sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ENTRE ESCOMBROS, TALVEZ…

























procuro nos escombros que inventei

sem conhecer um rosto na voragem

das mágoas e silêncios que guardei

em teus olhos insensíveis à paisagem


um pouco mais além outras paragens

de apetecidos afagos de mãos puras

recriam-se seguros diques de ternura

porto de abrigo apetecido da viagem


tu subindo o mar numa piroga

eu sem saber porque naufrago



arlindo mota

EVOCAÇÃO DO REJOEIRO DA RUA






























Local: MADRID

Foto: arlindo pato mota

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

POETA DO MÊS: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

















ÍTACA

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis
(nas águas verdes de Brindisi

Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras
(passos remos e guindastes

A alegria estará em ti acesa como um fruto

Irás à proa entre os negrumes da noite

Sem nenhum vento sem nenhuma brisa
(só um sussurrar de búzio no silêncio

Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos

Quando o barco rolar na escuridão fechada

Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar

Porque esta é a vigília de um segundo nascimento


O sol rente ao mar te acordará no intenso azul

Subirás devagar como os ressuscitados

Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial

Emergirás confirmada e reunida

Espantada e jovem como as estátuas arcaicas

Como os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto


Sophia de Mello Breyner Andresen

(Estive meia dúzia de vezes sentado à conversa com Sophia de Mello Breyner Andresen - obrigado Maria pela amizade que me permitiu conviver informalmente com sua mãe à mesa do café! – e dela colhi, para além da excepcional obra que já lera, a sua imensa paixão pela cultura greco-romana e uma sensibilidade rara que transparecia em cada palavra que dizia. Agora que Maria Anderson organiza um colóquio sobre a sua obra a propósito da doação do seu espólio à Biblioteca Nacional, dou o meu modesto contributo escolhendo-a como a poeta do mês do blogue)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ENCONTRO FUGAZ






















ENCONTRO FUGAZ


a praça lá estava perdida mouraria de

improváveis gentes e locandas vazias

esforçaste o olhar para veres quem te

via da varanda vadia do hotel mundial



...................................................

lânguido rio correndo docemente pelo

seu corpo exangue que assim renascia

fugaz amor de instante ou por um dia



arlindo mota

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CANÇÃO DOS VELHOS AMANTES























CANÇÃO DOS VELHOS AMANTES
... ao som de Brel


quando tinhas a idade que um dia

hei-de ter sorvias as manhãs

de inesperados aromas

( flores de romã…)


mas tudo tem o seu tempo

(mesmo se o tempo mudou)

como a ladeira de um monte

se desgasta a cada instante

nessa incessante escalada

em que a vida se nos escapa

sempre mais perto do cume

(ou o princípio do nada …)


agora o passado é passado de vez

-flores do deserto em pedra talhada

que o tempo desfez -

(mesmo a mais desejada…)




arlindo mota

foto: arlindo pato mota

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ACTA FINAL




Soubesses manusear o ábaco como sabes

Exarar a acta da paixão. Daqui te enviaria

Meu nome o domicílio a folha de cobrança

Para o resgate a selo branco da herança


Cumpriria assim o meu dever e até nisso

Sairias a ganhar eu pagaria o preço

Tu recorrerias como sempre



arlindo mota

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

POETA DO MÊS: EUGÉNIO DE ANDRADE



GREEN GOD

Trazia consigo a graça

das fontes quando anoitece.

Era o corpo como um rio

em sereno desafio

com as margens quando desce.

Andava como quem passa

sem ter tempo de parar.

Ervas nasciam dos passos

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ele sabia

que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo o que via,

enleado na melodia

duma flauta que tocava


(Eugénio de Andrade nasceu em 19 de Janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, Fundão. Dos maiores poetas portugueses de sempre deixou-nos uma obra extensa, original, onde sobressai uma sublime musicalidade.O poema Green God transcrito integra o seu primeiro livro "As Mãos e os Frutos" am)

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS

PRAÇA DE SÃO MARCOS
Veneza


foto: arlindo pato mota

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ANO NOVO

J. Sebastián Bach. Saludo


Moderno como las olas

antiguo como la mar

siempre nunca diferente

pero nunca siempre igual



Eduardo Chillida, in Preguntas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

NATAL É COMO SE...






























NATAL É COMO SE…

Fosse a festa construída

em tempo e espaço, muito embora

a memória persistisse revestida.


