quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

AS OSTRAS LIMITARAM-SE A PARTIR

(Ciclo medido, desnudado,

Como as águas de um rio

Desovado)


Cravadas nas margens circulam

palavras de ordem. De resto

foi assim que tudo começou:

As ostras limitaram-se a partir;

As carreiras fluviais intensificaram-se.

Quando a minha filha nasceu,

os golfinhos secundaram o baptismo.




Entretanto, os petroleiros acostaram;

a rosa albardeira empalideceu

um pouco. O ritmo das marés

não parecia alterado.

Na outra margem, dunas de cimento

invadiram as cetárias.




Hoje – diz-se - nas águas sobreaquecidas

do rio, reapareceram sereias.





Foto e poema: apm


Tróia, meses atrás

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

SABEDORIA

Então, graciosamente, Cibele trouxe-lhe um pouco de água cristalina no regaço,

jovem e esbelto, ao que o velho sábio retorquiu, na sua voz débil, porém

firme: "Ainda é tempo de colheita?"




Poema: apm

A SEDA DA SOLIDARIEDADE E DO TALENTO

em trânsito por Setúbal conheci-te ao vivo, simples na tua imensa complexidade,

calcorreámos os caminhos solidários do café central, do círculo cultural, das

colectividades, franqueaste-me a casa, partilhaste os amigos, apoiaste as pequenas

lutas daqueles dias cinzentos, com a tua música e presença...por isso fiquei. tu

partiste antes do tempo...mas ficaste para sempre como um símbolo de generosidade e

talento que agregava, que continua a agregar velhas,novas e contínuas gerações. a

morte saiu à rua num dia cinzento de fevereiro, do velhinho ginásio da escola

comercial...

Zeca Afonso - Filhos da Madrugada!

nana

sábado, 14 de fevereiro de 2009

PRESENÇA

Escalámos obscuros portos,

Assinaladas rotas, pesqueiros revisitados

Nas noites de viagens interditas.

No começo foi assim. Com o tempo

retomamos circunspectos a tonalidade.

O arco-íris - dirás? Ainda não.

Serpenteamos desejos, reconhecemos

amantes,

- e tu, em todo o caso, lá estarás -

Por antecipação.




Poema: apm

CIDADELA

O tempo era a monótona cidadela

de um Outono. Lentamente, as

asas emudeceram e se colaram,

secamente, uma a uma.



Poema: apm



Foto: Cília Costa

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

POEMA DO HOMEM SÓ

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.


Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros não se explicam:

arrefecem.


Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.


Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.


Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos,

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.


Mas este íntimo secreto

que no silêncio concentro,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.




António Gedeão



Foto de Cília Costa de Quadro de Hugo Silva

domingo, 8 de fevereiro de 2009

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.


Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pesoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.

(...)

ANTOLOGIA POÉTICA VERDES ANOS(II)




ANTÓNIO GEDEÃO
O pedagogo excepcional, o poeta da musicalidade e do rigor, o homem austero e generoso que "doou" a sua primeira grande entrevista ao Jornal de Letras e Artes a um miúdo, ex-aluno, cuja poesia os cantores não tardaram a descobrir imortalizando-o, e dando-o a conhecer, em vida, a uma grande fatia do povo português. Dele seleccionei um poema, de que publico um excerto da mais pura seda das palavras.

CABO DA ESPERANÇA

Quanto custou dobrar o Cabo,

Assegurar os mantimentos

E o ânimo dos Homens?

País de marinheiros, de aventuras,

Ninguém pergunta quanto custa

Dobrar o cabo da ternura.


Dobrar o Cabo, sem perder a esperança,

E ao sabor do vento navegar,

Indiferente à tempestade ou à bonança,

Ser uma ilha entre o azul e o mar.



Foto e poema: apm

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

DIA DE ANIVERSÁRIO

Um dia de aniversário

Não surge assim de repente.

Teorema ou corolário?

Substância ou acidente?

Nem uma coisa, nem outra,

Apenas fruto do tempo,

Das folhas do calendário.




Poema: apm

ADIVINHA

Se os anos são primaveras

Em início de estação,

Adivinha em forma ave:

Ainda faz ninho o Verão?


Pelos dias, pelas noites

Em que a razão se desfia,

Se transforma, se recria:

Ternura, coita de amor?

Ou apenas mais um dia?


Solução: Inverta a cronologia.

Metamorfose

Liberto, Ícaro, retoma

A forma original. Oblíqua?

Inquietantemente natural.




Poema: apm




Foto: Cília Costa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

JOÃO VILLARET

João Villaret deixou-nos, subitamente,num mês de Janeiro ainda eu não era gente. Recordo-me do meu avô falar-me com entusiasmo do público que enchia os teatros para ouvir aquele homem grande, grande, cuja voz ecoava, ora declamando, ora sussurrando poemas de grandes autores, pois que fora dotado de uma voz e um talento que captava multidões.

Recordo também das sessões que, anos mais tarde,se realizaram no cinema São Jorge, à hora do almoço(custavam vinte e cinco tostões, se não me falha a memória)de evocação de João Villaret, impensáveis nestes tempos de hoje: um palco enorme, uma cadeira vazia, um holofote sobre essa mesma cadeira e um magnífico, para a época, som, gentilmente cedido pela Philips. Só...e a sua voz gravada em vinil, na maior parte dos seus espectáculos no São Luiz. Quarenta minutos mágicos, fruidos em profundo silêncio naquela plateia imensa do São Jorge. "Menino e moço" aprendi a amar a poesia. Sempre, para sempre...