quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

QUANDO EU ME FOR EMBORA




Quando eu me for embora, levarei comigo

a madrugada e de meu pai, suas mãos rudes,

com que moldava, a golpes incisivos, um tronco frágil

insubmisso, sempre em sentido vertical.

De minha mãe, não esqueço, a ternura que mandava, disfarçada,

por entre o pão suado e a manteiga. Assim cresci.


Quando eu me for embora, também não esquecerei os luares

que percorri, envolto em ti, sem precisar de leito. Assim cresci.


Mais tarde, pouco mais, hei-de lembrar-me daquilo que não fiz.

Mas quando eu me for embora, é porque morri, cá dentro,

por não saber cuidar de ti, amor-perfeito.




Poema: Arlindo Mota
Foto: Pedro Soares

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

POEMAS DITOS POR VÓNY FERREIRA



O SEGREDO DAS PALAVRAS

O sonho, Cibele, é uma taça, uma flor ignota, um desejo imenso

que persiste, mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore. Cativo, neste lugar,

perco a exacta noção do ser e do não ser, do tudo ou do nada,

( se é que o todo pode estar circunscrito à palavra…)


Procurarás as estrelas, que iluminarão o caminho. Se solitário, a luz é mais intensa.


Despojada de tudo, encontrarás o segredo das palavras:

ternura, amor, ou apenas sede e um sereno gesto a partilhar

na colheita de uma rosa brava.




DESEJO

Apetitoso o fruto que desejo,

Inominado, fresco, sedutor:

Prouvera fosse o tempo das cerejas,

Soubera ser o tempo do calor.

Das giestas não falo porque sei

O perfume agreste que despertam.



Estes poemas foram ditos pela poetisa Vóny Ferreira (que também coordenou o trabalho multimédia), na sequência de um trabalho que tem vindo a desenvolver no site Luso-Poemas com diversos autores. A excelência do trabalho, o empenho na sua realização, são o testemunho vital da sua generosidade e partilha. Aqui fica (e bem!) na Seda das Palavras: penhor de amizade e gratidão. arlindo mota

Voz: Vóny Ferreira
Montagem: Ana Sofia Ferreira
Poemas: Arlindo Mota

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

ALEXIS: Poema e Entrevista



Alexis é uma poetisa de vastos recursos e inteligência que navega preferencialmente no site Luso-Poemas, onde temos interagido e de onde resultou este poema dedicado à Poesia e à Filosofia, duas áreas de interesse comum.

dedicado à filosofia e à poesia

(poema)

para lá deste portão
há segredos
de uma aurora
estranha e fria.
branca e leve
esta mão
aquece cores
de um novo dia.


(entrevista)

o que há para lá do portão?
a minha pura admiração.
e o que há de estranho na aurora?
o mistério por dentro e por fora.
e como responde, então,à seguinte questão:
o que é para si a poesia?
música divina
no meu coração,
que vê na palavra
uma via.


poema: alexis
foto: apm

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHO, O NATAL E DEUS...




DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHO,O NATAL e DEUS, ENTRE CÁ E LÁ

- Gostei muito do Natal este ano.
- Porquê?
- Tive muitas prendas…
- Quem deu?
- O pai natal.
- E o menino Jesus?
-Também… olha, acreditas em Deus?
- Porque perguntas?
- Porque sim! ( E ficou, de repente, muito sério)
- Isso não é importante para ti, ainda…
- Não? Porquê?
- Porque sim, respondi.
- Porque sim, não é resposta…
- Acreditar ou não, depende de ti, não de mim, entendes?
- Sim… - e depois disse:
- E quando morreres vais para o céu?
- Não sei…
- E eu?
- Tu, vais.
… Ele ficou calado, enquanto um sorriso lhe assolava o rosto…
- Porque sorris? (perguntei, enquanto lhe fixava o olhar matreiro )
- Então, não faço os trabalhos de casa das férias do Natal!
- Porquê?
- Já não tenho medo!


Texto e foto: arlindo pato mota

sábado, 26 de dezembro de 2009

BILHETE POSTAL: PRAGA



PRAGA: Monumento a Jean Huss

Percursor da Reforma, Jean Huss representa a tentativa de emancipação da Boémia, do povo checo, dos ditames da Igreja de Roma. Acabou aos 46 anos por morrer na fogueira, condenado pela Inquisição. Consta que terá dito antes de ser queimado: "Hoje estão queimando um ganso (Hus na língua da boémia), mas dentro de um século, deparar-se-ão com um cisne. E esse cisne, vós não podereis queimar!"

Costuma-se identificar esta profecia com o aparecimento, 102 anos depois, de Lutero e a cisão que este protagonizaria entre protestantes e católicos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NAVEGAR A LUZ




Um pouco como a luz que se refracta

- em tons que só existem no luar -

assim vou percorrendo a madrugada,

côncavo como as arestas do vento,

que o sonho persiste em temperar.



