quinta-feira, 25 de março de 2010

CANTO VIAJEIRO




VIAGEM: PREPARAÇÃO

Foi no tojo das palavras,

no rigor da intenção,

que rebentei as amarras,

penetrando no que são.


Cortei as asas do tempo,

perfumei o meu olhar,

e adormeci ao relento,

sem ter pressa de acordar.





NAVEGANDO

Como um vulgar marinheiro,

inventei-me num porão,

percorrendo o mundo inteiro.


Os portos foram surgindo,

mas nem por isso mais perto

me encontrei do destino,

como se fosse sumindo.


Percorri tudo, se é tudo

o que posso imaginar,

descobri novas paragens,

por cada nesga do mar,

viajei por latitudes,

ainda por localizar.





NO FIO DO HORIZONTE

Dobrei o cabo da esperança,

fundei o meu universo,

temi o vento e a bonança.


Não fui quixote, nem pança,

para tal, faltou-me o jeito.



Por fim, sentei-me num canto

- entre rio e outro rio,

entre mar e outro mar -

cansado de correr tanto,

indeciso no lugar,

aí fiquei até hoje.




FOTOS E POEMAS: arlindo pato mota

sábado, 20 de março de 2010

SOFIA (VISTA POR IBERNISE)

1.
À medida que o tempo humedecia,

crescia entre a areia do pecado,

cálida na substância e na idade.

Fez-se mulher: sumo de romã

em taça fria.


2.
Sacudiu graciosamente os ombros,

abotoou, lasciva, o último botão,

pegou na sacola, cingiu o corpete,

e partiu naquele dia, como nos demais,

mas jamais apareceria,

Sofia.


Foto e poema: arlindo pato mota


COMENTÁRIO DE IBERNISE*

Poema cadenciado num ritmo sugerido pelas rimas internas, produzindo um efeito sonoro especial, durante a declamação. Uma construção que envolve o simples numa complexidade que se expande exponencialmente.

São várias as vertentes para serem exploradas num poema riquíssimo como este, mas vou avaliar a questão da dádiva…

Sofia parece ser muito dadivosa… Mesmo se considerarmos as questões filosóficas.

Faço este destaque considerando que este excerto é cerne, que promove o entendimento das atitudes de Sofia, intencionais e manifestas:

'… cálida na substância e na idade.

Fez-se mulher: sumo de romã

em taça fria.'


A beleza lasciva chamando atenção ao último botão é de uma singeleza sem par. Uma imagem que fica… Uma mulher a abotoar o ultimo botão… Tem muito de tudo e de nada.

No entanto aqui realçando apenas a dádiva…
Os botões lembram um final, podendo lembrar uma desistência em pleno interlúdio amoroso.

O que se dá a alguém que muito quer mas às vezes não sabe receber. E assim, a graça da dádiva se torna a mácula da entrega… Mas isto n-ao nos deve impedir de sermos generosos… Como saber antes de entregar algo, se alguém vai ou não saber receber?

Sofia desaparece… Um desaparecimento que pode não ser… Sugere que poderia ser uma mudança de atitude, e como tal, crescimento implica num renascer onde o antigo ser 'deixa de ser'… Para aparecer renascido em novas atitudes, é …

Mesmo entendendo que mais vale acreditar na riqueza da dádiva do que se recusar a acreditar no amor de quem irá recebe-la… E isso todas as sofias, em algum momento da vida, precisam avaliar, nas suas escolhas.

Ainda que precisem se tornar uma nova pessoa, desaparecendo, enquanto renascem de cada experiência… Momento duro de incorporar, mas necessário para escrever uma nova história, começando pela sua própria…


(*IBERNISE, credenciada poeta brasileira, companheira do site Luso-Poemas, tem prodigalizado alguns poemas aí publicados, com comentários que são verdadeiras análises literárias, caso singular de atitude pedagógica e de amizade, que por raro e notável, não gostaria de deixar sem um registo aqui, no Seda das Palavras, com um profundo gesto de agradecimento e de carinho. arlindo pato mota

FOTOPOEMA: SONHADO LUGAR DE EXÍLIO



Peniche. Cabo Carvoeiro. 2007


Atónita, a gaivota suspende subitamente

o voo e plana, absorta, indiferente à

crescente velocidade do vento, à algazarra

das vagas, aos gritos das crias.(...)