Natal é como se…

Em cada um de nós surgisse

a mão estendida,

no sentido de dar e receber:

não a esmola secreta e compungida,

ou o presente inscrito no dever,

antes a ternura prosseguida.



arlindo mota

domingo, 12 de dezembro de 2010

ATÉ QUANDO? (O Difícil Mundo dos Idosos)



Os filhos da urbe, apartam-nos; os lares que constroem para eles são verdadeiras estalagens para a derradeira vagem, sem açúcar, sem afecto; a sua reforma é inferior, na maior parte dos casos, ao valor das roupas de marca que os seus netos usam; o preço dos medicamentos que lhes prolongam a vida está pela hora da morte…

Resta-lhes, como na alegoria de Elio Vitorini, seguir o trilho dos elefantes, que se apartam da manada, quando sentem que a sua utilidade chegou ao fim, dirigindo-se para norte, gigantesco cemitério de elefantes: “Consideram-se mortos e morrem”, desistem de viver. Para quando a devolução da dignidade perdida dos mais velhos; até quando estes atravessarão o presente, desculpando-se de não ter ido mais longe”, nas palavras de Brel, e se sujeitam à tirania dos que esperam o seu sono tranquilo e infinito?

arlindo mota

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

PÃO POR DEUS






























PÃO POR DEUS


Os grãos que se não colhem não existem

Ou existem entre os fios de uma mão

Que se tecem nas palavras que lavradas

Se fecundam na farinha que é o pão




arlindo mota

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

POETA DO MÊS: ALEXANDRE O'NEILL





PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testastarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal, o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!



(Feira Cabisbaixa, p.211,1965)
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Alexandre O`Neill nasceu em 19 de Dezembro de 1924 e morreu 21 de Agosto de 1986, em Lisboa. Foi um dos poetas marcantes da sua geração, conciliando o surrealismo que o marcou indelevelmente com a mais brilhante tradição satírica da literatura portuguesa. Foto retirada, com a devida vénia, do site Tormentas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

DOMINGOS DA MOTA: Bolsa de Valores


Pormenor de um quadro de Paulo Themudo

BOLSA DE VALORES

Há quem faça passar gato por lebre

e por anho ou cabrito muito cão

e se afirme credor mesmo se deve

e perjure que sim perante o não


Há quem fale em fartura quando a fome

e a sede sufocam as gargantas

e convoque o verniz do sobrenome

pra atestar o que diz até às tantas


Há quem venda ilusões como certezas

e corrompa e aguce a cupidez

e no meio de tais subtilezas

presuma branquear mais uma vez


que a bolsa de valores, em substância,

retrata o poder e a ganância


(Domingos da Mota publicou recentemente, na editora Temas Originais, de Coimbra, o livro que toma por título o nome deste poema. A sua obra ergue-se ancorada na tradição da melhor poesia portuguesa, que reescreve de uma forma própria, original, mostrando-se atenta à realidade nas suas diversas perspectivas. É, por isso, um livro que a Seda das Palavras recomenda vivamente.)

BOUTIQUE DOS RELÓGIOS PÚBLICOS



foto: arlindo pato mota

MADRID

sábado, 27 de novembro de 2010

QUANDO TINHA A IDADE...






























quando tinha a idade que um dia

hás-de ter eu tinha um sorriso e a certeza

sem saber bem porquê…



arlindo mota

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MARIAM: PRENDA SUA


Mariam é blogger de sucesso, fotógrafa e poeta de gosto apurado que tem acompanhado e incentivado a "Seda das Palavras" desde sempre...Esta foto é sua. Pô-la generosamente à minha disposição. Resta-me partilhá-la no blogue pois todo o seu sentido tem muito a ver com o seu conteúdo: a luz, os barcos, os sapais...

sábado, 6 de novembro de 2010

POETA DO MÊS: SIDÓNIO MURALHA


DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA



1

Na praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.

Búzios da praia da Areia Branca:
- um dia,
haveis de falar
unicamente do mar.


2

No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.

Ali, não são morenos nem são loiros:
- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.

Serenos, serenos, repousam os mortos,
- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os portos.

(Sidónio Muralha, nasce em Lisboa em 1920 e morre em Curitiba em 1982. Foi um dos precursores do neo-realismo português com BECO (1941). Viveu um pouco por todo o mundo. Exilou-se na Bélgica e acaba reconhecido no Brasil, onde viveu as últimas décadas da sua vida, especialmenmte pelos seus livros para um público infanto-juvenil)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ENTRE PORTOS PALAFITAS


























ENTRE PORTOS PALAFITAS

os corpos passadiços sugados pelo tempo

sobre as águas rumorejando quando em vez

anunciavam algazarras as chegadas e partiam

no silêncio das marés


ali cevei em mim uma roseira

as pétalas pegadas que deixei

meia-lua à espera à tua beira


quando o tempo nos consome

e nada mais se divisa por diante

é pura eugenia a minha fome



arlindo mota

foto: arlindo pato mota

sábado, 9 de outubro de 2010

7 PECADOS



Eis uma antologia que vale a pena integrar: porque tem corpo e alma e amizade dentro. Porque não se abriga à sombra do egoísmo ou do lucro travestido de caridade. Estabelece um círculo que vai dos seus promotores e organizadores, aos parceiros. Dois nomes traçaram o círculo virtuoso: Ibernise e José Lourenço. Para eles, pela abrangência e generosidade, o bem-haja dobrado.
arlindo mota