quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A SEGUIR



O silêncio total e um sorriso

é quanto a mim já peço e mais preciso.

Um silêncio de amor e entendimento,

em que o mundo é o mesmo, mas conciso.


Aceito que é um grande atrevimento

ir assim cultivando um sentimento

que me possa igualar a morte à vida,

sem de nada sentir ressentimento;


mas não consigo ver a despedida

como um erro qualquer da natureza:

amor à morte é muito amor à vida.


O Mundo é o sonho da Beleza

jamais por sofrimentos destruída.

Calar a dor! Sorrir esta certeza.



Resendes Ventura /pseudónimo literário de Manuel Medeiros

in "PAPEL A MAIS"

domingo, 13 de dezembro de 2009

DEBRUANDO A LUZ...



Disseste que os teus olhos já não conseguiam debruar a luz como faziam antigamente…que agora tacteiam a memória, mas enganam-se, frequentemente, na paisagem.
Não esqueceste a fragrância do desejo, entre fráguas e a verdura das encostas, por entre a limpidez do murmúrio das águas. Por isso, manténs as portas entreabertas e subsiste no teu colo uma infância por crescer. Abrigar-me-ás, decerto, em noite de lua cheia. Habituado ao ritmo dos sapais, acatarei a próxima maré para te acolher, tufos de verde acariciarão os teus cabelos em reflexos desfocados pelo movimento lânguido das águas do estuário.

A voz terá sempre um timbre inconfundível, prenhe de iodo e limos. Eu, aguardarei apenas a ténue luz dos vaga-lumes para assistir ansioso à tua chegada, roupas coladas ao corpo naquele teu jeito insinuante de faz-de-conta. Ainda hoje, sinto o movimento das tranças presas no exacto momento em que um inesperado eclipse do luar deixara a tua pele, deliciosamente branca, nas minhas mãos acabadas de acordar. Surripiei-te, então, tudo o que tinhas e comigo guardei – precioso bem! – uma vermelha flor liquefeita, daquele primeiro dia em que fiz amor contigo.

“Poemas para Cibele”

O VELHO LIVREIRO...



É um livro original e consequente de uma "espécie em vias de extinção": o livreiro. Neste caso Resendes Ventura, o Manuel Medeiros, da Culsete, de Setúbal, onde se fizeram inúmeros lançamentos de escritores renomados e outros menos conhecidos, todos aí encontraram porta aberta, a afabilidade, o conhecimento e a amizade pela leitura e pelos autores. Não resisto a transcrever, com alguma emoção, as palavras imerecidas que me dedica:

"Uma roda de amigos partilhando a emoção e o sabor das palavras», deixou-nos escrito nesse serão Arlindo Mota. O precioso objecto que é o seu livro de poemas A Seda das Palavras. E o inevitável percorrer dos «percursos percorridos». Haviam passado muitos anos "desde que recebi na redacção da A-Z, num diálogo sobre a colaboração na revista, o activo jovem universitário Arlindo Mota. Como havíamos de advinhar? Setúbal esperava-nos, para aqui fazermos, os dois, o longo percurso que nos trouxe até este serão. Sem consulta prévia, ter-nos-á, este serão, sido (aí)marcado? Para que não duvide, basta apropriar-me de um dos teus versos: «foram destinos aceites»."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

VANIA: Dentro deles mesmo que de havaianas




foi ali bem no meio de mim
me lembro
de ter uma taça de vinho entre nós
e muitos pés
me lembro de cada rosto
do resto da história duvido
por certo que de alguns
só restou um pé de sapato
não importa
doces encontros
abraço cada um
como nunca abracei antes
só quero saber
a hora de deixar a porta aberta
chamar meus amigos
sentados pela vida
deixar a vida sentada em mim
ah, e eu dentro deles
mesmo que de havaianas


Vania Lopez

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Vania Lopes, artista plástica e poeta,de nacionalidade brasileira, acrescenta, ao talento que se lhe reconhece, uma capacidade de criar laços, numa postura permanente de colaboração, partilha e amizade. Fica aqui este pequeno registo, que outros se seguirão, certamente, se houver oportunidade...

arlindo mota

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PÁSSARO CEGO - Manuel Paulo e Nancy Vieira

A voz quente da cabo-verdeana Nancy Vieira para a música de Manuel Paulo e as letras de João Monge justificaram a ida ao São Luiz num dia de temperatura amena e chuva esparsa e doce. Se o espectáculo ainda precisa de ser mais trabalhado, os ingredientes estão lá, que os músicos e a voz merecem os nossos entusiásticos aplausos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DIA DE ANIVERSÁRIO




Um dia de aniversário

Não surge assim de repente,

Teorema ou corolário?

Substância ou acidente?

Nem uma coisa, nem outra,

Apenas fruto do tempo,

Das folhas do calendário.




arlindo mota
Foto e poema

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*




Órfão milenar, a profissão a herdara dos pais:

Nela se mantinha, sem orgulho, nem credo,

Apregoando, baixinho, a sua mercadoria.

