segunda-feira, 31 de agosto de 2009

JORGE PÉ-CURTO




Tomei contacto pela primeira vez com a obra de Jorge Pé-Curto através da Arte Pública. Haviam-me ficado na retina duas peças que integravam o roteiro que estava nessa altura a elaborar: o bombeiro e e a viagem, peças de escala relativamente pequena, de feição figurativa, delicadas e suavemente alegóricas. Se assim me captavam a atenção entre centenas de peças é porque guardavam em si qualquer coisa de singular. A viagem posterior ao interior do seu universo criativo reforçou esta primeira impressão: há na obra do escultor uma originalidade que dispensa obscuras exegeses retóricas, pois exibe uma qualidade afectiva que aproxima e potencia a sua percepção pelo espectador e onde emerge a linguagem irónica que são já uma das marcas d'água do seu universo artístico.

domingo, 23 de agosto de 2009

REENCONTRO




Em tudo o tempo se houvera,

Como se fora também,

Aconchego de menino

Nos braços de sua mãe.








Fotos e poema: arlindo mota

NUNCA FUI MAL PROCEDIDO

asedadaspalavras evoca aquele que terá sido, antes de António Aleixo, o mais conhecido poeta popular português, tendo merecido a honra de ver prefaciada uma recolha dos seus poemas (“Versos do Cantador de Setúbal”, 1901) por Guerra Junqueiro, e que, no início da década de 80, estava completamente esgotado pelo que a SALPA, Associação de Defesa do Património de Setúbal, me encarregou de organizar uma antologia de António Maria Eusébio “O Calafate” de onde retirei este poema.

Nunca fui mal procedido,

Nunca fiz mal a ninguém,

Se acaso fiz algum bem,

Não estou d’isso arrependido.

Se mau pago tenho tido,

São defeitos pessoais;

Todos seremos iguais

No reino da eternidade;

Na balança da igualdade

Deus sabe quem fez mais.



António Maria Eusébio “O Calafate”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009



FLOR DE SAL:Pré-lançamento em Alcochete

O romance "FLOR DE SAL" teve o seu pré-lançamento, no dia 20 de Junho, na Biblioteca Municipal de Alcochete, local onde se passa grande parte da trama, respondendo ao apelo da vereação, cujo executivo, presidido pelo seu presidente Dr. Luis Franco, fez questão em estar presente, bem como o presidente da Assembleia Municipal, Miguel Boieiro e outros representantes autáerquicos. O autor do prefácio, Professor José Barata-Moura não pôde estar presente, cabendo a apresentação à Dr.ª Vera Silva. Para Outubro está previsto o lançamento do romance em Setúbal. Transcrevemos do resumo da contracapa a sinopse do editor e do prefácio:


Anos trinta. Salazar acabara de chegar ao Poder. Um amor proibido cresce por entre as areias do pecado e da intriga política, envolto numa atmosfera onde a mulher, rebaixada à condição de objecto, dificilmente se soltava das amarras sociais que a diminuíam e se assistia à implantação de um clima quotidiano de medo
(in sinopse do Editor)

As narrativas que ides ler correspondem a um exercício romanesco. Trata-se, portanto, de ficção; mas de uma ficção que mantém vivo o atrito com as realidades que lhe dão corpo, e que, por sua vez, ajuda a penetrar com finura de análise e com pertinência de composição; servindo-se de intertextualidades de diversa extracção, desdobra-lhe as incidências que apontam e aportam a um competente contexto…Arlindo Mota dá-nos a ver, e a pensar, toda uma pequena trama de episódios que pontuaram, com os seus jogos e teias de pequenos poderes de expressão local e de apadrinhamentos mais altos, a mesquinhez sórdida de um salazarismo quotidiano. In Prefácio de José Barata-Moura

PRAZERES




Foto: arlindo mota

terça-feira, 11 de agosto de 2009

MAR ADENTRO






Metódica, Cibele colhia a escassa chuva

na concha das suas mãos vazias.


Com os dedos esguios, habilmente, entrelaça-a,

pingo a pingo, como se fora um colar. Por fim, esbelta

e delicada, afoita-se , por entre o agreste das aroeiras,

mar adentro, oceano acabado de lavrar.



Poema e foto: arlindo mota

terça-feira, 9 de junho de 2009

FLOR DE SAL (Excerto II)

