terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

NAS LEVADAS



NAS LEVADAS

demiurga, a água

transborda

por sobre o próprio

corpo,

submergindo os dedos

que buscam

alento,

à medida que a torrente

se lhes escapa.


sorrateira, num ímpeto

de cantata,

penetra fundo,

como uma adaga

em peito aberto,

pela dor.



nas levadas,

os pássaros já não cantam

nas suas margens,

apenas ressoam

ecos, pouco audíveis,

da tragédia.




arlindo mota

foto: Turismo da Madeira


*As “levadas” são cursos de água à volta das montanhas, construídos pelo Homem nos primórdios da colonização na Madeira, para levar água aos terrenos agrícolas inacessíveis. Eram uma das atracções da Ilha.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

TRAÇADO OBLÍQUO





















A terra é fresca, entumecida,

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.


Que nada impeça

O traçado oblíquo da razão,

Nem o riso da criança,

Nem a ternura de irmão.


Percorrida em traços largos,

Ao sabor do vento forte,

Por entre o Sul e o Norte,

Da minha imaginação.


Nela encontro o que procuro.



Foto e poema: arlindo mota

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MARIAM: FOTOPOEMAS






mariam é uma das mais antigas companheiras da blogosfera e da sedadaspalavras em particular: de talentos multifacetados, da poesia à fotografia e à pintura, goza ainda da rara capacidade de gerar amizade e ânimo através do gesto e da palavra certa, no momento certo. Desde o início que fez também sua a personagem Cibele que aparece em muitos dos posts desta seda das palavras: agradeço-lho por isso e pelo magnífico fotopoema que lhe dedica (e a selecção da música das Celtic Woman que com sensibilidade escolheu). O outro fotopoema, corresponde ao primeiro poema que comentei no seu blog, pois na memória também desagua a amizade construída. apm

Celtic Woman - the Voice

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

FRUTOS PROMETIDOS

I

De súbito recolho as velas

Ao abrigo do porto, da memória,

Enquanto as águas cintilam prateadas,

Reflectindo as faces desejadas.

II

Seguros são os frutos prometidos,

Que colherás de tanto semeares,

Entre as searas abertas pelos dedos,

Que o vento ondulará quando quiser.



Foto e poema: arlindo pato mota

domingo, 7 de fevereiro de 2010

SEBASTIÃO DA GAMA: ARRÁBIDA



(...)
Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia-a-dia...


Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama ("Poeta da Arrábida")

Em 7 de Fevereiro 1952, faleceu Sebastião da Gama, com 27 anos.Fica o modesto registo. Veja-se o blog da Associação Cultural Sebastião da Gama

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AMIZADE




A Amizade


transporta-se no bojo

ou na raiz,

e, quando exígua,

está ao alcance

de uma mão,

pura,

é sua irmã,

e mesmo inerte

aperta-nos,

deixando uma marca,

húmida,

de ternura.



arlindo mota

sábado, 30 de janeiro de 2010

AUTOR DO MÊS: LUIZ PACHECO

Encontrámo-nos meia dúzia de vezes, separados pelo tempo e pela geografia: primeiro em Lisboa, na "Estampa", quando integrava a equipa dos amigos Manso Pinheiro que haviam adquirido a editora e Luiz Pacheco era um dos seus autores. Mais tarde em Setúbal, nos idos de 90, já o tempo havia cavado fundo na energia e capacidade criativa de LP, mesmo assim sempre de língua afiada para os que arvoravam a hipocrisia como sua matriz. Depois fui acompanhando as entrevistas que foram sendo publicadas e que eram a sua "prova de vida". Viveu o tempo suficiente para saber que o seu talento fora reconhecido. Morreu há dois anos, a 6 de Janeiro: Com ele morreu muito do pouco que resta de uma certa maneira de fazer literatura, de que terá sido o seu principal representante , em que a vida se confundia com a própria arte da escrita.apm

"Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com um filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. (...) Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes." Luiz Pacheco in A COMUNIDADE

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO: A OBRA DO POETA...



A OBRA DO POETA...