©Foto e poema: arlindo pato mota

sexta-feira, 19 de março de 2010

JÚLIO SARAIVA: BALADA DA TERRA

"Mas nunca provei dos frutos das minhas mãos..."

De uma canção de Luís Gonzaga Jr. ou Gonzaguinha

"Malditas sejam
todas as cercas!
Malditas todas as
propriedades privadas
que nos privam
de viver e amar!"

Do poema Terra Nossa, Liberdade,
de Dom Pedro Casaldáliga,
bispo emérito de são félix do araguaia,
que trocou o palácio episcopal por uma choupana.
catalão, veio ao brasil, como missionário claretiano e foi sagrado bispo contra a sua vontade. enviou para a mãe o anel episcopal e o substituiu por uma aliança de casca de coco - símbolo da opção preferencial pelos pobres. foi várias vezes advertido pela santa sé, por seus escritos e posição política. foi várias vezes também ameaçado de expulsão do brasil na época da ditadura. vive entre posseiros e índios até hoje, numa região de conflitos.




























a terra irmão
pertence aos que nela trabalham
de sol a sol semeando o pão
que na mesa lhes falta muitas vezes
e é atirado ao lixo pelos burgueses
porco e gordo o burguês canalha
sempre dono e senhor de tudo

a terra por justiça deveria ser
de joão e de maria
de josé e de rosário
e de dolores
(tantas dores)
e dos filhos que fizeram
que andam descalços pelos campos sem escola
sem futuro sem nada
a terra não deveria ser
do mocinho bonito filho do senhor
o mocinho bonito que usa e abusa
da triste mocinha do campo
e depois a põe fora
como se fosse o final de um cigarro

a terra pertence ao lavrador
mas a ele só lhe vão dar os sete palmos medidos
como escreveu joão cabral
como escreveu dom pedro casaldáliga
como escreveu miguel torga
como escreveram outros tantos
mas nunca lhes deram ouvidos
senão a prisão
e o rótulo de agitadores
e subversivos

a terra é muita
e pertence ao povo que a fecunda
que faz crescer a semente
em troca de dinheiros minguados
a terra é de quem pega na enxada
e vive em habitações precárias
mas não é bem assim como deveria de ser
: a terra pertence ao coronel miserável
que se vale do dinheiro e do poder

enfim camarada
que somos nós senão nada?
nada nos vale escrever
a terra só enterra o pobre
ao pobre só resta morrer
e morrer...e morrer...

_____________
júlio, 15-03-10

Este poema foi-me dedicado pelo ilustre poeta brasileiro Júlio Saraiva, que facilmente percebeu que a Seda das Palavras também comporta a dimensão social de profunda solidariedade para com os mais desfavorecidos. O meu maior agradecimento e amizade.

Foto: de uma pintura elaborada por alunos que concorreram ao projecto internacional "Kids Guernica", organizado pela AMRS.

quarta-feira, 17 de março de 2010

RUPESTRE...




















Não vês, que já pouco é

aquilo em que me detenho?

Pouco lume, pouca lenha,

para atear os sentidos

debotados, deprimidos?


Por enquanto, apenas feridas,

Pelas silvas, na apanha…



arlindo pato mota

Foto: Pedro Soares do monumento "Mil Olhos", do escultor José Aurélio, que evoca o centenário do nascimento do poeta Pablo Neruda

BILHETE POSTAL: MOINHO DE MARÉ DAS MOURISCAS





















Moinho de Maré das Mouriscas, reconstruído pela Reserva Natural do Estuário do Sado

Foto: arlindo pato mota
Local: Setúbal

domingo, 14 de março de 2010

ANA COELHO: SIMPLESMENTE PALAVRAS

Presença sublime arte de saber com os

verdes anos em olhar filosófico revestidos de

convivência.

Metamorfose de natural simplicidade de ver e

ajudar a engrandecer, com danças de cores no céu pintado de aromas

e graça para além das palavras em ramos de estrelas douradas.