DO CASAMENTO INFELIZ DE MARIA MADALENA E DE COMO ELA SE ACABARA POR LIVRAR DELE


Maria Madalena tinha ainda bem presente a forma como tivera de enfrentar a sociedade da vila onde fora nascida e criada, tudo porque ousara libertar-se da clausura de um casamento infeliz, mesmo se o marido, alcoólico inveterado e mulherengo, lhe batia até deixar marcas, entre outras ofensas que preferia agora ignorar. Na inocência dos seus vinte anos, e se a principio acolhera com resignação aquela escolha da família, uma revolta surda ia-se apoderando dela, até à gota de água de uma amante mantida pelo cônjuge, sem pudor ou recato. Desobedecendo à lei e aos costumes, resistiu tenazmente às fantasias libidinosas que Castro Franco, o marido, de quando em vez, sobre ela, qual presa agrilhoada, intentava prepretar. Valera-lhe a mãe, senhora bondosa e austera, que conhecendo o descalabro físico e moral em que a vida da filha se havia transformado, lhe fornecia discreto, mas vital apoio, naquela luta desigual pela dignidade. Ajudara-a até a afastar-se, a pretexto de maleita do espírito, para casa de uma tia, numa vila que distava mais de duzentos quilómetros por entre acessos ruins. Aí ficou, até que as suas faces voltassem a ficar rosadas e, por vezes, até, chegar a assomar naquele rosto doce, um sorriso, se não de felicidade, pelo menos de alívio pela distância e esquecimento que aquela sempre traz.

O marido, contudo, não desistira e ameaçava constantemente ir por ela, apesar de advertido para o facto de a sua presença não ser benquista e nisso o tio mostrava uma bravura diferente do pai e, economicamente bem acolchoado na vida, dera ordens aos criados para manterem discreta vigilância a fim de se assegurar que Castro Franco não voltava a contactar a sobrinha sem o consentimento dela. Ameaçada pela justiça, fora nesse contexto que haveria de conhecer e apaixonar por Gouveia e Mello, que após terminar o seu curso de direito, se fixara, provisoriamente, na terra de origem dos pais, onde começara a exercer advocacia. Fora nessa qualidade que o tio os apresentara e ele passara a frequentar, cada vez com mais assiduidade, o solar da família.

Os serões eram agora mais animados com a presença quase diária do Advogado que, apesar do seu ar sisudo, parecia transfigurar-se na presença de Maria Madalena. Esta, por seu turno, quase se esquecera da triste condição em que, ainda tão nova, se vira mergulhada, sem vislumbrar saída, nem ânimo para o fazer. Quando a jovem senhora, a instâncias do tio, se recreava tocando, com graciosidade, peças de alguns conhecidos compositores clássicos, que lhe evocavam uma infância feliz, onde todos os sonhos ainda eram possíveis, Gouveia e Mello ficava extasiado a ouvi-la, fixando demoradamente aquelas mãos ágeis que voavam sobre as teclas, provocando sons vibráteis, que não deixavam de o inquietar. Outra noite fora a sua vez de, encorajado pelos anfitriões, recitar poemas de autores portugueses, como era comum fazer nas tertúlias. E como declamava bem, pensava no seu íntimo Maria Madalena.
Nos finais de tarde dos dias mais quentes, deambulavam pelo jardim frondoso, plantado há mais de um século por Moreira da Cunha, avô de Sampaio e Cunha, seu tio. Fora aí que, certo dia, Gouveia e Mello, recatadamente, mas com ternura, lhe endereçara tímidas palavras que faziam advinhar intenções que iam para além da simples amizade o que, decididamente, lhe fez estremecer o coração, apesar de não ser nada que já não suspeitasse.

Apesar dos seus esforços, não conseguiu evitar que, indomáveis, um par de lágrimas fossem mansamente caindo pelo rosto, enquanto lia a prosa que, sob a forma de alegoria, não podia ter outro destinatário senão ela.


Arlindo Mota


Foto apm

quinta-feira, 14 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

COMO NO COMEÇO

Tudo tão simples como no começo,

Quando o fogo incendeia, a mão aquece,

E o pensar o acaso não esquece

As palavras inscritas sobre a areia.


Sobretudo, há o aconchegar da infância

Entre as mãos carregadas de ternura,

E há a calmaria e a ventura,

A sede e o amor em abundância.




Poema: apm

domingo, 26 de abril de 2009

FORMAS DE ABRIL



35 Anos do 25 de Abril:Repito o que escrevi para um livro que um Homem Bom (Dr.

Costa Leal, então presidente do Montepio Geral e que, entretanto, já nos deixou)

tornou possível com o patrocínio do MFA: FORMAS DA LIBERDADE: "Dos Capitães de Abril

e do Movimento das Forças Armadas que, em 1974, derrubaram o regime que durante

quase meio século oprimiu o povo português que memória se guarda, para além da

seda das palavras - cravo, generosidade,

desprendimento?". Dez anos depois, novo livro, agora promovido pela AMRS faz à sua

maneira, a evocação emocionada de uma data que foi pretexto para algumas excelentes

criações de Arte Pública, promovidas pelas autarquias locais.


FOTO, de Pedro Soares, para CAPA de Ivone Ralha. Texto de Arlindo Mota

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ROMANCE "FLOR DE SAL"

Anos trinta. Salazar acabara de chegar ao Poder. Um amor proibido cresce por entre

as areias do pecado e da intriga política.


Arlindo Mota



DE COMO NEM SEMPRE EM TERRA DE CEGOS QUEM TEM UM OLHO É REI...

Nos já longínquos anos trinta do século passado, aconteceram coisas extraordinárias na Vila, na altura pequena povoação ribeirinha do Tejo, afeiçoada aos toiros e farta em marinhas de sal, de casario baixo, disposto paralelamente ao rio, agradável à vista e propiciador de encontros ocasionais entre vizinhos.