Foto e poema: apm

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

LEDALGE: A Alma Poeta

A alma poeta é uma multifacetada ideologia

Um quinhão de sonhos entre os arbustos

O estancar sanguíneo diante dos suplícios

A alma poeta que tem luz, não a simples que se acende

Mas, a que transmite ao mundo clarividências ardentes

Na ponderada palavra, sem tormentas nas veias

Assim, vejo que nasceu essa alma poeta

A que partilha, acarinha, ensina e revela

Que o melhor dos sons não está no verso, mas no coração

E isso, não se aprende na escola, nem na rua, nem nas desditas...
mas sim na emoção!


Ledalge (pseudónimo de Núria Carla)
(*Publicado originalmente no site Luso-Poemas)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão…

(Para os companheiros do Luso-Poemas neste Natal 2009)

Dispensava o autocarro e ia na companhia do seu aluno que, de tanto o dizer, o queria ser. E ele condescendia, que sim, que sim senhor, um dia haveria de ser. E assim foi, que era um homem de palavra…e esta rara nele, que não gostava de se ver retratado na rádio ou na imprensa. Assim nasceu a sua primeira grande entrevista dado a um “miúdo” ao grande jornal da época das Artes e das Letras. Boa a entrevista? Podia lá ser, quanta ingenuidade havia naquela tenra idade…mas ele não se importou e com o carinho só prodigalizado a quem gostava, ajeitava a linguagem e falava como se à sua frente estivesse alguém à sua altura. Hoje, mais perto do Natal, fui-lhe tomar emprestado – porque sei que ele mo dava!... – um poema (excerto) com que me identificava, com a saudade imensa do melhor professor que alguma vez tive e do poeta e amigo que pouco fiz por merecer.

arlindo pato mota


UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.


Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto. (…)


ANTÓNIO GEDEÃO
(Publicado por Arfemo em 20 de Dezembro de 2009)

sábado, 19 de dezembro de 2009

A POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO...





Cidadão de causas, assim se manteve até hoje, e disso este livro, editado pela

Câmara do Seixal, trata desta vez, justamente. Poeta, utiliza e utilizou a pena,

para ajudar a brotar a poesia que nasce nas flores da liberdade. Político, não

esqueceu as artes e os seus criadores. Poeta, foi erguendo a sua obra, na mesa dos

despachos. Um e outro - o mesmo - teimaram na coerência. Disso fui testemunha

privilegiada.


Texto: apm
Livro: Seixal Somos Todos Nós
Textos e Intervenções Eufrázio Filipe

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

NATAL COMO SE...



Poemas editados no site Luso-Poemas. Fica meu agradecimento a Sterea, poetisa que muito admiro, pela sua autorização de publicação no blog.


Fosse a festa construída

em tempo e espaço, muito embora

a memória persistisse revestida.


Natal é como se…

Em cada um de nós surgisse

a mão estendida,

no sentido de dar e receber:

não a esmola secreta e compungida,

ou o presente inscrito no dever,

antes a ternura prosseguida.



arlindo mota


Natal é como se...

fosse moeda de troca

o calor de um abraço

e se perfumasse o espaço

com fumos brancos de incensos,

com ramos verdes de paz...

e no rosto, o toque rubro

de um sorriso sem estudo,

só a luz que o amor faz..



Sterea

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A SEGUIR



O silêncio total e um sorriso

é quanto a mim já peço e mais preciso.

Um silêncio de amor e entendimento,

em que o mundo é o mesmo, mas conciso.


Aceito que é um grande atrevimento

ir assim cultivando um sentimento

que me possa igualar a morte à vida,

sem de nada sentir ressentimento;


mas não consigo ver a despedida

como um erro qualquer da natureza:

amor à morte é muito amor à vida.


O Mundo é o sonho da Beleza

jamais por sofrimentos destruída.

Calar a dor! Sorrir esta certeza.



Resendes Ventura /pseudónimo literário de Manuel Medeiros

in "PAPEL A MAIS"

domingo, 13 de dezembro de 2009

DEBRUANDO A LUZ...



Disseste que os teus olhos já não conseguiam debruar a luz como faziam antigamente…que agora tacteiam a memória, mas enganam-se, frequentemente, na paisagem.
Não esqueceste a fragrância do desejo, entre fráguas e a verdura das encostas, por entre a limpidez do murmúrio das águas. Por isso, manténs as portas entreabertas e subsiste no teu colo uma infância por crescer. Abrigar-me-ás, decerto, em noite de lua cheia. Habituado ao ritmo dos sapais, acatarei a próxima maré para te acolher, tufos de verde acariciarão os teus cabelos em reflexos desfocados pelo movimento lânguido das águas do estuário.

