quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MEDE A AMPULHETA O QUE SE SENTE?






























Se o orvalho cai generosamente,

tecendo um manto fresco e sedutor

que nos aproxima irresistivelmente,

mede a ampulheta o que se sente?


Muito já se disse sobre o tempo

- Eficaz tempero de alma ou desespero –

E, afinal, somos só navegadores.



arlindo mota

foto: apm

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS




LISBOA Terminal do Rossio

foto: apm

terça-feira, 1 de novembro de 2011

MAR ADENTRO























Metódica, Cibele colhia a escassa chuva

na concha das suas mãos vazias.


Com os dedos esguios, habilmente, entrelaça-a,

pingo a pingo, como se fora um colar. Por fim,

esbelta e delicada, afoita-se, por entre o

agreste das aroeiras,mar adentro, oceano acabado

de lavrar.



arlindo mota

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RUI SERODIO: ARTE E VIDA









A semente intensa e delicada

A colheita farta enquanto houve

A notícia indelével que perdura

Teve o impacto duro de uma bala



arlindo mota


(Ouvir o maestro Rui Serodio é a melhor forma de continuar a ter o privilégio de continuar a usufruir da sua companhia através da arte, que essa é eterna. O nosso disco, querido amigo, teve um contratempo mas verá a luz dia: poesia e música sempre se banharam nas águas do mesmo rio. Aqui deixo um link para um dos seus últimos projectos http://www.newagepiano.com/profile/TheFadoandthePiano)

domingo, 16 de outubro de 2011

ESCRITOR DO MÊS: LUIZ PACHECO


Encontrámo-nos meia dúzia de vezes, separados pelo tempo e pela geografia: primeiro na "Estampa", quando integrava a equipa dos amigos Manso Pinheiro que haviam adquirido a editora e Luiz Pacheco era um dos seus autores. Mais tarde em Setúbal,já o tempo havia cavado fundo na energia e capacidade criativa de LP, mesmo assim sempre de língua afiada para os que arvoravam a hipocrisia como sua matriz. Depois fui acompanhando as entrevistas que foram sendo publicadas e que eram a sua "prova de vida". Viveu o tempo suficiente para saber que o seu talento fora reconhecido. Com ele morreu muito do pouco que resta de uma certa maneira de fazer literatura, de que terá sido o seu principal representante , em que a vida se confundia com a própria arte da escrita. Até sempre. apm"


Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustrados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com um filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. (...) Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes." Luiz Pacheco in A COMUNIDADE

domingo, 9 de outubro de 2011

OUTONO

























O tempo era a monótona cidadela

de um Outono. Lentamente, as

folhas emudeceram e se colaram,

secamente, uma a uma.



arlindo mota


foto: Cília Costa

domingo, 18 de setembro de 2011

PELA NORMA CONSENTIDO





Não é a simples presença

A razão que aqui me traz

Sem receber qualquer tença,

Mas esperança de encontrar

Lugar onde pontifique

Um poeta, mesmo alvar,

Em vez de Pina Manique.


Não que me sinta atraído

Pelos salões decadentes,

Por onde coço o umbigo,

Entre senhoras contentes,

E outros irreverentes

Pela norma consentido.



arlindo mota


(Poema inédito criado para participar numa interessante iniciativa comemorativa do Dia de Bocage, na cidade de Setúbal, sujeito ao mote "Pela Norma Consentido", em 1986).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DÁDIVA DIVINA

































Cibele obstinada, tensa

ia recriando a obra divina

pelo seu ventre escorria

fogo e mel

como se fosse um favo

ou lava de vulcão


assim decorreu o tempo

afeiçoando nas mãos

o seu sonho de eterna glória

Adão e Eva, milagre da criação,

que se fundia finalmente nela




arlindo mota

Foto: apm de uma pintura pública

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PARÁBOLA



Angustiado e humilde, procurou um proclamado sábio cuja fama irradiava por todas as terras e lugares.

Ao chegar junto dele indagou sobre o que lhe poderia ensinar sobre a vida. “Nada” respondeu o sábio”. Nada? “Nada, meu amigo” enquanto esboçava um sorriso inequivocamente bondoso.

O peregrino não satisfeito com a resposta voltou à carga: “Mas tens fama de ajudar os que te procuram e de sempre lhe valeres”.

“Não fui eu que a criei”, ripostou. “Mas diz-me: verdadeiramente ao que vens?”

“Busco encontrar um sentido para a minha vida, e não vislumbro, e mais de meia vida é já tornada”

“Se procuras tão persistentemente algo de tão raro e difícil então não precisas decididamente de conselhos. Apenas tens de seguir o teu caminho, que já o encontraste”.


arlindo mota

foto: apm

sábado, 27 de agosto de 2011

ROSTO















ROSTO


Provei em mim o vinho e o mosto

Das épocas festivas que passei

E o travo leve, exíguo, que senti

Era o desenho nítido de um rosto



arlindo mota



Foto: apm(De uma pintura do hall da loja HM em Madrid - antiga sala de espectáculos)

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS



CASTELO DE VIDE

Foto: apm

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

POETA DO MÊS: JOSÉ GOMES FERREIRA


VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

Poema escolhido para ser dito pelo Grupo Cultural com base na Pró-Asociação dos Liceus dos anos 60 (Teresa Taborda, José Vasconcelos; Vitor Oliveira Jorge; Tito Cardoso e Cunha; José Arnaud; Teresa Bento; Arlindo Pato; Teresa Oliveira, entre outros) e que Eugénio de Andrade na sua Antologia considerou um dos mais belos poemas do século XX. Nascido em 1900, morreu em 1985 em Lisboa. O seu espólio encontra-se na Biblioteca Nacional.