E, assim, lá ia vendendo o seu ódio,

Quase a medo…



arlindo mota


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*Título de um filme escrito e realizado por Bahman Ghobad, sobre a realidade das crianças curdas refugiadas durante a guerra, mas que se poderia aplicar, de igual modo, aos palestianos, enfim às crianças “que nunca foram, meninos”, cujo horizonte é a guerra e o ódio que ela gera, ou vice-versa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O POETA DO MÊS: António Gedeão



António Gedeão (pesudónimo leterário do professor liceal, investigador e divulgador científico Rómulo de Carvalho, nasceu em 26 de Novembro de 1906)


O que António Gedeão pensava da poesia portuguesa do seu tempo


Há naturalmente um excesso de carga negativa, que é a mais superficial, como sucede

nos átomos e, portanto, a que tem actividade mais viva e permanente. Decerto

incomoda ler tantos e tantos poemas indistintos, de uma dúzia de autores que

poderiam ser o mesmo pela ausência de indicativo pessoal. Foi sempre assim. O que

interessa é que existam, como de facto existem, poetas de primeira grandeza na

poesia nacional dos nossos dias.


(In entrevista realizada por arlindo pato mota para o Jornal De Artes e Letras, por ocasião da 1ª edição do livro "POESIAS COMPLETAS" de António Gedeão)


Quadro a óleo: Hugo Silva

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A ALDEIA, Lugar de nascimento



Parece a Grande Casa de Romarigães, solar puqueno, história quase desconhecida, mas que faz o pleno da errância de férias entrecortadas dos lugares onde nsci, mas onde não cresci. Os grandes cães que assomovam aos portões aterrorizavam-me, quando distraído, passeava ao longo do gradeamento. Dos senhores, jamais lhe vi o rosto. Do edifício, felizmente não caiu em ruínas, mas precisa de obras profundas de restauração. E aí estará o gato, que a aldeia é pequena, e não há tradição em portugal de salvaguardar o património, a substituir os cães, só que quem tem medo desta vez, como se percebe pelo olhar, é ele...






Texto e fotos: apm

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PRECOCEMENTE, O OUTONO



Poema dito por José Silveira, querido poeta, que do Brasil enviou este abraço com o todo o talento e amizade da sua voz. Obrigado "amigoirmão"!


Dantes tinha muitos amigos, bebíamos e cantávamos enquanto o rio desaguava a desoras no cais da ribeira, junto às margens do teu corpo. Não tínhamos sede, nem pressa de chegar. A vida em delta, foi-nos separando, mas tudo parecia continuar a fazer sentido.

Agora, os amigos desse tempo abrigam-se quase todos na memória, o céu mudou de cor e já não há mar que nos sossegue.

Quero de volta o azul e não consigo. Telefono, escrevo, envio mails, mas sinto-me estranho na vídeo-conferência.

Levantamos os copos – que estão vazios ou meio-cheios – numa comunhão que antes entendia ser perfeita e sinto que já não há sagração possível. O tempo, diz a meteorologia e a cor dos teus cabelos, mudou...


Voz: José Silveira
Poema: Arlindo Mota
Publicação original: Site Luso-Poemas

sábado, 24 de outubro de 2009

A EMOÇAO DA COR



Quem controla o desejo, a emoção

ou a ternura?

A paleta, responde o pintor.

A palavra, atalha o poeta.

Juntos, distribuem a luz

que inunda de cor o planeta.



Foto e poema: apm

terça-feira, 20 de outubro de 2009

FLOR DE SAL nos ANOS 60




A convite de Fernando Casanova, proprietário do bar Anos 60, "FLOR DE SAL" foi objecto de animada tertúlia no dia 15 de Outubro. O autor e a obra foram apresentados pela Drª Vera Silva. A curiosidade pelo documento e a época riquíssima a que se reporta, os anos 30 do século passado, na emergência e consolidação da ditadura do Estado Novo, promoveram animado debate entre os presentes, que no final sempre conduzia ao material ficcional. As diversas e riquíssimas experiências em confronto abriram o apetite para a direccção que o autor tomou no desenvolvimento da obra romanesca. FLOR DE SAL ficou um pouco mais conhecida e desejada.

Foto: A.Batista
Texto: apm

domingo, 18 de outubro de 2009

TU CÁ, TU LÁ - Antologia Poética




Dia 17 de Outubro, teve lugar a apresentação de uma antologia de poesia que teve a particularidade de nascer no mundo virtual, constituída por poemas de 15 autores. Muitos deles com blogs próprios e/ou com um traço comum no site Luso-Poemas: Dolores Marques, José Luís Lopes, Ana Coelho, António MR Martins, José António Antunes, São Gonçalves, Lurdes Dias (Cleo), Luis Ferreira, AnaMar, Carlos Filipe Conchinha, Conceição Bernardino, Gonçalo, Lobo Pinheiro, J.C.Patrão, Liliana Maciel, Miriam Costa.


