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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

PAÍS DE DESCOBERTAS

Sorvemos da raíz o paladar,

Dispensámos o sal e a pimenta,

Descobrimos a terra à beira-mar,

Nascemos num país de descobertas.




Poema: apm

TEMPO DE PARTIDA

A terra é fresca, entumecida,

O fruto escasseia ou está ausente,

Aproxima-se o tempo de partida.



Foto e poema: apm

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CANTO VIAJEIRO

I

Foi no tojo das palavras,

no rigor da intenção,

que rebentei as amarras,

penetrando no que são.


Cortei as asas do tempo,

perfumei o meu olhar,

e adormeci ao relento,

sem ter pressa de acordar.



II

Como um vulgar marinheiro,

inventei-me num porão,

percorrendo o mundo inteiro.


Os portos foram surgindo,

mas nem por isso mais perto

me encontrei do destino,

como se fosse sumindo.



III

Percorri tudo, se é tudo

o que posso imaginar,

descobri novas paragens,

por cada nesga do mar,

viajei por latitudes,

ainda por localizar.



IV

Dobrei o cabo da esperança,

fundei o meu universo,

temi o vento e a bonança.


Não fui quixote, nem pança,

para tal, faltou-me o jeito.



V

Por fim, sentei-me num canto

- entre rio e outro rio,

entre mar e outro mar -

cansado de correr tanto,

indeciso no lugar,

aí fiquei até hoje.




Foto e poema: apm

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

MITO PRIMORDIAL

Do rosto emergiu uma flor,

A flor desabrochou como queria,

Assim nasceu o Amor,

E dele a Noite e o Dia.




Foto e poema: apm

2. JOSÉ GOMES FERREIRA

VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA


Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinzento, negro, quase-verde...

Mas nunca tem a cor inesperada.



O mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

Folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.



As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.


Tudo é igual, mecânico e exacto.


Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.


E há bairros miseráveis sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...


E obrigam-me a viver até à Morte!


Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?


Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.


Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela.”



E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo...



De José Gomes Ferreira (1900-1985), o autor das Aventuras de João Sem Medo e do Poeta Militante escolhemos um dos seus primeiros poemas escritos "pura seda das palavras"

domingo, 25 de janeiro de 2009

1. ÁLVARO FEIJÓ

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE

1

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro.




como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem

fecha-me os olhos com um beijo.




Eu , Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.


2

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a algúem que se espera a cada instante.




Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.




E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.




Álvaro Feijó (1917-1941) publicou um único livro de poesia "Corsário", mas a sua voz apesar da sua curta vida deixou uma marca na poesia portuguesa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

NUM SÓ PONTO

Fixavam os olhos num só ponto,

e esse ponto quase não se via,

como que coberto por um manto

de espesso nevoeiro ou fantasia.


Nem a rudeza do vento,

ou o saber da razão,

lhes suspende o pensamento.

Pelo menos, por enquanto.




Poema: apm
Foto: reinaldo rodrigues para o livro "Pescadores de Mar Muito"

domingo, 18 de janeiro de 2009

AS PÉTALAS DA VIDA

Acaricio os teus dedos longos suspensos

sobre mármore Carrara. A emoção do simples

contacto, o fascínio das cores refractados no

cristal líquido dos teus olhos húmidos,

perduram ainda, cobrindo de matizes

a face oculta das pétalas da vida.


Os palácios Cibele - são uma invenção

dos bárbaros, pois neles as pessoas

estão irremediavelmente longe umas das

outras, os candelabros apenas tingindo

de opacidade e ilusão.


De futuro, sempre aparecerás vestida

de orquídea, os olhos marejados

de verde, o corpo entreaberto, a

tensão serena das mãos e do rosto.



Foto e poema: apm

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

NAS FÍMBRIAS DOS SAPAIS

Nas fímbrias dos sapais, garças boieiras

erguem-se em bandos, solitárias e

delicadas, testemunhos frágeis

dos frutos do trabalho

e afeição.


Foram instantes breves, esplenderosos,

um pouco de maresia em fim de

tarde. Pelas faces, serenas,

espraiam-se esteiros em mansas

ondas de desejo.



Foto e poema: apm

sábado, 3 de janeiro de 2009

ENTRE O VAZIO E A COR

Caminharás entre os astros, deambulando

entre o vazio e a cor, procurando

o fogo nos seixos húmidos do mar.


Meditarás os antigos: a ampulheta

desvenda o tempo, que circunscreve,

secretamente, deixando um rasto de luz fria.


É isto - Cibele - o paradoxo cruel

dos sentimentos: o poder do amor

gerando o seu contrário, e o contrário

imobilizado por pudor.



Foto e poema: apm

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O SEGREDO DAS PALAVRAS

0 sonho, Cibele, é uma taça, uma flor ignota, um desejo imenso

que persiste, mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore. Cativo, neste lugar,

perco a exacta noção do ser e do não ser, do tudo ou do nada,

( se é que o todo pode estar circunscrito à palavra…)


Procurarás as estrelas, que iluminarão o caminho. Se solitário, a luz é mais intensa.


Despojada de tudo, encontrarás o segredo das palavras:

ternura, amor, ou apenas sede e um sereno gesto a partilhar

na colheita de uma rosa brava.


Poema e foto: apm

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

OS AFECTOS

Os afectos, disseste, são como as flores,

rosas, gladíolos ou simples urzes:

Brotam, desabrocham ou apenas definham,

como uma acidental conversa ao fim da tarde,

aspirando a brisa que sopra de mansinho.



Na monda dos afectos, é fugaz, Cibele,

a botânica gentil dos sentimentos.



Foto e poema: apm

DEDICATÓRIA

Volúpia de mil desejos,

Perfume de água e sal,

Em ti deposito um beijo

E a luz, que é natural.


Foto e poema: apm