sábado, 10 de abril de 2010

PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?


PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?
Tag: quase pueril

Quando no duro empedrado de basalto inventávamos campos da bola onde disputávamos campeonatos intensos e eu aparecia todo esfolado mas não doía, tu ralhavas mas eu era feliz,

Quando a menina Júlia, que regressava de táxi todas as manhãs, ao sair do carro deixava entrever um pouco mais da branca pele por sob o rodado da saia, eu também não te dizia que estava lá à sua espera,

Da nossa vizinha, do andar de baixo, essa sabias, que me oferecia livros de que fiquei amigo para toda a vida: O "Sandokan" do Salgari, mas também o Júlio Dinis e Os meus Amores do Trindade Coelho, e tantos outros, de que jamais me desfiz,

Também te não falei da minha primeira namorada, que acompanhava à saída da escola todas as tardes, subindo as centenas de degraus, quase até sua casa, de mão dada, e de uma flor que, por timidez, nunca lhe dei,

Quando decidiste – eu crescera – mudar para um bairro novo de prédios grandes (mesmo que para isso labutasses noite e dia), onde se não podia jogar na rua e eu não conhecia ninguém, também não te disse como tanto gostava do bairro que acabara de deixar…

Pai, para que querias que eu fosse ainda mais feliz?


foto e texto:
arlindo pato mota

1 comentário:

Joana disse...

Gosto destes textos falsamente ingénuos, muito menos pueris. Subtis, diria, e muita reflexão não aparente...