Na obra do poeta existe sempre

A sensação de estar incompleta,

Por mais que se esforce, faça ou tente,

A vida é limitada, curta e incerta...


Tocar os sentimentos, algo ingente,

Quão excessiva ambição é sua meta.

Escrever em rima, ou não, o quanto sente,

E se uma vez ao lê-lo em nós desperta


O sentir de um momento, plasmado

Em algo especial e..., tão diferente

Daquilo que é vulgar e consumado...


Algo inesquecível porque é arte.

Se tal for alcançado simplesmente...

Não lamente o poeta, quando parte...


António Boavida Pinheiro

O poeta António Boavida Pinheiro, que também usa o pseudónimo António dos Santos, a propósito da publicação do poema “Quando eu me for embora”, enviou a título de comentário poético, o seguinte poema que asedadaspalavras tem o maior prazer em aqui reproduzir, com os agradecimentos ao autor, cuja poesia e amizade muito aprecia.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

OLHARES



OLHARES


olhei para ti,

como um escultor

(que não precisa

de matéria).

basta-me a dor,

para dar corpo

às formas

na memória



(inspirado na tragédia do Haiti)


Foto e poema: arlindo mota

BILHETE POSTAL: BRUGES (FLANDRES)



Ler um livro magnífico de C. Clément, A SENHORA, sobre o êxodo compulsivo dos judeus de Portugal, reinava então D. Manuel I. A primeira cidade de acolhimento, Bruges, na Flandres. Bela e fria, anuncia o Norte da Europa...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

QUANDO EU ME FOR EMBORA




Quando eu me for embora, levarei comigo

a madrugada e de meu pai, suas mãos rudes,

com que moldava, a golpes incisivos, um tronco frágil

insubmisso, sempre em sentido vertical.

De minha mãe, não esqueço, a ternura que mandava, disfarçada,

por entre o pão suado e a manteiga. Assim cresci.


Quando eu me for embora, também não esquecerei os luares

que percorri, envolto em ti, sem precisar de leito. Assim cresci.


Mais tarde, pouco mais, hei-de lembrar-me daquilo que não fiz.

Mas quando eu me for embora, é porque morri, cá dentro,

por não saber cuidar de ti, amor-perfeito.




Poema: Arlindo Mota
Foto: Pedro Soares

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

POEMAS DITOS POR VÓNY FERREIRA



O SEGREDO DAS PALAVRAS

O sonho, Cibele, é uma taça, uma flor ignota, um desejo imenso

que persiste, mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore. Cativo, neste lugar,

perco a exacta noção do ser e do não ser, do tudo ou do nada,

( se é que o todo pode estar circunscrito à palavra…)


Procurarás as estrelas, que iluminarão o caminho. Se solitário, a luz é mais intensa.


Despojada de tudo, encontrarás o segredo das palavras:

ternura, amor, ou apenas sede e um sereno gesto a partilhar

na colheita de uma rosa brava.




DESEJO

Apetitoso o fruto que desejo,

Inominado, fresco, sedutor:

Prouvera fosse o tempo das cerejas,

Soubera ser o tempo do calor.

Das giestas não falo porque sei

O perfume agreste que despertam.



Estes poemas foram ditos pela poetisa Vóny Ferreira (que também coordenou o trabalho multimédia), na sequência de um trabalho que tem vindo a desenvolver no site Luso-Poemas com diversos autores. A excelência do trabalho, o empenho na sua realização, são o testemunho vital da sua generosidade e partilha. Aqui fica (e bem!) na Seda das Palavras: penhor de amizade e gratidão. arlindo mota

Voz: Vóny Ferreira
Montagem: Ana Sofia Ferreira
Poemas: Arlindo Mota

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

ALEXIS: Poema e Entrevista



Alexis é uma poetisa de vastos recursos e inteligência que navega preferencialmente no site Luso-Poemas, onde temos interagido e de onde resultou este poema dedicado à Poesia e à Filosofia, duas áreas de interesse comum.

dedicado à filosofia e à poesia

(poema)

para lá deste portão
há segredos
de uma aurora
estranha e fria.
branca e leve
esta mão
aquece cores
de um novo dia.


