quarta-feira, 16 de setembro de 2009

COMO A ARTE DE FURTAR É MUITO NOBRE

Este texto é de um autor anónimo do século XVII, atribuído muitas vezes ao Padre António Vieira, nunca confirmado, e trouxe-o à colação a propósito disto e daquilo...(i.e. a arte é mui antiga e vai-se perpetuando, pela “eternidade e mais um dia”

“Mais fácil achou um prudente que seria acender dentro do mar uma fogueira que espertar, em um peito vil, fervores da nobreza. Contudo ninguém me estranhe chamar nobre à arte, cujos professores, por leis divinas e humanas, são tidos por infames. Essa é a valentia desta arte (…) de gente vil faz fidalgos, porque onde luz o oiro não há vileza.

E prouvera a Deus não tivera tanto de nobre, pois vemos que e tudo o mais que tem preço; e os sujeitos em que se acha são, por meus pecados, os mais ilustres. E para que não engasgue algum escrupuloso nesta proposição, com a máxima de que não há ladrão que seja nobre, pois o tal ofício traz consigo extinção de todos os foros da nobreza (…) entendo o meu dito segundo o vejo exercitado em homens tidos e havidos pelos melhores do mundo, que no cabo são ladrões, sem que o exercício da arte os deslustre, nem abata um ponto do timbre de sua grandeza.”

INTERIORES




Que rio atravessa a alma,

e a inunda de lodos e ramagens?

Indiferente a desejos e ternura,

incapaz de suscitar novas paisagens.



foto e poema: apm

A arte de furtar

A Arte de Furtar de Jorge de Sena

JORGE DE SENA

Os restos mortais de Jorge de Sena voltaram finalmente a Portugal, de uma forma porventura demasiado discreta para a dimensão do poeta e crítico literário que se vira obrigado a exilar-se no regime de Salazar.Associamo-nos publicando este poema da nossa antologia poética virtual "VERDES ANOS". apm


UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

(in FIDELIDADE, 1958)

domingo, 6 de setembro de 2009

FESTROIA: 25 Anos é muito tempo..



Teve início o 25º FESTRÓIA, desde há alguns anos fixado em Setúbal. Num país onde as grandes distribuidoras americanas ditam o que podemos ver, a simples existência deste certame é um evento a não perder, pela variedade de cinematografias em exibição, pelos filmes que provavelmente jamais serão exibidos em Portugal. Aqui deixarei um ou outro apontamento que a oportunidade e o tempo permitir. Destaque para o país convidado: República Checa. A não perder.


apm

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

FOTOPOEMA: Numa Palavra...




Dizer, numa palavra, que é o vento,

inóspito e glorioso das manhãs,

e assim, permanecer, para todo o sempre.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

JORGE PÉ-CURTO




Tomei contacto pela primeira vez com a obra de Jorge Pé-Curto através da Arte Pública. Haviam-me ficado na retina duas peças que integravam o roteiro que estava nessa altura a elaborar: o bombeiro e e a viagem, peças de escala relativamente pequena, de feição figurativa, delicadas e suavemente alegóricas. Se assim me captavam a atenção entre centenas de peças é porque guardavam em si qualquer coisa de singular. A viagem posterior ao interior do seu universo criativo reforçou esta primeira impressão: há na obra do escultor uma originalidade que dispensa obscuras exegeses retóricas, pois exibe uma qualidade afectiva que aproxima e potencia a sua percepção pelo espectador e onde emerge a linguagem irónica que são já uma das marcas d'água do seu universo artístico.

domingo, 23 de agosto de 2009

REENCONTRO




Em tudo o tempo se houvera,

Como se fora também,

Aconchego de menino

Nos braços de sua mãe.








Fotos e poema: arlindo mota

NUNCA FUI MAL PROCEDIDO

asedadaspalavras evoca aquele que terá sido, antes de António Aleixo, o mais conhecido poeta popular português, tendo merecido a honra de ver prefaciada uma recolha dos seus poemas (“Versos do Cantador de Setúbal”, 1901) por Guerra Junqueiro, e que, no início da década de 80, estava completamente esgotado pelo que a SALPA, Associação de Defesa do Património de Setúbal, me encarregou de organizar uma antologia de António Maria Eusébio “O Calafate” de onde retirei este poema.

Nunca fui mal procedido,

Nunca fiz mal a ninguém,

Se acaso fiz algum bem,

Não estou d’isso arrependido.

Se mau pago tenho tido,

São defeitos pessoais;

Todos seremos iguais

No reino da eternidade;

Na balança da igualdade

Deus sabe quem fez mais.



António Maria Eusébio “O Calafate”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009



FLOR DE SAL:Pré-lançamento em Alcochete

O romance "FLOR DE SAL" teve o seu pré-lançamento, no dia 20 de Junho, na Biblioteca Municipal de Alcochete, local onde se passa grande parte da trama, respondendo ao apelo da vereação, cujo executivo, presidido pelo seu presidente Dr. Luis Franco, fez questão em estar presente, bem como o presidente da Assembleia Municipal, Miguel Boieiro e outros representantes autáerquicos. O autor do prefácio, Professor José Barata-Moura não pôde estar presente, cabendo a apresentação à Dr.ª Vera Silva. Para Outubro está previsto o lançamento do romance em Setúbal. Transcrevemos do resumo da contracapa a sinopse do editor e do prefácio:


Anos trinta. Salazar acabara de chegar ao Poder. Um amor proibido cresce por entre as areias do pecado e da intriga política, envolto numa atmosfera onde a mulher, rebaixada à condição de objecto, dificilmente se soltava das amarras sociais que a diminuíam e se assistia à implantação de um clima quotidiano de medo
(in sinopse do Editor)

