segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O CUME




O CUME


subiu a encosta e a cada curva saudavam-na

jasmins e sardoeiras até ao cume, ponto mais alto

onde o rosto se abre, manhã clara, em pleno

espanto


fora assim, de encosta em encosta, de cume em cume,

que acabara o dia,

no aconchego do teu corpo, abóbada celeste, e o lume

paradoxo da geometria

e seu encanto



arlindo mota

foto:arlindo pato mota

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POETA DO MÊS: AL BERTO

foto: apm
ANTES QUE O RIO ESQUEÇA...


«Olhar atentamente a civilização que nos deixaram.
Dantes podíamos virar costas à terra com a certeza de que as eiras estavam cheias de grão. Hoje apenas podemos sonhar com as eiras que não veremos nunca.
Mas as máquinas vieram para talhar a cidade que vem e o falso ouro contaminou a terra.

Tentaremos esquecer a morte que se insinua em permanência e que de tão presente já não sentimos o cheiro. Refina a morte das aves, esquece-se a vida dos peixes, morrem as árvores, degrada-se a vida dos homens.

Na memória doem os sinais dos bosques ceifados, as dunas arrasadas e algumas casas abandonadas. A memória é hoje uma ferida que lateja ao fundo da insónia.

Escavemos o chão, procuraremos essas raízes em pedra cinzelada, objectos da vida simples de outros povos. Preciosas navegações, procuraremos a velha dança à roda do mastro. Olhamos as nossas minúsculas embarcações, semelhantes a beijos que nos percorrem de felicidade.

Olhamos o mar, o espaço desses navios negros que nos escondem a linha do horizonte. No coração nada secou, nem possuímos o desastre dentro dos sonhos. A vida preciosa de vivíssimas memórias.

Com este corpo frágil e magoado, procuramos preservar a nossa memória colectiva da voragem do tempo e do abandono dos homens.»





Prosa poética de um dos grandes poetas portugueses,Alberto Pidwel (Al Berto) para um video sobre Arqueologia Naval da Margem Sul, escrito em 1985, transcrito e sob responsabilidade de arlindo pato mota, companheiro e admirador do poeta.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NEGRO EM CONTRASTE AO AZUL AVERMELHADO


entrou como uma nuvem,

pássaro negro,

fazia contraste no azul avermelhado do céu,

o cheiro de campo inundou o dia,

vinha na frente, como se fosse um suspiro do céu.

sua alegria entrou pela cozinha,

trouxe apenas o próprio ar

e o som do mundo começando...

numa caligrafia refinada,

o pensamento liberta-se da mente

e faz o papel implorar...

por maior que fosse a distância

entre o desejo e a alma,

vem suave e desce na cabeça,

faz contraste na mente branca.

...até agora a pouco não tinha nem luar.

volta num vôo,

apaga as luzes do mundo

e onde não havia nada

crescem estrelas no solo da noite...


Vania Lopez

(ainda um poema sobre "pássaros" de uma inspirada poetisa brasileira que já tem colaboração neste sítio)

foto: apm

________________________________________
Devo confessar que sou o contrário, meus passos seguem em contrário.
Sou uma pessoa inquieta, vou onde meu vento me leva. Artista Plástica e escritora, as vezes sem saber se pintoraqueescreve ou escritoraquepinta...

terça-feira, 6 de julho de 2010

POEMA AVE




Vens querida ave mapear o céu!

Com a brisa estonteia teu canto

Em brancas nuvens deposita o encanto

E vive assim pelo mundo ao léu!...


No solstício abraças a bela madrugada

Ave poema que no sonho já pousa

E no alvo ventre no céu repousa

Sentindo-se por todos tão amada!


E quando sente a fome de amar

Voa altiva pelas ondas do mar

Buscando o cinza dos olhos sinceros


Avezinha que a todos acalma

Tens nas penas o manto da alma

Como um poema ave, tens da poesia o eterno!


LEDALGE

"Com inspiração no ... poema "Teu Corpo Ave Cinzenta" de Arlindo Mota (Ledalge)"

foto: arlindo pato mota

Sou uma mulher que respira poesia; que a mantém viva dentro de si dia após dia. Sou uma sonhadora, que busca nas vielas do sonho, os contornos da vida. Essa sou eu: NÚRIA CARLA, A LEDALGE.

domingo, 20 de junho de 2010

TEU CORPO AVE CINZENTA



teu corpo ave cinzenta simulou um voo

ao encontro dos deuses, mundo dos ses,

em movimento pendular: ser e não ser,

cintilando ao retornar pela última vez


o corpo brotou manancial de água fresca

sobre delicado tapete de plátanos em flor

sem cuidar de saber se ao partir voltaria:

eclipse ou expressão circular da geometria


o corpo ave cinzenta aninhou uma última vez

no meu colo,e ali ficou, delicada,serena forma,


depois despertou tão naturalmente naquele dia,

que deixou a ilusão de ser eterno – e não seria…?



arlindo mota

sábado, 19 de junho de 2010

FOTOPOEMA: TEMPO DE PARTIDA



A terra é fresca, entumecida

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.