Fora aí que o meu bisavô, o licenciado em Direito Artur Homem de Gouveia e Mello, acabara por se fixar, após deambular por seca e meca, exercendo funções de Chefe de Secretaria da respectiva Câmara Municipal, lugar com alguma importância social, mas de baixa remuneração e, como haveremos de topar lá mais para diante, não isenta de perigos, não pelos requisitos especiais da profissão, para a qual estava por demais preparado, mas por motivos que decorriam de outro foro, de contornos políticos associados à implantação do Estado Novo então emergente.

No Clube da Vila era hábito reunirem-se as pessoas gradas da terra, tão só homens, que a isso obrigavam os estatutos da associação e os costumes conservadores daquela época em que às mulheres estava reservado o governo doméstico e o cuidar dos filhos. Gouveia e Mello usava jogar as damas e xadrez com alguns poucos companheiros que partilhavam o mesmo gosto, um pouco raro – reconheça-se - naquele meio onde o prato forte das conversas versavam os toiros, os forcados e as lides, e as histórias incidiam, amiúde, sobre a bravura duma pega de caras mais destemida, que quase sempre deixara marcas físicas, troféus que os rapazes se orgulhavam em ostentar e que captava a atenção das raparigas.

Naquele lugar, onde o tempo era uma sucessão de dias sem grandes motivos de interesse, os hábitos sociais eram um bálsamo para a acídia e um refúgio para o tédio. Duas a três vezes por semana, Gouveia e Mello cumpria o ritual, só quebrado pelas festas concelhias ou pela época balnear – onde se acolhia com a família a Sesimbra, terra piscatória e hospitaleira, apenas com o senão da deslocação se fazer por caminhos íngremes, estreitos e irregulares. Por vezes, a política local atravessa-se na conversa, mas, por uso, não era tema que lhe merecesse mais do que palavras de circunstância, o que ia bem com o carácter circunspecto por que era tido em conta pela generalidade dos convivas.

(Fora aí que Gouveia e Melo acompanhara pelas emissões do Rádio Clube Português – que alinhava abertamente pelos franquistas – as peripécias da Guerra Civil de Espanha. Fora aí também que provavelmente fora urdida a intriga, trôpega mas insidiosa, que serviria de base ao levantamento de um processo disciplinar que o poderia levar à expulsão da Função Pública, coisa que de inicio o chefe de secretaria não levara a peito. Mas não nos adiantemos ao normal curso das coisas...)

Escrupuloso funcionário, não descurava os seus deveres políticos, que as circunstâncias e o tempo exigiam a inscrição na União Nacional e a comparência aos actos oficiais para que era convocado. Mas o acaso quis confrontá-lo entre dois valores: o de obedecer à lei, o que estava de acordo com a sua consciência e com a aura que granjeara de funcionário que sempre prouvera a defesa acérrima dos interesses da Câmara, ou fazer a vontade a meia dúzia de membros da União Nacional, decerto industriados por alguém poderoso que se escondia na sombra, e que, à margem da lei, insistiam na inclusão nos cadernos de “chamadas” eleitorais destinados à eleição da I Assembleia Nacional, de indivíduos que, face à lei vigente, não tinham direito a voto. Perante a insistência, e querendo alijar responsabilidades, bem como a consciência, consultou particularmente o Governador Civil sobre o que deveria fazer. A resposta, também por escrito e com carácter oficial, confirmou o acerto da interpretação de Gouveia e Mello, o que deixou enfurecidos os representantes locais da União Nacional.

Não obstante aquela informação, pessoa da confiança do governador, viera junto dele, três escassos dias antes do envio dos cadernos, para que nele se incluíssem os nomes dos tais indivíduos. Assim se fez, o que deixou o chefe de secretaria taciturno, e fora motivo – confessá-lo-ia mais tarde ao seu amigo, o desembargador Bernardo Coutinho – para pedir transferência para o Ministério das Obras Públicas, em Lisboa. (A inclusão de pessoas à margem da lei nos cadernos eleitorais era então prática corrente: apesar dos partidos políticos estarem proibidos e a oposição não se poder exprimir livremente nas urnas, o regime de então apreciava resultados gordos o que naquelas condições era um apelo à “chapelada” - que os mortos eram chamados a votar, asseverava o meu bisavô, e a História confirma.)