As narrativas que ides ler correspondem a um exercício romanesco. Trata-se, portanto, de ficção; mas de uma ficção que mantém vivo o atrito com as realidades que lhe dão corpo, e que, por sua vez, ajuda a penetrar com finura de análise e com pertinência de composição; servindo-se de intertextualidades de diversa extracção, desdobra-lhe as incidências que apontam e aportam a um competente contexto…Arlindo Mota dá-nos a ver, e a pensar, toda uma pequena trama de episódios que pontuaram, com os seus jogos e teias de pequenos poderes de expressão local e de apadrinhamentos mais altos, a mesquinhez sórdida de um salazarismo quotidiano. In Prefácio de José Barata-Moura

PRAZERES




Foto: arlindo mota

terça-feira, 11 de agosto de 2009

MAR ADENTRO






Metódica, Cibele colhia a escassa chuva

na concha das suas mãos vazias.


Com os dedos esguios, habilmente, entrelaça-a,

pingo a pingo, como se fora um colar. Por fim, esbelta

e delicada, afoita-se , por entre o agreste das aroeiras,

mar adentro, oceano acabado de lavrar.



Poema e foto: arlindo mota

terça-feira, 9 de junho de 2009

FLOR DE SAL (Excerto II)

DO CASAMENTO INFELIZ DE MARIA MADALENA E DE COMO ELA SE ACABARA POR LIVRAR DELE


Maria Madalena tinha ainda bem presente a forma como tivera de enfrentar a sociedade da vila onde fora nascida e criada, tudo porque ousara libertar-se da clausura de um casamento infeliz, mesmo se o marido, alcoólico inveterado e mulherengo, lhe batia até deixar marcas, entre outras ofensas que preferia agora ignorar. Na inocência dos seus vinte anos, e se a principio acolhera com resignação aquela escolha da família, uma revolta surda ia-se apoderando dela, até à gota de água de uma amante mantida pelo cônjuge, sem pudor ou recato. Desobedecendo à lei e aos costumes, resistiu tenazmente às fantasias libidinosas que Castro Franco, o marido, de quando em vez, sobre ela, qual presa agrilhoada, intentava prepretar. Valera-lhe a mãe, senhora bondosa e austera, que conhecendo o descalabro físico e moral em que a vida da filha se havia transformado, lhe fornecia discreto, mas vital apoio, naquela luta desigual pela dignidade. Ajudara-a até a afastar-se, a pretexto de maleita do espírito, para casa de uma tia, numa vila que distava mais de duzentos quilómetros por entre acessos ruins. Aí ficou, até que as suas faces voltassem a ficar rosadas e, por vezes, até, chegar a assomar naquele rosto doce, um sorriso, se não de felicidade, pelo menos de alívio pela distância e esquecimento que aquela sempre traz.

O marido, contudo, não desistira e ameaçava constantemente ir por ela, apesar de advertido para o facto de a sua presença não ser benquista e nisso o tio mostrava uma bravura diferente do pai e, economicamente bem acolchoado na vida, dera ordens aos criados para manterem discreta vigilância a fim de se assegurar que Castro Franco não voltava a contactar a sobrinha sem o consentimento dela. Ameaçada pela justiça, fora nesse contexto que haveria de conhecer e apaixonar por Gouveia e Mello, que após terminar o seu curso de direito, se fixara, provisoriamente, na terra de origem dos pais, onde começara a exercer advocacia. Fora nessa qualidade que o tio os apresentara e ele passara a frequentar, cada vez com mais assiduidade, o solar da família.

Os serões eram agora mais animados com a presença quase diária do Advogado que, apesar do seu ar sisudo, parecia transfigurar-se na presença de Maria Madalena. Esta, por seu turno, quase se esquecera da triste condição em que, ainda tão nova, se vira mergulhada, sem vislumbrar saída, nem ânimo para o fazer. Quando a jovem senhora, a instâncias do tio, se recreava tocando, com graciosidade, peças de alguns conhecidos compositores clássicos, que lhe evocavam uma infância feliz, onde todos os sonhos ainda eram possíveis, Gouveia e Mello ficava extasiado a ouvi-la, fixando demoradamente aquelas mãos ágeis que voavam sobre as teclas, provocando sons vibráteis, que não deixavam de o inquietar. Outra noite fora a sua vez de, encorajado pelos anfitriões, recitar poemas de autores portugueses, como era comum fazer nas tertúlias. E como declamava bem, pensava no seu íntimo Maria Madalena.
Nos finais de tarde dos dias mais quentes, deambulavam pelo jardim frondoso, plantado há mais de um século por Moreira da Cunha, avô de Sampaio e Cunha, seu tio. Fora aí que, certo dia, Gouveia e Mello, recatadamente, mas com ternura, lhe endereçara tímidas palavras que faziam advinhar intenções que iam para além da simples amizade o que, decididamente, lhe fez estremecer o coração, apesar de não ser nada que já não suspeitasse.

Apesar dos seus esforços, não conseguiu evitar que, indomáveis, um par de lágrimas fossem mansamente caindo pelo rosto, enquanto lia a prosa que, sob a forma de alegoria, não podia ter outro destinatário senão ela.


Arlindo Mota


Foto apm

quinta-feira, 14 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

COMO NO COMEÇO

Tudo tão simples como no começo,

Quando o fogo incendeia, a mão aquece,

E o pensar o acaso não esquece

As palavras inscritas sobre a areia.


Sobretudo, há o aconchegar da infância

Entre as mãos carregadas de ternura,

E há a calmaria e a ventura,

A sede e o amor em abundância.




Poema: apm