Foto e poema: arlindo pato mota

domingo, 30 de maio de 2010

CABO DA ESPERANÇA



Quanto custou dobrar o Cabo,

Assegurar os mantimentos

E o ânimo dos Homens?

País de marinheiros, de aventuras,

Ninguém pergunta quanto custa

Dobrar o cabo da ternura.


Dobrar o Cabo, sem perder a esperança

E ao sabor do vento navegar,

Indiferente à tempestade ou à bonança,

Ser uma ilha entre o azul e o mar.



arlindo mota

foto e poema

domingo, 23 de maio de 2010

FORA ASSIM QUE TUDO COMEÇARA...



Rios irrompiam bem por dentro

criando uma alameda junto ao mar

entre palmeiras e urzes inclinadas

que o vento modelava sem cessar.


Aí teu perfume de cedro e aloendro

anunciava um tempo mais bravio

enquanto as faces breves se tocavam

por entre camarinhas e o desejo.


Fora assim que tudo começara,

despojada candura e verdes campos:


Feliz, recorda Cibele, no seu semblante

a chegada de mais uma Primavera.



arlindo mota

foto e poema

domingo, 16 de maio de 2010

OS LOUCOS DA MINHA RUA




O ar que se respira, carbono negro, denso,

quase impuro, nada tem a ver com a cor,

nem com as guelras (do odor não me lembro),

vem da memória, dizes, talvez do coração,

pois nem o pulmão que o inspira, sente.

Assim se vão passando os dias, indolentes,

aqui no asilo, onde às árvores chamam gente,

e elas murmuram entre dentes, qualquer coisa,

que bem podia tratar-se de sementes.

Mas não, é coisa de doentes…



arlindo mota


foto de um quadro de Toni Puig

sábado, 8 de maio de 2010

A ESPADA DE DÂMOCLES


Era de Dâmocles a espada

que pendia,

embainhada,

só aparente o poder

de que gozava.

sentinela acutilante

de uma alma

vigiada,

cerceando-lhe os sonhos

que guardava,

intensos,

bem por dentro

das amarras,

no seu lado frágil

que sempre se dava

ardentemente.



Arlindo Mota
poema e foto

BILHETE POSTAL: CROMELEQUE DOS ALMENDRES


Situado a cerca de 12 km a poente da cidade de Évora, o Cromeleque dos Almendres integrava, no seu apogeu, mais de uma centena de monólitos, constituindo um recinto de estrutura complexa, fora dos cânones dos monumentos similares da Península, com paralelo apenas num pequeno universo no termo de Évora.
Apesar de se encontrar em região de forte presença de testemunhos funerários do complexo cultural megalítico, somente em 1964, no decurso dos trabalhos da Carta Geológica de Portugal, o arqueólogo Henrique Leonor Pina, identificou este recinto que constitui o maior conjunto de menires estruturados da Península Ibérica e um dos maiores da Europa. (Com a devida vénia do Turismo de Évora)

Foto: arlindo pato mota

sexta-feira, 7 de maio de 2010

EUFRÁZIO FILIPE: OCULTA NO GRASNAR DAS AVES



Os barcos ainda não tinham

abandonado o chão das águas

já vergavas o corpo

na corda tensa

enterravas os pés

e deixavas os peixes saltarem

nos teus olhos prateados

Exilada no próprio corpo

emerges deusa quase perfeita

ao pôr do sol

num desencontro de preces


mas só quando a desoras

te abres em flor e desnudas

entregas o resto das forças

a um beijo

adormeces oculta

no grasnar das aves

Eufrázio Filipe

Foto: Pedro Soares

"Em todo o livro (o recém-editado Para Lá do Azul), o autor estabelece um subtil diálogo, mais pressentido que nomeado, entre um eu e um tu onde se respira uma delicada sensualidade que percorre quase todos os poemas e onde as palavras vão serenamente, desenhando uma trignometria imperiosa dos sentidos." in Prefácio de Arlindo Pato Mota

domingo, 25 de abril de 2010

25 DE ABRIL: POEMA INCOMPLETO...




Gota a gota forjada Liberdade

Irrompeu pelas armas e a razão

Foi depois Maio a Maio confirmada


...........................................