Mas esta atitude de colaboração não lhe trouxe o apaziguamento dos acólitos locais da União Nacional que, a partir daí, lhe foram fazendo guerra surda no sentido de o afastar do cargo que ocupava. Os pomos da discórdia sucediam-se: as reuniões da União Nacional realizavam-se nas instalações dos Paços do Concelho e Gouveia e Mello, apurando que após a sua realização se verificava, reiteradamente, o desaparecimento de artigos de expediente da secretaria, ordenou, com a aprovação do Presidente da Câmara, que apenas as chaves que dessem acesso ao gabinete do Administrador do Concelho, fossem entregues aos membros da Comissão Concelhia da União Nacional. Tanto bastou para que o ódio fosse medrando entre os correligionários afectados que, aproveitando a saída do presidente da Câmara, o qual nutria particular apreço pelo carácter e trabalho desenvolvido pelo Chefe da Secretaria na recuperação das finanças da autarquia e na organização dos serviços que se encontravam, quando assumira funções, em estado caótico, reuniram um conjunto de acusações, que tomadas a sério, significaria não apenas a demissão compulsiva da função pública, como a sujeição a tribunal militar, por traição à pátria, pois como consta dos autos de acusação, o pobre do meu bisavô não só teria levantado obstáculos ao sucesso das eleições, conforme se relatou, como, de acordo com o testemunho de um indivíduo, com fama de ébrio, conhecido por “Mesuras”, quando da sublevação dos marinheiros do aviso Afonso de Albuquerque e do contratorpedeiro Dão, no estuário do Tejo, em Setembro de 1936, cujos estampidos de artilharia se haviam ouvido distintamente, alarmando a vila, teria tido conhecimento dos acontecimentos com antecedência e exteriorizado a sua satisfação perante as vizinhas exclamando em ar de desafio: “Agora é que se vai ver quem ganha...”.


Excertos primeiro capítulo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

"LICEUS UNIDOS"

Lugares de encontro os liceus é assim que eu ainda me lembro deles por entre a intolerância a falta de ar a indiferença. Liceus Unidos acabou naturalmente por ser a senha o logotipo a marca o distintivo que no espírito e lapela identificava uma forma de ser uma postura um desafio, que os homens da gabardina estavam por todo o lado e a eternidade, ente abstracto e inexistente, assomava-se como definitiva.
Recordo a Pró-Asociação dos liceus e tantas amigas e amigos:Teresa Taborda, José Vasconcelos; Vitor Oliveira Jorge; Tito Cardoso e Cunha; José Arnaud; Teresa Bento; Arlindo Pato; Teresa Oliveira; Mário Barroso; Joaquim Vital, entre muitos outros.

Adeus (Palavras Gastas)

UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumiére

just a little light

una piccola…em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a advinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça

Brilhando indefectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

Indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

Como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

No meio de nós.

Brilha.



JORGE DE SENA
(in FIDELIDADE, 1958)

"CHORA Ó TERRA BEM AMADA"




"Chora ó Terra Bem Amada" (o livro que foi um grito de revolta, comovente, mobilizador), o apartaide, Mandela, fazem, entre outras coisas, parte das nossas vivências. As eleições que ora ocorrem em liberdade e multirracial, entre um mar de dificuldades, são, apesar de tudo isso, um bom sinal.

apm

segunda-feira, 20 de abril de 2009

ROMANCE

Não era noite nem dia

Não era noite nem dia.

Eram campos campos campos

abertos num sonho quieto.

Eram cabeços redondos

de estevas adormecidas.

E barrancos entre encostas

cheias de azul e silêncio.

Silêncio que se derrama

pela terra escalavrada

e chega no horizonte

suando nuvens de sangue.

Era hora do poente.

Quase noite e quase dia.


E nos campos campos campos

abertos num sonho quieto

sequer os passos de Nena

na branca estrada se ouviam.

Passavam árvores serenas,

nem as ramagens mexiam,

e Nena, pra lá do morro,

na curva desaparecia.


Já de noite que avançava

os longes escureciam.

Já estranhos rumores folhas

entre as esteveiras andavam,

quando, saindo um atalho,

Veio

debruçou-se da encosta

com os cabelos caídos!

Não eram ladrão de estradas

Nem caminheiro pedinte,

nem nenhum maltês errante.

Era António Valmorim

que estava na sua frente.

Não era ladrão de estradas,

- Ó nena de Montes Velhos,

se te quisessem matar

quem te haverá de acudir?

Sob este corpo justinho

Uniram-se os seios de Nena.

- Vai-te António Valmorim

Não tenho medo da morte,

Só tenho medo de ti.


Mas já noite fechava

a saída dos caminhos.

Já do corpete bordado

os seios de Nena saíam

- como duas flores abertas

por escuras mãos amparadas!

Ai que perfume se eleva

do campo de rosmaninho!

Ai como a boca de Nena

se entreabre fria fria!

Caiu-lhe da mão o saco

junto ao atalho das silvas

e sobre a a sua cabeça

o céu de estrelas se abriu

Ao longe subiu a lua

Como um sol inda menino

passeando na charneca...

Caminhos iluminados

eram fios correndo cerros.


Era um grito agudo e alto

que uma estrela cintilou.

Eram cabeços redondos

de estevas surpreendidas.

Eram campos campos campos

abertos de espanto e sonho...



MANUEL DA FONSECA

PEREGRINAÇÃO A LUGARES DA MEMÓRIA


Escultura: Celestino Moreira


A evocação dos verdes anos é uma peregrinação a lugares da memória a que me tinha

sempre mostrado avesso, e cuja evocação traz ainda à flor da pele a escuridão da

ditadura e os mecanismos que nos condicionava a existência, a par de circunstâncias

e pessoas que arvoram a solidariedade como força motriz da sua existência. Colocado

nos pratos da balança, o agreste cedeu aos momentos de maresia, curtos, breves, mas

intensos.