A voz terá sempre um timbre inconfundível, prenhe de iodo e limos. Eu, aguardarei apenas a ténue luz dos vaga-lumes para assistir ansioso à tua chegada, roupas coladas ao corpo naquele teu jeito insinuante de faz-de-conta. Ainda hoje, sinto o movimento das tranças presas no exacto momento em que um inesperado eclipse do luar deixara a tua pele, deliciosamente branca, nas minhas mãos acabadas de acordar. Surripiei-te, então, tudo o que tinhas e comigo guardei – precioso bem! – uma vermelha flor liquefeita, daquele primeiro dia em que fiz amor contigo.

“Poemas para Cibele”

O VELHO LIVREIRO...



É um livro original e consequente de uma "espécie em vias de extinção": o livreiro. Neste caso Resendes Ventura, o Manuel Medeiros, da Culsete, de Setúbal, onde se fizeram inúmeros lançamentos de escritores renomados e outros menos conhecidos, todos aí encontraram porta aberta, a afabilidade, o conhecimento e a amizade pela leitura e pelos autores. Não resisto a transcrever, com alguma emoção, as palavras imerecidas que me dedica:

"Uma roda de amigos partilhando a emoção e o sabor das palavras», deixou-nos escrito nesse serão Arlindo Mota. O precioso objecto que é o seu livro de poemas A Seda das Palavras. E o inevitável percorrer dos «percursos percorridos». Haviam passado muitos anos "desde que recebi na redacção da A-Z, num diálogo sobre a colaboração na revista, o activo jovem universitário Arlindo Mota. Como havíamos de advinhar? Setúbal esperava-nos, para aqui fazermos, os dois, o longo percurso que nos trouxe até este serão. Sem consulta prévia, ter-nos-á, este serão, sido (aí)marcado? Para que não duvide, basta apropriar-me de um dos teus versos: «foram destinos aceites»."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

VANIA: Dentro deles mesmo que de havaianas




foi ali bem no meio de mim
me lembro
de ter uma taça de vinho entre nós
e muitos pés
me lembro de cada rosto
do resto da história duvido
por certo que de alguns
só restou um pé de sapato
não importa
doces encontros
abraço cada um
como nunca abracei antes
só quero saber
a hora de deixar a porta aberta
chamar meus amigos
sentados pela vida
deixar a vida sentada em mim
ah, e eu dentro deles
mesmo que de havaianas


Vania Lopez

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Vania Lopes, artista plástica e poeta,de nacionalidade brasileira, acrescenta, ao talento que se lhe reconhece, uma capacidade de criar laços, numa postura permanente de colaboração, partilha e amizade. Fica aqui este pequeno registo, que outros se seguirão, certamente, se houver oportunidade...

arlindo mota

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PÁSSARO CEGO - Manuel Paulo e Nancy Vieira

A voz quente da cabo-verdeana Nancy Vieira para a música de Manuel Paulo e as letras de João Monge justificaram a ida ao São Luiz num dia de temperatura amena e chuva esparsa e doce. Se o espectáculo ainda precisa de ser mais trabalhado, os ingredientes estão lá, que os músicos e a voz merecem os nossos entusiásticos aplausos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DIA DE ANIVERSÁRIO




Um dia de aniversário

Não surge assim de repente,

Teorema ou corolário?

Substância ou acidente?

Nem uma coisa, nem outra,

Apenas fruto do tempo,

Das folhas do calendário.




arlindo mota
Foto e poema

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*




Órfão milenar, a profissão a herdara dos pais:

Nela se mantinha, sem orgulho, nem credo,

Apregoando, baixinho, a sua mercadoria.

E, assim, lá ia vendendo o seu ódio,

Quase a medo…



arlindo mota


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*Título de um filme escrito e realizado por Bahman Ghobad, sobre a realidade das crianças curdas refugiadas durante a guerra, mas que se poderia aplicar, de igual modo, aos palestianos, enfim às crianças “que nunca foram, meninos”, cujo horizonte é a guerra e o ódio que ela gera, ou vice-versa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O POETA DO MÊS: António Gedeão



António Gedeão (pesudónimo leterário do professor liceal, investigador e divulgador científico Rómulo de Carvalho, nasceu em 26 de Novembro de 1906)


O que António Gedeão pensava da poesia portuguesa do seu tempo


Há naturalmente um excesso de carga negativa, que é a mais superficial, como sucede

nos átomos e, portanto, a que tem actividade mais viva e permanente. Decerto

incomoda ler tantos e tantos poemas indistintos, de uma dúzia de autores que

poderiam ser o mesmo pela ausência de indicativo pessoal. Foi sempre assim. O que

interessa é que existam, como de facto existem, poetas de primeira grandeza na

poesia nacional dos nossos dias.


(In entrevista realizada por arlindo pato mota para o Jornal De Artes e Letras, por ocasião da 1ª edição do livro "POESIAS COMPLETAS" de António Gedeão)


Quadro a óleo: Hugo Silva