...........................................


arlindo mota

foto: Pedro Soares de estátua de Jorge Vieira

UM LIVRO É...



UM LIVRO…


é como uma pequena ilha

num imenso oceano

de páginas brancas,

e uma ilha, de perdida,

grávida,

tem de ter dores,

paridas,

para ser vida e

alma.



arlindo mota


Dia 24 de Abril, Dia Mundial do Livro, a Livraria Culsete organizou uma Tertúlia de Leitura, que contou com a presença de autores e leitores que leram excertos de obras, em ambiente de confraternização e amor pelo livro, durante mais de três horas. À Fátima e ao Manuel Medeiros, seus organizadores e anfitriões, a palavra justa de apreço.

domingo, 18 de abril de 2010

MITO PRIMORDIAL


MITO PRIMORDIAL

Do rosto emergiu uma flor,

A flor desabrochou como queria,

Assim nasceu o Amor,

E dele a Noite e o Dia.



arlindo mota

foto: arlindo pato mota

local: Parc Guell, de Gaudi, em Barcelona

BILHETE POSTAL - O CONVENTO DA ARRÁBIDA



Em plena e deslumbrante Serra da Arrábida, junto a Setúbal, debruçado sobre o Oceano Atlântico, o Conventinho, outrora (até há cerca de dúzia e meia de anos) pertencente à Casa dos Duques de Palmela, é hoje propriedade da Fundação Oriente, que aí organiza cursos e conferências, alguns em sistema residencial. Uma preciosidade no património nacional e mundial. Aí viveu o poeta e monge Frei Agostinho da Cruz.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

DOLORES MARQUES: SUJEITO-ME...




SER SUJEITO

Que o Sujeito seja um nome,

Articulado e atento,

Ao desenrolar da vida

(Caprichosa, não cumprida,

Acidulada, vencida)

Predicativo é que não.



arlindo mota


SUJEITO-ME…

gosto de saber que me sujeito

deliberadamente,

sujeitando-me a ser um nome

no meio de tantos outros

em nome de algo que seja

a liberdade...

(Sou eu…sou assim na vontade)



Matilde D'Ônix

(Dolores Marques, que usa o pseudónimo de Matilde D'ônix, é uma poetisa de reconhecido talento e dotada de uma profunda cosmovisão que espelha bastas vezes, de forma apropriada, na sua poesia. "SUJEITO-ME", que assumidamente se inspirou no meu poema "SER SUJEITO", é uma forma muito pessoal da autora interagir com outros poetas. A sua presença no A Seda das Palavras - que dignifica, é também testemunho de amizade e de partilha.)



sábado, 10 de abril de 2010

PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?


PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?
Tag: quase pueril

Quando no duro empedrado de basalto inventávamos campos da bola onde disputávamos campeonatos intensos e eu aparecia todo esfolado mas não doía, tu ralhavas mas eu era feliz,

Quando a menina Júlia, que regressava de táxi todas as manhãs, ao sair do carro deixava entrever um pouco mais da branca pele por sob o rodado da saia, eu também não te dizia que estava lá à sua espera,

Da nossa vizinha, do andar de baixo, essa sabias, que me oferecia livros de que fiquei amigo para toda a vida: O "Sandokan" do Salgari, mas também o Júlio Dinis e Os meus Amores do Trindade Coelho, e tantos outros, de que jamais me desfiz,

Também te não falei da minha primeira namorada, que acompanhava à saída da escola todas as tardes, subindo as centenas de degraus, quase até sua casa, de mão dada, e de uma flor que, por timidez, nunca lhe dei,

Quando decidiste – eu crescera – mudar para um bairro novo de prédios grandes (mesmo que para isso labutasses noite e dia), onde se não podia jogar na rua e eu não conhecia ninguém, também não te disse como tanto gostava do bairro que acabara de deixar…

Pai, para que querias que eu fosse ainda mais feliz?


foto e texto:
arlindo pato mota

sábado, 3 de abril de 2010

ÁGUA-FORTE


ÁGUA-FORTE


Pintei o seu rosto

com a tinta que restava,

diluída,

quase se não via

a minha obra.

mas ainda brilham

os olhos que gravara,

a água-forte, na memória,

e o espelho me devolve,

a toda a hora,

a sua ausência.



arlindo pato mota

foto: Pedro Soares