-a,

pingo a pingo, como se fora um colar. Por fim,

esbelta e delicada, afoita-se, por entre o

agreste das aroeiras,mar adentro, oceano acabado

de lavrar.



arlindo mota

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RUI SERODIO: ARTE E VIDA









A semente intensa e delicada

A colheita farta enquanto houve

A notícia indelével que perdura

Teve o impacto duro de uma bala



arlindo mota


(Ouvir o maestro Rui Serodio é a melhor forma de continuar a ter o privilégio de continuar a usufruir da sua companhia através da arte, que essa é eterna. O nosso disco, querido amigo, teve um contratempo mas verá a luz dia: poesia e música sempre se banharam nas águas do mesmo rio. Aqui deixo um link para um dos seus últimos projectos http://www.newagepiano.com/profile/TheFadoandthePiano)