Nesse lugar que teço todos os sentidos que são o

albergue dos olhares que se tocam e cruzam nas marés agitadas

num pontão de quietude

que as domina.

Memórias sitiadas na morada de um inverno na busca

das fragrâncias de primavera que o coração confina.

Renascer de novo, a busca incontida no hexagonal

destino que nos abraça e dá a mão na solidão que voa no longínquo universo.

As pétalas da vida são os dedos do homem que as

acaricia e nos delícia na forma e conteúdo de toda a sua filosofia.

Oferto estas singelas palavras num dialogo de pai e

filho/a
a reflectir no respeito e admiração que teço por si.

Quando eu me for embora por certo guardarei todas

as palavras que sempre por si senti.


Para o poeta Arlindo Mota as suas próprias palavras num singelo acto de carinho.

FIXAVA OS OLHOS NUM SÓ PONTO

 
Posted by Picasa


Fixava os olhos num só ponto,

E esse ponto quase não se via,

Como que coberto por um manto

De espesso nevoeiro ou fantasia.


Nem a rudeza do vento,

Ou o saber da razão,

Lhe suspende o pensamento.

Pelo menos, por enquanto.



Arindo Pato Mota

sábado, 13 de março de 2010

MUSEU DO LOUVRE: TRADIÇÃO E MODERNIDADE




















"...fora em Paris, no Museu do Louvre, quando se encontravam naquela fila imensa que dá cor, movimento e justificação à Pirâmide" (In Alice no País do Faz-de-Conta, de Arlindo Mota)

sábado, 6 de março de 2010

SÃO GONÇALVES: POEMA PARA CIBELE

A seara está madura

os frutos prontos

a ser colhidos

nas mãos

da amizade

a ternura

dos amigos

que se deram.

I

Do olhar de uma

mulher

a luz que os homens

negaram

no corpo da musa

cibele

o renascimento

do amor almejado.

II

Mas é na hora

da partida

que o amor

mais se sente

da poesia

e do poeta

que marca

a alma

da gente.


São Gonçalves é uma talentosa poetisa, dotada de uma escrita límpida e despojada, a quem agradeço a amizade partilhada.

quinta-feira, 4 de março de 2010

"UNA FURTIVA LAGRIMA"



Peguei na roupa de Domingo,

afivelei no rosto uma rosa vermelha

e parti, como quem já viveu.

No caminho, aliviado das estrelas,

guardei uma lágrima de reserva,

sem saber se tu aparecerias pronta

para me receber.

Foi assim que tudo aconteceu

eu acordei tendo a meu lado

o travesseiro húmido e não tinha chovido

naquele dia.



Foto e Poema: arlindo pato mota

*dedicado e ao estilo de Vania Lopez,
poetisa e artista plástica que muito admiro

sábado, 27 de fevereiro de 2010

NUANCES


"Ana Coelho e José Antunes, são dois autores com uma envolvente e genuína pulsão pela poesia. Na escrita e nos gestos, que de gestos também se constrói a poesia.(...)

Ana Coelho navega mais suavemente nas palavras, é, de algum modo, o lado assumidamente feminino do livro; José Antunes, de escrita comedida, apresenta mais arestas na leitura e na interpretação da sua simbologia. Comum aos dois, a contenção vocabular e arredia da adjectivação excessiva, que torna a sua poesia rigorosa e límpida, dotada de uma invejável coerência interna"

(Arlindo Mota, in Prefácio)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

NAS LEVADAS



NAS LEVADAS

demiurga, a água

transborda

por sobre o próprio

corpo,

submergindo os dedos

que buscam

alento,

à medida que a torrente

se lhes escapa.


sorrateira, num ímpeto

de cantata,

penetra fundo,

como uma adaga

em peito aberto,

pela dor.



nas levadas,

os pássaros já não cantam

nas suas margens,

apenas ressoam

ecos, pouco audíveis,

da tragédia.




arlindo mota

foto: Turismo da Madeira


*As “levadas” são cursos de água à volta das montanhas, construídos pelo Homem nos primórdios da colonização na Madeira, para levar água aos terrenos agrícolas inacessíveis. Eram uma das atracções da Ilha.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

TRAÇADO OBLÍQUO





















A terra é fresca, entumecida,

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.