Foto: Arquivo do Diário de Noticias

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

OBRA DIVINA































Miguel Ângelo, arqueado,

desenhava a obra divina

por suas mãos escorriam

saibro e mel

como se fosse um favo

ou liquido caminho

ali permaneceu longo tempo

para eterna glória do homem

sua criação.



arlindo mota


imagem: da internet

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O SEGREDO DAS PALAVRAS
































O sonho, Cibele, é uma taça, uma flor ignota, um desejo imenso que persiste,

mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore. Cativo, neste lugar, perco a exacta noção do ser e do não ser,

do tudo ou do nada,

(se é que o todo pode estar circunscrito à palavra…)

Procurarás as estrelas, que iluminarão o caminho. Se solitário, a luz é mais intensa.

Despojada de tudo, encontrarás o segredo das palavras: ternura, amor, ou apenas sede

e um sereno gesto a partilhar

na colheita de uma rosa brava.


Arlindo Mota Foto: apm

BILHETE POSTAL: SIENA (ITÁLIA)




Foto: apm

quinta-feira, 14 de julho de 2011

DAQUELE PRIMEIRO DIA…























Disseste que os teus olhos já não conseguiam debruar a luz como faziam antigamente; que agora tacteiam a memória e as mãos ainda não perderam o seu sentido táctil, mas enganam-se frequentemente na paisagem.

Não esqueceste a volúpia, a fragrância do desejo, entre fráguas e a verdura das encostas, por entre a limpidez do murmúrio das águas. Por isso manténs as portas entreabertas e subsiste no teu colo uma infância por crescer. Abrigar-me-ás decerto em noites de lua cheia. Habituado ao ritmo dos sapais esperarei a próxima maré para te acolher, tufos de verde acariciarão os teus cabelos em reflexos desfocados pelo movimento lânguido das águas do estuário.

Noutro tempo, a tua voz tinha sempre um timbre inconfundível, prenhe de iodo e limos. Eu aguardava apenas a ténue luz dos vaga-lumes para assistir ansioso à tua chegada, roupas coladas ao corpo naquele teu jeito insinuante de faz-de-conta. Fora, assim, a nossa iniciação…ainda hoje, sinto o movimento das tranças presas no exacto momento em que um inesperado eclipse do luar deixara a tua pele, deliciosamente branca, nas minhas mãos acabadas de acordar. Surripiei-te então, Cibele, tudo o que tinhas e comigo guardei – precioso bem! – uma vermelha flor liquefeita daquele primeiro dia em que fiz amor contigo…


Arlindo Mota

Foto: apm

quarta-feira, 13 de julho de 2011

POETA DO MÊS: ANTÓNIO OSÓRIO



Retrato do Autor
Aguarela de Mário Botas
26/12/1982
























Quando sinto de noite

o teu calor dormente

e devagar

para que não despertes

digo: cedro azul,

terra vegetal,

ou só

amor, amor;

quando te acaricio

e devagar

para que não despertes

tomo na mão direita

as duas fontes, iguais, da vida,

procuro a nescente

e adormeço

nela essa mão depositando.


António Osório


(Nascido em Setúbal em 1933, António Osório é um dos mais notáveis poetas portugueses vivos. Advogado foi um prestigiado bastonário. Poeta tem uma obra cada vez mais reconhecida pela crítica, apesar do perfil discreto de que faz gala. Com a devida vénia seleccionámos um poema que aqui reproduzimos do seu livro O LUGAR DO AMOR, editado pelo Círculo de Poesia, da Moraes Editores, em 1985.)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

FUGAZ
























FUGAZ


Exíguo, lhe disse alguém, reflectindo sobre o tempo

e algum desdém…

Mas lá foi crescendo, crescendo, consoante a terra, o húmus e as circunstâncias,

aquele tronco, agora forte, robusto como a mãe…

“Sou como o espaço, o horizonte, o mundo…” rejubilou.

E foi rodando, rodando, rodando sempre, na esperança que antevia, até que,

subitamente, se deteve junto a um amontoado de ramos frágeis, inertes, prostrados.

Aí, caindo de vez em si, decepcionado, humildemente balbuciou:

“Afinal...não passo de um segundo”




arlindo mota

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LUZ QUE ALUMIA























um silêncio sedoso mergulhara na noite

eterno compasso que prenuncia

delicado origami de cores cintilantes

e o novo dia


nada podia impedi-lo

levitando sobranceiro quando raiava

fenecendo docemente

nos teus braços

(luz que alumia)



arlindo mota

foto: mariam

sábado, 2 de julho de 2011

PAULO ASSIM: Retrato a Sépia



















O meu avô tinha a tez dos mouros e o ar sereno
de quem descasca laranjas pela madrugada.
Falava-me do mar como quem olha
para os sulcos sibilinos das mãos.

Os peixes bebem toda a água do mar e não sabem.
Se soubessem, dizia o meu avô, quereriam ser homens.
Mas os homens têm já todo o mar nos olhos, sobretudo quando choram,
e se os peixes soubessem disso talvez preferissem ser pássaros,
que é o que os homens desejam ser quando desafiam o mar.
(...)

Na sala do meu avô havia um búzio
que me cabia na concha das duas mãos.
Se o aproximasse do ouvido,
aproximava o mar inteiro.

Paulo Assim

(in Retrato a Sépia, livro do autor recentemente distiguido com o prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, de cujo júri fiz parte, com João Reis Ribeiro e José António Chocolate Contradanças. Poesia enxuta e depurada, não escondendo as leituras de alguns dos melhores poetas contemporâneos, é uma revelação para todos aqueles que gostam que as palavras sejam bem tratadas, sem precisarem de se torturar na praça pública ou de caminhar por caminhos exotéricos)

Foto: JRR (O poeta com D. Joana, viúva de Sebastião da Gama, em casa desta)