A festa foi bonita, num lugar soberbo (Manutenção Militar), num espaço museológico revestido de azulejos oitocentistas, que revestia a padaria da manutenção militar. Uma antologia de palavras e de amizade congregou os presentes, numa festa animada onde a poesia e os poetas tiveram o lugar central. Parabéns para todos e obrigado por ter oportunidade de rever em carne e osso amigos do mundo virtual



apm

BILHETE POSTAL: VENEZA




Estou alojado junto à Piazza San Marco, num pequeno palacete recuperado com uma

dúzia de quartos que me faz retroceder séculos. Daqui pode-se ir a pé,

atravessando pontes ancoradas na memória e que nem os milhares de turistas

perturbam. Aqui as pessoas podem anonimamente dar as mãos, trocar carícias,

beijarem-se, ou andar apenas pelas singulares “fondamenta”, passeio sublime junto

às margens do canal. Hoje o nosso destino é a Ponte di Rialto., fascínio dos

sentidos, pela sua localização e história. À noite, no regresso, a angústia do

filme de Visconti invade,-me, imaginando a peste e a impossível fuga pelas ruelas da

cidade medieval. Que a libertação é interior, diz-se…


texto e foto: apm

terça-feira, 13 de outubro de 2009

FREDERICO SALVO: Rochedo

Eu não sei ser diferente

Só sou o que sou.

Não adianta você me querer

Como você sonhou.

É duro saber que um sonho

Está muito além da realidade.

É duro saber que a verdade

Nem sempre nos convém.


Não me condene

Por eu não ser como você,

Pois eu teria defeitos

Que você nem vê.

Não deixe a porta aberta

Quando você sair.

Saudade é coisa incerta,

Pode querer vir.


Não quero estar à deriva

Quando a saudade chegar.

Quero ser um rochedo

Plantado à beira-mar.

Luz que brilha sozinha

Em meio à escuridão.


...Deixa passar o verão.




Frederico Salvo.

(Querido amigo e poeta brasileiro, companheiro no Luso-Poemas, cujo poema está musicado e cantado pelo autor) Cf. Post anterior

mp3

domingo, 11 de outubro de 2009

REFLEXÃO

Subitamente

O rumo se fez tempo e ao longe

O amanhecer se recortara.


A quem cabe o fortuito,

O desgarrado,

O repensar o acaso, o absoluto,

O misterioso esgar e

A impoluta coragem,

A razão dia a dia perscrutada,

E a fuga ciclicamente repetida?


Arqueados, no cais, retomamos

O alento da manhã. Caminhamos.



Autoria: apm

sábado, 10 de outubro de 2009

JACQUES BREL - NE ME QUITTE PAS - LEG.EM PORTUGUES

Ela ofereceu-me um disco de Brel, eu um de Zeca Afonso; ela era francesa, de Bordéus, eu de Lisboa. Ela era a minha correspondente e nunca nos chegámos a conhecer pessoalmente. Os dois autores eram o nosso esperanto e a minha esperança. “Ne me quitte pas”…
(por ocasião do 30 aniversario da morte de Jacques Brel)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

70 POEMAS POR UM SORRISO



Numa iniciativa muito bonita, esteve em Setúbal o poeta António Paiva para lançar um livro cuja receita revertou a favor da APPACDM e que envolveu muitas pessoas, cujo nome aqui fica: Vanda Paz, Susana Moura, Alexandra Paz, Fernanda Esteves, entre outros.

70 poemas por um Sorriso é, mais do que uma dádiva, um acto de solidariedade activa. Há outras formas de ajudar, dir-se-á, mas esta é genuína e este sorriso dgno de registo. Sorriso esse que teve a acompanhá-lo ao piano mestre Rui Serôdio, numa sessão animada por Américo Pereira.

O nosso sorriso para os nossos meninos e jovens da APPACDM que também disseram poemas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ATÉ QUANDO? (No dia mundial dos idosos)




Os filhos da urbe, apartam-nos; os lares que constroem para eles são verdadeiras estalagens para a derradeira vagem, sem açúcar, sem afecto; a sua reforma é inferior, na maior parte dos casos, ao valor das roupas de marca que os seus netos usam; o preço dos medicamentos que lhes prolongam a vida está pela hora da morte…

Resta-lhes, como na alegoria de Elio Vitorini, seguir o trilho dos elefantes, que se apartam da manada, quando sentem que a sua utilidade chegou ao fim, dirigindo-se para norte, gigantesco cemitério de elefantes: “Consideram-se mortos e morrem”, desistem de viver. Para quando a devolução da dignidade perdida dos mais velhos; até quando estes atravessarão o presente, desculpando-se de não ter ido mais longe”, nas palavras de Brel, e se sujeitam à tirania dos que esperam o seu sono tranquilo e infinito?

arfemo