Arlindo Pato Mota

sábado, 18 de abril de 2009

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testastarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal, o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!



Alexandre O´Neil, 1965
ANTOLOGIA "VERDES ANOS"

sexta-feira, 17 de abril de 2009

CÉLERE COMO UM GRITO OU O RUBOR

Os olhos,Cibele, espelham, transparentes,

a tonalidade das emoções, o prodígio

inesperado do arco-íris, a sensualidade

do requebro das marés.


Cercado nos limites dos sentidos, o teu

olhar, luminoso, é avidamente procurado:

célere, como um grito ou o rubor,

neles me fixo, qual tenaz ou

dedo de criança.




Poema: apm

sábado, 11 de abril de 2009

PERCURSO PERCORRIDO

Foram anos de procura,

Sem curso de marinhagem,

Nem leme ou rumo traçado,

Sem a menor equipagem.


Foram destinos aceites,

Sem uma prévia demão,

Horizontes encobertos,

Sem perceber a razão.


Foram temas de romance,

E heróis mal preparados,

Cavalgadas sem destino,

De antemão fracassadas.




Poema: apm



Foto: apm

segunda-feira, 6 de abril de 2009

MEIA JORNADA

Quando a viagem é meia, já tornada,

Impelida pelo vento ou ressentida

Da calmaria ou sede de viver,

Por vezes reaparece a maresia

E tudo pode ainda acontecer:

O perfume agreste, a malvasia,

Ou a loucura de ver nascer o dia

De quem passa o dia sem o ver.


E onde está o Homem está o sonho,

Nem que seja um filho por nascer.




Poema: apm



Foto: apm

sexta-feira, 3 de abril de 2009

MULHERES DA NAZARÉ

Nas margens, à beira de água

nos resquícios das marés,

vagueiam, como respiram,

as mulheres da Nazaré.


A maresia é seu jeito,

o casario rodapé,

os barcos sugerem leitos

da vida, tal como é.



Poema: apm



Foto: apm

sexta-feira, 27 de março de 2009

RENASCER DE NOVO

I


Cibele, acrisolada nos seus olhos húmidos, apelava à demasia da

vida, buscando na solidão alimento para a inquietude.


Sabia que, muitos anos volvidos, a repetição dos seus gestos, aparentemente inúteis,

eram como que uma flor resguardada de ventos, por entre o ímpeto reprimido de

paixões.

II


Dia a dia, mecanicamente, resistia ao luar e ao sol, a luz natural ofuscava-lhe essa

ténue alegria que guardava, secreta e compungida.


Certos dias, raros, chispavam em si o brilho do desejo, e viam-na caminhar,

solitária, o rosto e a voz ocultando o mais profundo do seu ser.


III

Que fazer, afinal, dessa flor tão serenamente resguardada,

cuja seiva era a dádiva de uns olhos permanentemente

húmidos?

IV

Nesse dia, igual a tantos outros, subitamente,

irrompera nela uma vontade, inesperada,

de partilhar o sonho, a maresia, o calor

ou a geada, mesmo que o tempo persistisse

a monótona cidadela de um Outono.


Soubera, enfim, que renascera para a vida.



Poema: apm



Foto: apm

sábado, 21 de março de 2009

MEDITAÇÃO

Quem controla o desejo, a emoção

ou a ternura?

A paleta, responde o pintor.

A palavra, atalha o poeta.

Juntos, distribuem a luz

Que inunda de cor o planeta.


Poema: apm
DIA MUNDIAL DA POESIA

ENCONTRO HEXAGONAL

O encontro foi hexagonal

- De resto desconhecia

Qual a forma original.


Como seria possível

Ainda manter-se de pé,

A cerca que outrora havia

No mundo da geometria

De um convento que não é,

Se não fora a Poesia?




Poemas: apm
DIA MUNDIAL DA POESIA




Foto: apm

segunda-feira, 16 de março de 2009

NAS MARGENS DO TEMPO

Nas margens do tempo, por dentro de mim,

procurei o rio, remirei as águas,

e, nos requebros esperados da maré,

recuperei a infância, fiz um balancé:

Foi o voltear incessante entre o riso,

o pranto, a descrença e a fé;

e nas águas constantes que fluem,

compreendi a mudança que não é.



Poema: apm



Foto: apm

quarta-feira, 4 de março de 2009

ENTRE AS AREIAS FINAS DAS MARGENS

Recordar-me-ei das tuas mãos entrelaçadas,

como se os dias fossem sumindo

entre as areias finas das margens.

O sol pouco a pouco fenecia, enquanto

os fios das lágrimas de diamantes eram

explosões inesperadas de gotas de água.


Ternamente, foi-me afluindo à memória

a paragem dos dias, a leveza dos

pequenos gestos, a maré cíclica das

emoções, a plenitude inconclusiva.




Poema: apm



Foto: apm

domingo, 1 de março de 2009

ESCANÇÃO DOS SONHOS

Ledo, o tempo redefine

as margens, coarcta a

emoção, medeia a

ternura.