Que nada impeça

O traçado oblíquo da razão,

Nem o riso da criança,

Nem a ternura de irmão.


Percorrida em traços largos,

Ao sabor do vento forte,

Por entre o Sul e o Norte,

Da minha imaginação.


Nela encontro o que procuro.



Foto e poema: arlindo mota

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MARIAM: FOTOPOEMAS






mariam é uma das mais antigas companheiras da blogosfera e da sedadaspalavras em particular: de talentos multifacetados, da poesia à fotografia e à pintura, goza ainda da rara capacidade de gerar amizade e ânimo através do gesto e da palavra certa, no momento certo. Desde o início que fez também sua a personagem Cibele que aparece em muitos dos posts desta seda das palavras: agradeço-lho por isso e pelo magnífico fotopoema que lhe dedica (e a selecção da música das Celtic Woman que com sensibilidade escolheu). O outro fotopoema, corresponde ao primeiro poema que comentei no seu blog, pois na memória também desagua a amizade construída. apm

Celtic Woman - the Voice

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

FRUTOS PROMETIDOS

I

De súbito recolho as velas

Ao abrigo do porto, da memória,

Enquanto as águas cintilam prateadas,

Reflectindo as faces desejadas.

II

Seguros são os frutos prometidos,

Que colherás de tanto semeares,

Entre as searas abertas pelos dedos,

Que o vento ondulará quando quiser.



Foto e poema: arlindo pato mota

domingo, 7 de fevereiro de 2010

SEBASTIÃO DA GAMA: ARRÁBIDA



(...)
Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia-a-dia...


Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama ("Poeta da Arrábida")

Em 7 de Fevereiro 1952, faleceu Sebastião da Gama, com 27 anos.Fica o modesto registo. Veja-se o blog da Associação Cultural Sebastião da Gama

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AMIZADE




A Amizade


transporta-se no bojo

ou na raiz,

e, quando exígua,

está ao alcance

de uma mão,

pura,

é sua irmã,

e mesmo inerte

aperta-nos,

deixando uma marca,

húmida,

de ternura.



arlindo mota

sábado, 30 de janeiro de 2010

AUTOR DO MÊS: LUIZ PACHECO

Encontrámo-nos meia dúzia de vezes, separados pelo tempo e pela geografia: primeiro em Lisboa, na "Estampa", quando integrava a equipa dos amigos Manso Pinheiro que haviam adquirido a editora e Luiz Pacheco era um dos seus autores. Mais tarde em Setúbal, nos idos de 90, já o tempo havia cavado fundo na energia e capacidade criativa de LP, mesmo assim sempre de língua afiada para os que arvoravam a hipocrisia como sua matriz. Depois fui acompanhando as entrevistas que foram sendo publicadas e que eram a sua "prova de vida". Viveu o tempo suficiente para saber que o seu talento fora reconhecido. Morreu há dois anos, a 6 de Janeiro: Com ele morreu muito do pouco que resta de uma certa maneira de fazer literatura, de que terá sido o seu principal representante , em que a vida se confundia com a própria arte da escrita.apm

"Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com um filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. (...) Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes." Luiz Pacheco in A COMUNIDADE

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO: A OBRA DO POETA...



A OBRA DO POETA...

Na obra do poeta existe sempre

A sensação de estar incompleta,

Por mais que se esforce, faça ou tente,

A vida é limitada, curta e incerta...


Tocar os sentimentos, algo ingente,

Quão excessiva ambição é sua meta.

Escrever em rima, ou não, o quanto sente,

E se uma vez ao lê-lo em nós desperta


O sentir de um momento, plasmado

Em algo especial e..., tão diferente

Daquilo que é vulgar e consumado...


Algo inesquecível porque é arte.

Se tal for alcançado simplesmente...

Não lamente o poeta, quando parte...


António Boavida Pinheiro

O poeta António Boavida Pinheiro, que também usa o pseudónimo António dos Santos, a propósito da publicação do poema “Quando eu me for embora”, enviou a título de comentário poético, o seguinte poema que asedadaspalavras tem o maior prazer em aqui reproduzir, com os agradecimentos ao autor, cuja poesia e amizade muito aprecia.