(entrevista)

o que há para lá do portão?
a minha pura admiração.
e o que há de estranho na aurora?
o mistério por dentro e por fora.
e como responde, então,à seguinte questão:
o que é para si a poesia?
música divina
no meu coração,
que vê na palavra
uma via.


poema: alexis
foto: apm

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHO, O NATAL E DEUS...




DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHO,O NATAL e DEUS, ENTRE CÁ E LÁ

- Gostei muito do Natal este ano.
- Porquê?
- Tive muitas prendas…
- Quem deu?
- O pai natal.
- E o menino Jesus?
-Também… olha, acreditas em Deus?
- Porque perguntas?
- Porque sim! ( E ficou, de repente, muito sério)
- Isso não é importante para ti, ainda…
- Não? Porquê?
- Porque sim, respondi.
- Porque sim, não é resposta…
- Acreditar ou não, depende de ti, não de mim, entendes?
- Sim… - e depois disse:
- E quando morreres vais para o céu?
- Não sei…
- E eu?
- Tu, vais.
… Ele ficou calado, enquanto um sorriso lhe assolava o rosto…
- Porque sorris? (perguntei, enquanto lhe fixava o olhar matreiro )
- Então, não faço os trabalhos de casa das férias do Natal!
- Porquê?
- Já não tenho medo!


Texto e foto: arlindo pato mota

sábado, 26 de dezembro de 2009

BILHETE POSTAL: PRAGA



PRAGA: Monumento a Jean Huss

Percursor da Reforma, Jean Huss representa a tentativa de emancipação da Boémia, do povo checo, dos ditames da Igreja de Roma. Acabou aos 46 anos por morrer na fogueira, condenado pela Inquisição. Consta que terá dito antes de ser queimado: "Hoje estão queimando um ganso (Hus na língua da boémia), mas dentro de um século, deparar-se-ão com um cisne. E esse cisne, vós não podereis queimar!"

Costuma-se identificar esta profecia com o aparecimento, 102 anos depois, de Lutero e a cisão que este protagonizaria entre protestantes e católicos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NAVEGAR A LUZ




Um pouco como a luz que se refracta

- em tons que só existem no luar -

assim vou percorrendo a madrugada,

côncavo como as arestas do vento,

que o sonho persiste em temperar.



Foto e poema: apm

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

LEDALGE: A Alma Poeta

A alma poeta é uma multifacetada ideologia

Um quinhão de sonhos entre os arbustos

O estancar sanguíneo diante dos suplícios

A alma poeta que tem luz, não a simples que se acende

Mas, a que transmite ao mundo clarividências ardentes

Na ponderada palavra, sem tormentas nas veias

Assim, vejo que nasceu essa alma poeta

A que partilha, acarinha, ensina e revela

Que o melhor dos sons não está no verso, mas no coração

E isso, não se aprende na escola, nem na rua, nem nas desditas...
mas sim na emoção!


Ledalge (pseudónimo de Núria Carla)
(*Publicado originalmente no site Luso-Poemas)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão…

(Para os companheiros do Luso-Poemas neste Natal 2009)

Dispensava o autocarro e ia na companhia do seu aluno que, de tanto o dizer, o queria ser. E ele condescendia, que sim, que sim senhor, um dia haveria de ser. E assim foi, que era um homem de palavra…e esta rara nele, que não gostava de se ver retratado na rádio ou na imprensa. Assim nasceu a sua primeira grande entrevista dado a um “miúdo” ao grande jornal da época das Artes e das Letras. Boa a entrevista? Podia lá ser, quanta ingenuidade havia naquela tenra idade…mas ele não se importou e com o carinho só prodigalizado a quem gostava, ajeitava a linguagem e falava como se à sua frente estivesse alguém à sua altura. Hoje, mais perto do Natal, fui-lhe tomar emprestado – porque sei que ele mo dava!... – um poema (excerto) com que me identificava, com a saudade imensa do melhor professor que alguma vez tive e do poeta e amigo que pouco fiz por merecer.

arlindo pato mota


UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.


Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto. (…)


ANTÓNIO GEDEÃO
(Publicado por Arfemo em 20 de Dezembro de 2009)