Nele, o amor, escanção

dos sonhos, experimenta

a pureza dos sentidos.




Poema: apm


Foto: apm

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SOFIA

1.
À medida que o tempo humedecia,

crescia entre a areia do pecado,

cálida na substância e na idade.

Fez-se mulher: sumo de romã

em taça fria.


2.
Sacudiu graciosamente os ombros,

abotuou, lasciva, o último botão,

pegou na sacola, cingiu o corpete,

e partiu naquele dia, como nos demais,

mas jamais apareceria,

Sofia.




Poema: apm



Foto: Pedro Soares sobre escultura pública de José Aurélio

domingo, 22 de fevereiro de 2009

MARIA BETHÂNIA EM LISBOA

Uma vez de quando em quando Maria Bethânia, dádiva de Yemanjá, derrama na sua voz aveludada e única, ao vivo, a seda das palavras dos poetas da língua portuguesa. Com inteligência faz, com os compositores e músicos que a acompanham, momentos únicos, inesquecíveis, como estou certo que uma vez mais vai acontecer nos próximos dias 27 e 28 no Coliseu de Recreios.(Recordo a extraordinária homenagem a Fernando Pessoa no seu disco e concerto IMITAÇÃO DA VIDA trancrevendo o poema "Aniversário" de Álvaro de Campos, que diz de forma sublime.)

ANIVERSÁRIO

"No dia em que festejavam o dia dos meus anos.

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos.

E a alegria de todos, e a minha,

estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma.

De ser inteligente para entre a família.

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. "

Maria Bethania - olhos nos olhos - chico buarque

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

AS OSTRAS LIMITARAM-SE A PARTIR

(Ciclo medido, desnudado,

Como as águas de um rio

Desovado)


Cravadas nas margens circulam

palavras de ordem. De resto

foi assim que tudo começou:

As ostras limitaram-se a partir;

As carreiras fluviais intensificaram-se.

Quando a minha filha nasceu,

os golfinhos secundaram o baptismo.




Entretanto, os petroleiros acostaram;

a rosa albardeira empalideceu

um pouco. O ritmo das marés

não parecia alterado.

Na outra margem, dunas de cimento

invadiram as cetárias.




Hoje – diz-se - nas águas sobreaquecidas

do rio, reapareceram sereias.





Foto e poema: apm


Tróia, meses atrás

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

SABEDORIA

Então, graciosamente, Cibele trouxe-lhe um pouco de água cristalina no regaço,

jovem e esbelto, ao que o velho sábio retorquiu, na sua voz débil, porém

firme: "Ainda é tempo de colheita?"




Poema: apm

A SEDA DA SOLIDARIEDADE E DO TALENTO

em trânsito por Setúbal conheci-te ao vivo, simples na tua imensa complexidade,

calcorreámos os caminhos solidários do café central, do círculo cultural, das

colectividades, franqueaste-me a casa, partilhaste os amigos, apoiaste as pequenas

lutas daqueles dias cinzentos, com a tua música e presença...por isso fiquei. tu

partiste antes do tempo...mas ficaste para sempre como um símbolo de generosidade e

talento que agregava, que continua a agregar velhas,novas e contínuas gerações. a

morte saiu à rua num dia cinzento de fevereiro, do velhinho ginásio da escola

comercial...

Zeca Afonso - Filhos da Madrugada!

nana

sábado, 14 de fevereiro de 2009

PRESENÇA

Escalámos obscuros portos,

Assinaladas rotas, pesqueiros revisitados

Nas noites de viagens interditas.

No começo foi assim. Com o tempo

retomamos circunspectos a tonalidade.

O arco-íris - dirás? Ainda não.

Serpenteamos desejos, reconhecemos

amantes,

- e tu, em todo o caso, lá estarás -

Por antecipação.




Poema: apm

CIDADELA

O tempo era a monótona cidadela

de um Outono. Lentamente, as

asas emudeceram e se colaram,

secamente, uma a uma.



Poema: apm



Foto: Cília Costa

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

POEMA DO HOMEM SÓ

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.


Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros não se explicam:

arrefecem.


Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.


Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.


Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos,

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.


Mas este íntimo secreto

que no silêncio concentro,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.




António Gedeão



Foto de Cília Costa de Quadro de Hugo Silva

domingo, 8 de fevereiro de 2009

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.


Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pesoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.

(...)

ANTOLOGIA POÉTICA VERDES ANOS(II)




ANTÓNIO GEDEÃO
O pedagogo excepcional, o poeta da musicalidade e do rigor, o homem austero e generoso que "doou" a sua primeira grande entrevista ao Jornal de Letras e Artes a um miúdo, ex-aluno, cuja poesia os cantores não tardaram a descobrir imortalizando-o, e dando-o a conhecer, em vida, a uma grande fatia do povo português. Dele seleccionei um poema, de que publico um excerto da mais pura seda das palavras.

CABO DA ESPERANÇA

Quanto custou dobrar o Cabo,

Assegurar os mantimentos

E o ânimo dos Homens?

País de marinheiros, de aventuras,

Ninguém pergunta quanto custa

Dobrar o cabo da ternura.


Dobrar o Cabo, sem perder a esperança,

E ao sabor do vento navegar,

Indiferente à tempestade ou à bonança,

Ser uma ilha entre o azul e o mar.



Foto e poema: apm

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

DIA DE ANIVERSÁRIO

Um dia de aniversário

Não surge assim de repente.

Teorema ou corolário?

Substância ou acidente?

Nem uma coisa, nem outra,

Apenas fruto do tempo,

Das folhas do calendário.




Poema: apm

ADIVINHA

Se os anos são primaveras

Em início de estação,

Adivinha em forma ave:

Ainda faz ninho o Verão?


Pelos dias, pelas noites

Em que a razão se desfia,

Se transforma, se recria:

Ternura, coita de amor?

Ou apenas mais um dia?


Solução: Inverta a cronologia.

Metamorfose

Liberto, Ícaro, retoma

A forma original. Oblíqua?

Inquietantemente natural.




Poema: apm




Foto: Cília Costa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

JOÃO VILLARET

João Villaret deixou-nos, subitamente,num mês de Janeiro ainda eu não era gente. Recordo-me do meu avô falar-me com entusiasmo do público que enchia os teatros para ouvir aquele homem grande, grande, cuja voz ecoava, ora declamando, ora sussurrando poemas de grandes autores, pois que fora dotado de uma voz e um talento que captava multidões.

Recordo também das sessões que, anos mais tarde,se realizaram no cinema São Jorge, à hora do almoço(custavam vinte e cinco tostões, se não me falha a memória)de evocação de João Villaret, impensáveis nestes tempos de hoje: um palco enorme, uma cadeira vazia, um holofote sobre essa mesma cadeira e um magnífico, para a época, som, gentilmente cedido pela Philips. Só...e a sua voz gravada em vinil, na maior parte dos seus espectáculos no São Luiz. Quarenta minutos mágicos, fruidos em profundo silêncio naquela plateia imensa do São Jorge. "Menino e moço" aprendi a amar a poesia. Sempre, para sempre...

João Villaret :: Isto :: Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

MEDITAÇÕES I

Desenhei um polígono, rigorosamente

geométrico.

Depois, serenamente, intentei descrevê-lo

por palavras.

Em vão. Quantas faces, quantos

sonhos, fruto da imaginação?




Poema: apm

PAÍS DE DESCOBERTAS

Sorvemos da raíz o paladar,

Dispensámos o sal e a pimenta,

Descobrimos a terra à beira-mar,

Nascemos num país de descobertas.




Poema: apm

TEMPO DE PARTIDA

A terra é fresca, entumecida,

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.



Foto e poema: apm

sábado, 31 de janeiro de 2009

OS FRUTOS PROMETIDOS

Seguros são os frutos prometidos

Que colherás de tanto semeares,

Entre as searas abertas pelos dedos,

Que o vento ondulará quando quiseres.




Poema: apm

ERA UM TEMPO

Onde os búzios que em tudo pareciam

o regresso ao tempo das sereias?

Onde o fogo das mãos que se queimavam

junto aos corpos que quase enlouqueciam?


Onde o vento cortando inutilmente

as arestas que cedo os revestiam?

Onde a lua rasgada de desejos,

eclipse de silêncio por momentos?


Era um tempo, alento da manhã,

em que as árvores cobriam prontamente

teus seios, vestígios de romã.


Foto e poemas: apm

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CANTO VIAJEIRO

I

Foi no tojo das palavras,

no rigor da intenção,

que rebentei as amarras,

penetrando no que são.


Cortei as asas do tempo,

perfumei o meu olhar,

e adormeci ao relento,

sem ter pressa de acordar.



II

Como um vulgar marinheiro,

inventei-me num porão,

percorrendo o mundo inteiro.


Os portos foram surgindo,

mas nem por isso mais perto

me encontrei do destino,

como se fosse sumindo.



III

Percorri tudo, se é tudo

o que posso imaginar,

descobri novas paragens,

por cada nesga do mar,

viajei por latitudes,

ainda por localizar.



IV

Dobrei o cabo da esperança,

fundei o meu universo,

temi o vento e a bonança.


Não fui quixote, nem pança,

para tal, faltou-me o jeito.



V

Por fim, sentei-me num canto

- entre rio e outro rio,

entre mar e outro mar -

cansado de correr tanto,

indeciso no lugar,

aí fiquei até hoje.




Foto e poema: apm

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

DESEJO

Apetitoso o fruto que desejo,

Inominado, fresco e sedutor:

Prouvera fosse o tempo das cerejas,

Soubera ser o tempo do calor.

Das giestas não falo porque sei

O perfume agreste que despertam.




Foto e poema: apm

MITO PRIMORDIAL

Do rosto emergiu uma flor,

A flor desabrochou como queria,

Assim nasceu o Amor,

E dele a Noite e o Dia.




Foto e poema: apm


Post separador entre a Antologia "Verdes Anos" e poemas de apm

2. JOSÉ GOMES FERREIRA

VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA


Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinzento, negro, quase-verde...

Mas nunca tem a cor inesperada.



O mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

Folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.



As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.


Tudo é igual, mecânico e exacto.


Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.


E há bairros miseráveis sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...


E obrigam-me a viver até à Morte!


Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?


Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.


Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela.”



E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo...



De José Gomes Ferreira (1900-1985), o autor das Aventuras de João Sem Medo e do Poeta Militante escolhemos um dos seus primeiros poemas escritos "pura seda das palavras"

domingo, 25 de janeiro de 2009

1. ÁLVARO FEIJÓ

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE

1

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro.




como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem

fecha-me os olhos com um beijo.




Eu , Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.


2

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a algúem que se espera a cada instante.




Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.




E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.




Álvaro Feijó (1917-1941) publicou um único livro de poesia "Corsário", mas a sua voz apesar da sua curta vida deixou uma marca na poesia portuguesa.

ANTOLOGIA POÉTICA "VERDES ANOS" (1964/1974)



ANTOLOGIA VERDES ANOS
Com este post inicia-se uma breve antologia poética, uma visão singular, a poesia vivida entre 1964 e 1974, a que dei o nome de "VERDES ANOS", numa evoção do belíssimo tema de Carlos Paredes, 35 anos passados do 25 de Abril.

NAVEGADORES

Se o orvalho cai generosamente,

tecendo um manto fresco e sedutor

que nos aproxima irresistivelmente,

mede a ampulheta o que se sente?


Muito já se disse sobre o tempo

- eficaz tempero de alma ou desespero -

e, afinal, somos só navegadores.




Foto e poema: apm

sábado, 24 de janeiro de 2009

COMO SE FORA UM COLAR

Metódica, Cibele colhia a escassa chuva

na concha das suas mãos vazias.


Com os dedos esguios, habilmente, entrelaça-a,

pingo a pingo, como se fora um colar. Por fim, esbelta

e delicada, afoita-se, por entre o agreste das aroeiras,

mar adentro, oceano acabado de lavrar.




Poema: apm

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009





Ilustração adaptada: ivone ralha

NUM SÓ PONTO

Fixavam os olhos num só ponto,

e esse ponto quase não se via,

como que coberto por um manto

de espesso nevoeiro ou fantasia.


Nem a rudeza do vento,

ou o saber da razão,

lhes suspende o pensamento.

Pelo menos, por enquanto.




Poema: apm
Foto: reinaldo rodrigues para o livro "Pescadores de Mar Muito"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

PESCADORES

Os rostos emergem em contraluz, enquanto

as mãos vão desenhando mecânicos movimentos,

aprendidos numa vida inteira de labuta.


As palavras, instigadas pela maresia,

soltam-se fluidas, ávidas de colheita de

ouvinte atento, adornadas de metáforas que

a memória ternamente fixara.


São assim - Cibele - os pescadores: faunos rodeados

de medusas e um mar imenso a navegar.




Poema: apm


ilustração de Ivone Ralha para o livro "Pescadores de Mar Muito"

domingo, 18 de janeiro de 2009

AS PÉTALAS DA VIDA

Acaricio os teus dedos longos suspensos

sobre mármore Carrara. A emoção do simples

contacto, o fascínio das cores refractados no

cristal líquido dos teus olhos húmidos,

perduram ainda, cobrindo de matizes

a face oculta das pétalas da vida.


Os palácios Cibele - são uma invenção

dos bárbaros, pois neles as pessoas

estão irremediavelmente longe umas das

outras, os candelabros apenas tingindo

de opacidade e ilusão.


De futuro, sempre aparecerás vestida

de orquídea, os olhos marejados

de verde, o corpo entreaberto, a

tensão serena das mãos e do rosto.



Foto e poema: apm

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

FLOR DESEJADA

Nas asas do vento, criei uma flor

cercada de desejos e aguardei,

obstinado, a Primavera.


Passada a época das chuvas, liberta

a memória da espuma das palavras, um

sorriso cúmplice, inebriante, anuncia

discretamente um novo tempo,

táctil e cálido, rodeado de aromas

inesperados.


O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,

como o vidro, mil paixões.



Foto e poema: apm

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O TEMPO

Indulgente o tempo se recria, misterioso

e sagaz, furtivo à mutante luz do dia

ou aos inesperados requebros das marés,

na cadência volátil dos sentidos.



Muitos foram os instrumentos inventados,

da vetusta ampulheta ao relógio de quartzo,

mas é – Cibele – a tua pele suave e delicada,

a mais fiável medida de ternura.



Foto e poema: apm

PARA ALÉM DO MUSGO

Cibele criara, na refracção do medo,

a emoção e assomava, tímida,

entre os dedos, uma flor inominada.

Nos lábios circula-lhe um sorriso, enquanto

recorda tranquilamente a infância:

"Que luz se oculta por detrás do arco-íris?

Que ilumina os poetas, suscita adesões,

desperta os sentidos? Para além do musgo,

que se esconde entre as pedras?"




Foto e poema:apm